| Resultados de pesquisa confirmam mudança de perfil entre os que escolhem a docência. Maior parte dos candidatos vem de famílias de baixa renda e pouca escolarização, estudou em escola pública, trabalha para pagar a graduação e faz parte de um grupo com fraco repertório cultural.1 |
Fernanda
Salla e
Rodrigo
Ratier
(novaescola@atleitor.com.br)
Fatores
externos
ajustam a
escolha
profissional
à realidade
Dois fatores foram
elencados
pelos jovens
como os mais
atraentes
para a
escolha da
carreira: a
possibilidade
de trabalhar
com crianças
e ensinar e
transmitir
conhecimentos.
De fato,
outros
estudos
confirmam
que o
professor se
ampara em
valores
altruístas e
se vê como
um agente de
transformação
social,
reforçando a
ligação
entre a
docência e o
prazer de
trabalhar
com a
aprendizagem.
Mas a opção de se tornar
professor
também sofre
forte
influência
de fatores
externos,
que acabam
ajustando a
escolha
profissional
à realidade.
Conscientes
das
dificuldades
que
enfrentarão
para passar
num curso
superior,
adolescentes
de baixa
renda
escolhem
carreiras
mais
próximas de
suas
possibilidades,
levando em
conta o
baixo custo
da
mensalidade,
a facilidade
de ser
admitido e a
rápida
obtenção de
um emprego.
A soma desses fatores tem
levado à
docência um
grupo com
fraca
bagagem
cultural.
Ainda
segundo o
Enade, 45%
dos futuros
professores
declaram
conhecimento
praticamente
nulo em
Inglês.
Quando o
recorte foca
apenas os
ingressantes
nas
graduações
de Pedagogia
(no caso,
por meio dos
dados do
Exame
Nacional do
Ensino Médio
de 2008), o
panorama
geral revela
alunos com
dificuldades
de escrita e
compreensão
de texto nas
questões de
Língua
Portuguesa.
Um perfil
preocupante
Além das
dificuldades
econômicas,
alunos dos
cursos de
Pedagogia e
Licenciaturas
chegam à
universidade
com poucas
referências
culturais:

Notas de
corte de
Pedagogia
estão entre
as mais
baixas
Isso se materializa nas
notas de
corte dos
vestibulares.
No maior do
país, o da
Fundação
Universitária
para o
Vestibular (Fuvest),
dos 13
cursos com
menor nota
de corte em
2010, quatro
são
Licenciaturas,
e duas,
disciplinas
da Educação
Básica.
Pedagogia
não fica
nada
distante:
para o curso
oferecido no
campus de
São Paulo, a
nota mínima
exigida para
a segunda
fase foi
apenas 1
ponto acima
das
carreiras
mais fáceis.
“Em resumo, os futuros
professores
são
estudantes
que,
principalmente
pelas
restrições
financeiras,
tiveram
poucos
recursos
para
investir em
ações que
lhes
permitissem
acesso a
leitura,
cinema,
teatro,
eventos,
exposições e
viagens”,
afirma o
relatório
final da
pesquisa FVC/FCC.
Entretanto,
em vez de
culpar os
futuros
docentes por
suas
deficiências,
o caminho é
potencializar
as
características
produtivas
desses
jovens – a
luta pela
ascensão
social por
meio da
profissão –
e
auxiliá-los
a superar
suas
limitações.
“Eles querem
demais
aprender e
têm respeito
pela
profissão de
professor”,
diz Alda
Judith Alves
Mazzotti,
especialista
em
Psicologia
Educacional
e professora
da
Universidade
Estácio de
Sá, no Rio
de Janeiro.
Garantir uma
formação
inicial e
continuada
que cubra as
lacunas de
repertório
dos
candidatos à
sala de aula
é um dos
caminhos
para
reverter o
ciclo
vicioso que
produz
poucos (e
maus)
professores.
|
Foto: Sérgio Vignes |
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Aprender com os alunos
"Escolhi Pedagogia porque sempre gostei de ir à escola. Hoje, o que mais me motiva é a possibilidade de troca com as crianças. Aprendo muito com os pequenos. É claro que não dá para negar que a profissão está desvalorizada. Os salários são baixos, e as condições de trabalho, ruins, mas o mais problemático é que a Pedagogia é tida como um curso menor mesmo nas melhores universidades. Acredito que existam estudantes que se graduam apenas para ter um diploma de formação superior sem pensar em ser professores.” |
| FLORA BAZZO SCHMIDT, 22 anos, aluna de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis |
* Entre os
alunos do
último ano
de Pedagogia
e
Licenciaturas.
1 -
Fonte:
Questionários
socioeconômicos
do Enade de
2005.
Foto
Dercílio.
Ilustração
Daniella
Domingues
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