João Luís
Almeida Machado
Ensinar
valores:
Atribuição essencial das escolas

Matemática ou português? História ou biologia?
Inglês ou física? Geografia ou artes? Educação
física ou química? Qual é a mais importante
disciplina trabalhada em uma escola? E na sua
escola, qual é a área de mais destaque: humanas,
exatas ou biológicas? É certo que cada escola e seus
professores trabalham com afinco para que os
resultados obtidos em suas matérias específicas
resultem em sucesso.
Avaliações realizadas pelo governo, vestibulares,
torneios envolvendo estudantes e mesmo provas
internacionais orientam e direcionam as escolas em
relação aos pontos fortes de seus currículos
escolares. Quando o êxito maior é obtido em
matemática ou biologia, a tendência é incentivar
ainda mais os profissionais da área e até mesmo
dar-lhes mais subsídios para que o brilho no
segmento continue.
Se há, por outro lado, falhas evidentes no ensino de
física ou história, com resultados ruins no ENEM ou
nos exames vestibulares, as escolas passam a se
organizar para remediar a situação e reverter os
gráficos em queda para que seus alunos possam ter um
rendimento superior ao anteriormente conquistado.
Não há dúvidas quanto à importância de cada uma
dessas áreas do conhecimento. Assim como não devemos
atribuir mais relevância a uma determinada
disciplina em detrimento das outras, como aliás é
praxe em escolas brasileiras, em que há uma
supervalorização da matemática e do português
comparativamente com as outras matérias...

Quais os valores que nos levam a felicidade?
Existe, no entanto, uma série de conhecimentos que
não fazem parte dos currículos elaborados para
nenhuma de nossas escolas. Não há um trabalho
específico sobre esses saberes na educação infantil
nem, tampouco, no ensino fundamental; a preocupação
sobre essa temática no ensino médio até existe, mas
não se configura numa programação ou num projeto
perene, situação que se repete no ensino superior...
Os planos de ensino preparados pelos professores não
vislumbram a área. Os projetos e estudos
governamentais mais recentes (aqueles que vêm sendo
produzidos e realizados desde o governo de Fernando
Henrique Cardoso e que tiveram continuidade com o
presidente Lula) referem-se à mesma, cobram ações
quanto a ela, destacam sua importância, mas não
indicam caminhos claros e nem mesmo ações
efetivas...
A discussão sobre o ensino de valores na escola não
é uma das prioridades estabelecidas pelos diretores,
mantenedores particulares, professores ou ainda pelo
estado. A preocupação maior continua sendo a
obtenção de resultados melhores nas disciplinas. E,
diga-se de passagem, o ensino de cada uma das
matérias escolares continua totalmente estanque, ou
seja, totalmente dissociado.
Eventualmente uma ou outra escola, ou ainda alguns
professores por iniciativa pessoal, se empenham em
realizar projetos de caráter interdisciplinar. Mesmo
esses anônimos heróis e seus grupos de trabalho têm
grandes dificuldades em atingir os objetivos
desejados, nunca por falta de disposição ou empenho,
na maior parte dos casos por falta de incentivo ou
da necessária informação sobre essa forma de atuação
e realização.

A interdisciplinaridade pede o
trabalho conjunto, compartilhado, sem
fronteiras entre as disciplinas, respeitando
e valorizando as diferenças, e que antevê,
considera e preconiza também a questão dos
valores.
É notória, por exemplo, a falta de esclarecimento
quanto à multidisciplinaridade,
interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.
Precisamos de mais estudo para entender melhor cada
uma delas e verificar como podemos ou devemos
encaminhar os projetos que desenvolvemos em nossas
escolas. Nesse sentido, uma mais que necessária
reflexão sobre os textos e livros produzidos por
Ivani Fazenda, a mais importante pesquisadora sobre
o tema em nosso país, é de fundamental
importância...
Quanto aos valores, por mais que teimemos em
continuar fazendo “vista grossa” relativamente aos
mesmos, não há como negar que eles estão presentes
em todas as disciplinas e em praticamente todas as
atividades que se desenvolvem numa escola. Mais do
que isso, os valores também são trabalhados
indiretamente quando estamos no ambiente
educacional...
No que tange as matérias escolares, por exemplo,
temos que destacar que a prática investigativa, a
disciplina para o estudo, a curiosidade científica
ou mesmo o hábito da leitura ou da escrita somente
podem ser repassados para os estudantes a partir do
exemplo dado pelo professor e da organização das
aulas para que tais práticas e realizações nelas
estejam inseridas.

