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Trabalhos escolares: terceira nota ou aprendizagem?

Rosicler Schuster

          Em 1984, quando cursava o terceiro ano do curso secundário, meu professor de Literatura Brasileira solicitou que fizéssemos, meu grupo e eu, um trabalho sobre o arcadismo. Lá fomos nós, como bons alunos, rumo à pesquisa que, à época, consistia em procurar o assunto em dois ou três livros, ler alguns parágrafos, copiar fragmentos que achássemos interessantes, montar um texto de várias páginas (isso era muito importante para esse professor!), caprichar no “passar a limpo”, fazer uma capa bonita e... pronto! Estava concluído o trabalho sobre o arcadismo e, possivelmente, seria um trabalho nove ou dez.

          Em 2001, quando lecionava para os primeiros anos do ensino médio, eu, agora professora de Literatura Brasileira, solicitei a meus alunos que fizessem um trabalho sobre o arcadismo. Lá foram eles, como bons alunos, rumo à pesquisa que, hoje, geralmente consiste em acessar a Internet e copiar todo ou parte do conteúdo de algum site interessante (existem tantos sobre o assunto!), colar tudo isso em um arquivo novo, uniformizar o tipo de letra e o seu tamanho, inserir algumas figuras, também copiadas da Net, montar um capa “bacaninha” e... pronto! Estava concluído o trabalho sobre o arcadismo e, possivelmente, seria um trabalho nove ou dez.

Círculo Vicioso
          Dezessete anos depois, fui vítima e algoz dos mesmos erros. O fato é que, há muito, mas muito tempo, o trabalho escolar que o professor solicita ao aluno pouco mudou. De 1984 para cá, descobrimos o microcomputador caseiro, criamos e acessamos a Internet, Bill Gates enriqueceu, a União Soviética fragmentou-se, derrubaram as torres gêmeas, nossos alunos de 15 anos entendem de computador mais do que nós, já temos sonda em Marte, descobrimos a clonagem, inventamos o Viagra e o trabalho escolar... Bem, o trabalho escolar – salvo raras exceções – continua o mesmo, a mesma farsa de 17 anos atrás: o professor precisa de uma nota para lançar no seu diário, o aluno também. Aprendizagem, nenhuma. Eu, particularmente, enfadei-me (para não dizer envergonhei-me) de trabalhar assim. E, para minha surpresa e satisfação, descobri que não sou a única: o mundo está cheio de professores que almejam dar uma utilidade verdadeira ao “trabalho escolar”. Em minha busca pelo trabalho útil, precisei, primeiro, descobrir o que é, cientificamente, um trabalho escolar. E acabei deparando-me com uma definição (dentre tantas que existem), que vê essa atividade extra como “as atividades propostas para serem desenvolvidas em sala de aula e fora dessa, que objetivam a complementação das habilidades trabalhadas no ambiente escolar”. (Osmar de Souza, inédito) Descobri, também, que nem todas as atividades se enquadram na definição de trabalho escolar. Elas se restringem às atividades lúdicas, artísticas, textuais e pesquisas.

Afinal, o que é a pesquisa?
          Solucionada uma dúvida, começou outra: normalmente, a principal atividade desenvolvida pelos professores, a título de “trabalho escolar”, é a pesquisa. Então, afinal, o que é pesquisa? Outra busca, outro tombo: pesquisa não era nada daquilo que eu imaginava. Escolhi, também, a conceituação de pesquisa (entre tantas mais!) que melhor se adaptou ao que eu, como educadora, penso a respeito de educação: “pesquisa é um processo investigativo, a ser trabalhado individualmente ou em grupo, no qual se buscam outras vozes (de autores, alunos, professores, comunidade) que tem por finalidade levar o aluno à reflexão e construção de determinado conhecimento. Entende-se, por conseguinte, que pesquisa não pressupõe cópia nem colagem, e se faz necessária a sua normatização, bem como a consulta a diversas fontes.” (Osmar de Souza, inédito; Grupo do Depto. de Ling., Códigos e suas Tecnologias – Curso e Colégio Energia, Blumenau, SC). Partindo dessa definição, e sem pretender encerrar a discussão acerca do tema nem tampouco apresentá-lo como verdade irrefutável, acredito ser pertinente algumas reflexões sobre o assunto:

Reflexões sobre pesquisas escolares:

» Pesquisa é busca, investigação. O aluno pode se empenhar em buscar um assunto que não lhe interessa ou para o qual o professor não despertou seu interesse?

» Considerando o sistema no qual estamos inseridos, que cobra tempo, conteúdo, produtividade, não haveria a possibilidade do professor abrir, dentro de um mesmo tema, subtemas que possam despertar a curiosidade do aluno?

» Que tipo de avaliação estivemos fazendo esses anos todos, o que estivemos premiando, quando avaliamos bem um trabalho copiado?

» Nós, professores, sabemos fazer pesquisa para poder avaliar o aluno que a faz?

» Estivemos conscientes do desperdício de tempo, de papel, de paciência, ao propormos pesquisas medíocres?

» Continuaremos, sabendo de tudo isso, a ter o mesmo procedimento em sala de aula?

          Você, que está lendo este artigo não sei se vai mudar, ou se já é um dos incomodados que percebeu a inutilidade de certas pesquisas e certos trabalhos e, como eu, pretende fazer essa pequena revolução em sala de aula. Não vou ganhar nenhum aumento de salário por isso. Nem promoção. Entre tantos motivos que poderiam ser elencados, essa mudança de postura é uma tentativa de não desperdiçar o meu tempo nem o do aluno, evitando conteúdos de pesquisa já totalmente explicados em sala, ou pior, conteúdos que sabemos ser desnecessários, mas que solicitamos, em forma de pesquisa, por que precisamos tanto daquela terceira nota... Tenho absoluta certeza que o meu aluno vai saber valorizar isso, vai aprender mais com pesquisas e trabalhos bem elaborados e bem avaliados; vai perceber, com o passar do tempo, como foi bom ter tido uma professora que teve a humildade de reconhecer que falhou e a dignidade de reaprender a ensinar. Penso que essa, além de todos os benefícios que as minhas descobertas propiciarão aos meus alunos, é a maior lição que posso dar.

 

 

Fonte: indicação de colega professor através de e-mail. Fonte não fornecida.

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