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Como
lidar com os jovens de hoje
Os
valores importantes para a juventude atual
diferem dos de 30 anos atrás. Saiba como os
professores estão enfrentando essa situação
Publicado
em 22/06/2005 - 02:00
Recente pesquisa feita pela MTV brasileira, o
Dossiê Universo Jovem, com participação de
jovens de 15 a 30 anos das classes A, B e C de São
Paulo, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e
Porto Alegre, apontou resultados significativos.
Beleza virou de uma vez por todas um valor
assumido, importante arma de conquista, e ganhou
a atenção dos jovens: 37% definiram como
principal característica de sua geração
"ser vaidosa / preocupada demais com a
aparência".
Além disso, 8% declararam que "certamente
estariam dispostos a ser 25% menos inteligentes
se pudessem ser 25% mais bonitos", e outros
7% declararam que "provavelmente
abririam mão de 25% de sua inteligência em
troca da mesma porcentagem em beleza".
As respostas dão uma idéia de como está o
perfil da juventude brasileira atual. Não se
pode generalizar, mas, de uma maneira geral, é
possível avaliar os valores considerados
importantes para os jovens. Estar na
universidade é questão de status. Adquirir
conhecimento está em segundo plano.
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Dossiê
Universo Jovem
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-60%
acreditam que pessoas mais bonitas têm mais
oportunidades na vida
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-55%
consideram aceitável que um jovem faça plástica
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-53%
já fumaram cigarro
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-55%
consomem cerveja/chopp habitualmente
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-53%
já ficaram com mais de uma pessoa na mesma noite
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-94%
concordam que as drogas estão fáceis
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-23%
já experimentaram maconha
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Fonte:MTV
Brasil
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Mudança
de público
Com este perfil de alunos diferentes do passado,
como fica a relação aluno-professor? "Na
verdade, a relação interpessoal é relativa,
tem um limite. Acho que o mais importante é que
se consiga motivar os alunos para que possam
fazer as coisas pedidas e respeitar o professor.
Hoje, o desafio é motivar o estudante para que
ele acredite em tudo o que está acontecendo e não
entenda o curso apenas como uma preparação
para o mercado de trabalho", aponta o
professor de Comunicação Social da
São
Marcos (Universidade São Marcos) e da
USP (Universidade de São Paulo), Luiz
Fernando Santoro.
Já a professora do mestrado em Educação da
PUC-Minas,
Maria Inez Salgado de Souza, acredita que há
uma crise na relação entre professores e
alunos em geral, no sistema público e no
privado. "No Ensino Básico essas crises de
relacionamento se refletem em atitudes mais
agressivas, que chegam até uma situação-limite.
Nos sistemas privados de ensino o aluno já é
mais contido, mas mesmo assim eu acredito que há
uma dificuldade de ordem diferente. Não é a
questão do respeito, mas do valor que é atribuído
ao professor", observa.
Os alunos de escolas privadas consideram o
professor apenas uma ponta do sistema. Como não
é visto como peça-chave, o estudante acha que
não deve tanto respeito ao professor. Mas por
outro lado, acha que o docente deve a ele várias
obrigações. "No Ensino Superior há
alguns conflitos em termos menores pelo fato do
aluno já ser adulto e vir de outros momentos e
segmentos que o educaram. Acredito que ao chegar
na universidade há um fator de aumento da
compreensão e empatia entre professor e aluno.
Mas há casos também de conflitos, por exemplo,
de aluno pedir para o professor ser mandado
embora", explica Maria Inez.
Há 30
anos...
Antigamente, os valores de disciplina e respeito
pelos professores, os "mestres", eram
muito cultuados pela sociedade. O tratamento era
na base do "senhor",
"senhora" e não era admitido chamar
um mestre por "você". De uma forma ou
de outra, a relação entre alunos e professores
era mais distante se compararmos aos dias de
hoje. É claro que a maioria dos professores não
se incomoda de ser chamada por "você".
O grande problema hoje é o desrespeito que essa
informalidade pode ter acarretado.
"A primeira coisa que mudou, na minha opinião,
é que havia uma relação de respeito um pouco
maior. Além disso, como não existiam tantas
universidades e nem tantos professores, a
impressão que eu tenho é que aqueles que
estavam na carreira acadêmica tinham um status
muito maior junto aos alunos", aponta
Santoro.
Hoje, com a facilidade de se abrir cursos de
graduação, surgem muitas novas faculdades e,
por esse motivo, pode haver pessoas de
diferentes formações dando aula, nem sempre de
qualidade comprovada, segundo Santoro. "A
diferença principal há 30 anos é que os
professores eram ídolos respeitados, talvez por
não existirem tantos e nem tantas faculdades.
Tem gente que vai dar aula e não tem noção de
didática, não tem a menor experiência acadêmica
e nem profissional, e dar aulas vira uma opção
pela necessidade. Deste jeito é muito difícil
esperar que os alunos o respeitem",
completa o professor da São Marcos.
"A sociedade atual olha os professores com
outros olhos, como uma peça da engrenagem que
está processando diplomas para quaisquer alunos
que possam pagar. Com isso, ele se torna um
objeto e não um sujeito daquilo que ele faz e
ensina. Isso realmente faz com que se diminua o
valor de um mestre, o valor de uma pessoa
capacitada a ensinar", destaca Maria Inez.
Como lidar
Que lidar com determinadas classes não é fácil,
quase todo professor concorda, mas como fazer
com que os momentos em sala de aula não se
tornem uma guerra? "A primeira coisa é
respeitar os estudantes, não transformá-los em
clientes que têm sempre razão e muito menos
considerá-los incompetentes, achar que eles
passaram por um vestibular fácil e que jamais
serão bons profissionais", afirma Santoro.
Já a professora Maria Inez acredita que essa é
uma questão bastante difícil para a qual não
há receita mágica. "Diria que, na
verdade, isso não tem uma resposta pronta. Cada
professor tem de uma forma de enfrentar esse
tipo de situação".
É importante que o professor não se influencie
pelo mau comportamento da sala e deixe de
transmitir conhecimento, afinal, esse é o papel
dele. Se ele estiver à frente de 80 alunos que
não querem prestar atenção, mas mesmo assim
cumprir sua função, conseguirá ser
respeitado. "Procurar dar a melhor aula,
mesmo para alunos que muitas vezes não estão
nem aí, esse é o grande desafio. A gente tem
que exigir sempre o melhor, mostrar os
problemas, os erros. É um trabalho desgastante
por parte do professor, mas muito válido",
comenta o professor Santoro.
Além de estimular os alunos, o professor
precisa de um motivo pessoal para não pensar em
largar tudo. Conseguir isto também é muito
complicado. O professor que trabalha dando aulas
pela manhã, tarde e noite pode ter dificuldade
em ser motivado, por conta da rotina. Como
sugestão a esse problema, a professora do
mestrado em Educação da PUC-Minas pensa que o
corpo docente precisa ser mais bem assistido e
amparado. "Para o futuro e para já, todas
as instituições precisam pensar em um apoio ao
docente. Um centro que pode ter vários tipos de
suporte: institucional, psicológico, emocional
e até de qualificação para lidar com situações
inteiramente novas, porque na verdade isso tudo
é um reflexo do que se está passando na
sociedade. Não precisa ser psicóloga para
saber que a sociedade está enfrentando aquilo
que Freud chamou de "o mal-estar da
civilização" refletido diretamente na
escola e, por conseqüência, no trabalho
profissional do professor", finaliza Maria
Inez.
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