João Luís
Almeida Machado
Ler ou
não ler...
Eis a
questão!

Todos os anos as escolas preparam listas de leituras
que serão pedidas aos alunos. A base dessas relações
de livros é variável, em muitos casos sustentam-se
nos títulos propostos pelos principais exames
vestibulares do país (especialmente para alunos do
Ensino Médio e para as duas últimas séries do Ensino
Fundamental).
Nas séries anteriores a proposta também existe, mas
a forma como a lista de títulos a serem lidos
anualmente é elaborada é variável. Cada escola e,
mais especificamente, cada professor cria uma
relação de livros de acordo com suas próprias
aquisições e leituras anteriores.
Trata-se quase sempre de um trabalho executado de
forma bastante solitária e isolada pelos professores
de língua portuguesa e literatura. Praticamente não
há intercâmbio com educadores de outras disciplinas e,
consequentemente, uma necessária diversidade e
riqueza que poderia surgir a partir de recomendações
e sugestões de professores de matemática, ciências,
história, geografia, filosofia, inglês, artes ou
educação física quase nunca chega a acontecer...
Não se trata aqui de refutar ou censurar as escolhas
e alternativas de leituras indicadas pelos
professores da área de códigos e linguagens. Pelo
contrário, como especialistas dessa nobre área do
conhecimento, cabe a eles a decisão final sobre essa
relação de livros e isso deve ser respeitado. O que
se está sugerindo é que se estabeleça um saudável e
imprescindível diálogo durante o planejamento no
início do ano letivo para que novas idéias possam
surgir a partir da experiência de leitura dos demais
colegas educadores.

As crianças têm que ser incentivadas a
leitura desde a mais tenra idade...
Nesse sentido cabe, inclusive, criar uma agenda de
leituras que acomode pelo menos uma contribuição que
contemple livros voltados ao pensamento científico,
filosófico, artístico, histórico ou geográfico. Como
já tive a oportunidade de mencionar anteriormente,
programar a leitura de clássicos como os livros de
Isaac Asimov, Phillip K. Dick, H. G. Wells, Júlio
Verne ou Mary Shelley (entre tantos outros) iria
despertar a curiosidade científica dos estudantes ao
mesmo tempo em que ajudaria a melhorar sua relação
com a linguagem.
Intercalar autores como Machado de Assis, Rachel de
Queiroz, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade
e outros grandes mestres da literatura brasileira
com autores clássicos que trabalham com temas
relacionados à ciência ou a filosofia pode,
inclusive, tornar o intercâmbio entre as disciplinas
melhor e mais regular. Leituras alternadas iriam
fomentar a participação de outros docentes nas
considerações e nos debates sobre as obras lidas.
E porque estou abordando essa questão agora, em
dezembro, quando o ano letivo está se encerrando?
O motivo para isso refere-se ao fato de que todos os
anos muitos alunos apenas “fingem” ler as obras
pedidas. Apóiam-se em alguns de seus colegas que
efetivamente realizaram essa árdua, porém
agradabilíssima tarefa, para coletar informações
sobre os títulos requisitados já que em algum
momento serão avaliados sobre as referidas produções
literárias...

Os universitários devem
cultivar o hábito de visitar com
freqüência as bibliotecas das
instituições em que estudam e também os
acervos públicos.
Há muitos que, atualmente, em virtude da expansão e
rapidíssimo crescimento da Internet, nem mesmo
conversam com os colegas para se informar sobre os
livros pedidos pelos professores de português e/ou
literatura. A profusão de sites que simplesmente
“dão” todas as informações, com fichas completas
sobre as tramas, descrições dos personagens,
interpretação dos acontecimentos e ainda comentários
especializados torna qualquer leitura aparentemente
desnecessária...
E o mais interessante é que os casos de alunos que
não leram as obras e que se valeram da Internet ou
que contaram com o apoio de colegas que leram da
primeira a última página da referida bibliografia
têm aumentado muito de ano para ano. E não são
poucas as situações em que esses “espertinhos”
acabam tendo notas melhores do que os aplicados
estudantes que leram a obra completa...
E o pior de tudo é que também não são poucos os
casos de professores que se dão conta de que os
alunos utilizaram esse expediente “fraudulento” para
conseguir uma boa avaliação e que, mesmo assim,
fecham os olhos para o ocorrido e permitem que esse
comportamento reprovável continue a acontecer. Será
que não percebem o prejuízo que estão legando para
os alunos e também para a comunidade?
Não apenas no que se refere ao conhecimento das
obras e de seus autores, mas também no quesito ético
e moral. Ao permitir que essa prática condenável de
utilização de resumos obtidos a partir da Internet
(ou de qualquer outro meio) os professores estão
simplesmente dizendo que em nosso país prevalece
ainda nos dias de hoje a chamada “lei de Gérson”,
aquela em que se preconiza que “temos que levar
vantagem em tudo”, custe o que custar...