Estender as mãos, preocupar-se
com o próximo, zelar pelo planeta em que
vivemos, agir dentro de princípios de
solidariedade ou lutar pelos direitos
humanos são ações derivadas do ensino de
valores que também compete a escola.
Professores que dão aulas em que há apenas a
preocupação de reproduzir os saberes de uma área do
conhecimento como a geografia ou a química não
ensejam o aluno a afeiçoar-se ou a desejar aprender.
E aqui não nos referimos apenas a um trabalho de
ordem prática, previamente estipulado em suas bases
pelos professores, como parte de um currículo e de
um planejamento (também isso), mas principalmente a
consciência de que essas atitudes e realizações
devem se tornar valores.
E para que isso aconteça professores, diretores,
coordenadores e orientadores devem acreditar que
esse trabalho não apenas permeia os conteúdos, mas
que a questão dos valores estabelece as bases para
que o aprendizado aconteça e, principalmente, para
que a formação integral do aluno se concretize.
Quando afirmei que até indiretamente se trabalham
valores em sala de aula ou em qualquer ambiente de
uma escola o que queria dizer era que a postura dos
educadores, seu comprometimento com a área de
trabalho que escolheram, a forma como esses
profissionais se vestem, o modo como se comunicam,
seus hábitos ou sua organização pessoal são também
indicativos preciosos dos valores que consideram
importantes para suas vidas e, por analogia, também
para a de todas as outras pessoas...
Algumas vezes essa influência dos valores pessoais
de um determinado professor sobre seus alunos fica
mais evidente e nos permite compreender com mais
clareza o quanto esse trabalho deve nos preocupar.
Conheço casos de profissionais que tinham
envolvimento com causas sociais ou ambientais e que,
direta ou indiretamente, em suas aulas, acabavam
demonstrando o quanto essa sua atuação em ONGs
aumentava o seu conhecimento, ajudava a melhorar o
mundo ao seu redor e, consequentemente, os fazia se
sentir muito melhor como pessoas.
Há, também, os contra-exemplos. Casos exemplares são
aqueles de professores desleixados com seus
materiais, desmazelados em seu figurino,
despreocupados com a sua saúde (o que se revela, por
exemplo, em sua alimentação) ou ainda
desinteressados em estudar mais e aperfeiçoar-se
profissionalmente. Estudantes atentos (ou nem tanto)
percebem claramente todo esse descaso pessoal e
profissional e passam mesmo a utilizar tal professor
como referência para justificar o seu próprio
desinteresse pessoal com a escola ou outras
instâncias de suas vidas.
O que se deseja ao abordar tal temática é que ela
não seja marginalizada como tem sido no tocante aos
planos de trabalho e projetos educacionais. Mais do
que isso, que se torne parte integrante das
discussões e reuniões do corpo docente e que leve as
escolas a organizar-se para que o ensino de valores
aconteça como parte integrante do currículo escolar
(não como mais uma disciplina escolar, mas como uma
parte do trabalho realizado em cada uma das
matérias) e também das ações dos educadores que
estão em constante contato com os alunos, que dessa
forma teriam que ser muito mais conscientes...
Para que isso aconteça é importante que as escolas
estudem a questão com maior profundidade e que
organizem seus professores para que, conjuntamente,
possa ser criado um plano geral, de orientação para
todos os membros do corpo docente, quanto aos
valores prezados por todos ali presentes. Sendo
assim, fica a proposta para que isso seja logo
estudado e colocado em prática...
João
Luís Almeida Machado
Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando
pela PUC-SP no programa
Educação:Currículo; Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie(SP); Professor
universitário e Pesquisador.