O exemplo dos professores e
dos pais é de essencial importância para
que os estudantes se sintam motivados
para o exercício da leitura.
Até mesmo por esse motivo aconselho a leitura de
obras de filosofia e sociologia nesses novos
projetos de leituras a serem criados para os
próximos anos. Um pouco de Descartes, Rousseau,
Marx, Nietzsche, Platão ou Sartre pode ser muito
interessante para que as nossas crianças e
adolescentes entendam melhor não só as questões de
ética e moral como também as de economia, política,
arte, estética,...
Isso obviamente demandaria pesquisa a ser realizada
conjuntamente pelo grupo de professores envolvidos
nesse projeto. Para a aplicação de livros com
autores desse quilate seria necessário que os
próprios educadores os lessem com a devida atenção e
cuidado para se apropriar de idéias, conceitos,
explicações e também para que pudessem analisar,
interpretar e considerar os textos e tirar suas
próprias conclusões...
Mas até mesmo nesse sentido seria importante. O
brasileiro lê muito pouco. E os professores não são
exceções nesse sentido. Acabam até mesmo por questão
de ofício tendo que ler mais, mesmo assim não da
forma constante e esperada. Diga-se de passagem que
são também reféns do sistema educacional brasileiro
de características evidentemente disciplinares...
Isso os faz ler apenas livros que versam sobre
assuntos relacionados às disciplinas com as quais
trabalham nas escolas. E o conhecimento é dinâmico.
Pede que tenhamos uma visão mais ampla e abrangente
do mundo em que vivemos. Temos que adotar uma
postura de pesquisadores e abrir os olhos para a
ciência, as atualidades, a economia, a política, as
artes,...
Acredito que até mesmo pelo fato de sermos tão
fechados dentro das redomas disciplinares que nos
sufocam acabamos também levando os nossos estudantes
a vivenciar e partilhar do mesmo olhar reduzido e
reducionista em relação ao mundo que nos cerca. Ao
propor leituras que nos trazem ao convívio de
literatos, cientistas, filósofos, jornalistas,
sociólogos, historiadores, geógrafos e estudiosos de
várias áreas do conhecimento tentamos mostrar que há
uma riqueza cultural de grandes dimensões a ser
descoberta através da leitura.
Embarcar numa boa leitura é garantia de prazer,
satisfação, conhecimentos novos e certamente de
crescimento pessoal e também profissional. Trata-se
mesmo de um diferencial que garante maior
qualificação e que lega possibilidades de maior
valorização no mercado de trabalho. Se continuarmos
permitindo que os alunos não leiam ou se mantivermos
os atuais projetos de leitura estaremos ou não
comprometendo o amanhã de nossos alunos? Pense bem a
respeito e, se precisar posso até mesmo dar algumas
sugestões de leituras para aprofundar esse tema...
Obs. A propósito, que tal dar uma olhada nos artigos
do Planeta Literatura (http://www.planetaeducacao.com.br/new/colunas.asp?col=1).
O foco principal é a diversidade. Pode ser
inspirador...
João Luís Almeida Machado
Editor do Portal Planeta Educação;
Doutorando pela PUC-SP no programa
Educação:Currículo; Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie(SP); Professor
universitário e Pesquisador.