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De
manhã em uma universidade, durante a
noite em outra. De uma sala de aula para
outra, depois de um pequeno intervalo de
20 minutos. Provas para corrigir,
atividades para preparar, matérias para
explicar. São horas e horas em pé,
falando para a classe ou inclinado sobre
a escrivaninha para elaborar a próxima
aula. Ser professor é desgastante sim,
mas é possível se prevenir e evitar
complicações que podem tirá-lo da
sala de aula por algum tempo.
Não é segredo para ninguém que a
principal ferramenta de trabalho dos
professores não é o livro e nem uma
transparência refletida na parede: é a
voz. Afinal, sem ela, seria mais difícil
transmitir conhecimento para os alunos.
Por isso que cuidar das "pregas
vogais", mais conhecidas como
"cordas vocais" é fundamental
para manter a qualidade de vida e
profissional dos docentes.
Com base em uma pesquisa
norte-americana, feita por Nelson Roy,
da University of Utah, as fonoaudiólogas
Fabiana Zambon, do Sinpro-SP (Sindicato
dos Professores de São Paulo) e Mara
Behlau, do CEV-SP (Centro de Estudos da
Voz - São Paulo) iniciaram uma pesquisa
com professores e não-professores para
verificar os problemas de voz que a
profissão acarreta.
O estudo ainda está em fase inicial,
concentrado no Estado de São Paulo, mas
já tem números expressivos sobre a saúde
vocal dos professores, da Educação Básica
ao Ensino Universitário. "Vimos
que professores e não-professores que já
tiveram problemas de voz em uma
porcentagem parecida. Mas os docentes têm
muito mais alterações
recorrentes", conta Fabiana. Dos
259 professores pesquisados, 62,9%
afirmam que já sofreram problemas
vocais e mais de 15% acreditam que
precisarão mudar de ocupação no
futuro por conta de problemas na voz.
Os motivos que levam ao desgaste vocal
dos professores são, principalmente, a
falta de preparo e o uso excessivo e
inadequado da voz e as condições impróprias
de trabalho. E não é apenas o
professor que sai prejudicado, os alunos
também perdem em qualidade de ensino. São
aulas perdidas, matérias atrasadas e
reposições feitas às pressas.
Tratando
do corpo todo
Mas não apenas da voz vive o professor.
Outros tipos de desgaste também atingem
e podem afetar seriamente sua carreira e
qualidade de vida. Problemas
de postura, fadiga mental e má alimentação,
que podem ocasionar queda no sistema
imunológico e causar outras doenças,
também são preocupantes.
O médico generalista da Faculdade de
Medicina do ABC Ramiro Stelmach acredita
que o desgaste do docente é conseqüência
de um sistema que não funciona, no qual
o professor é mal remunerado, tem pouco
tempo para cuidar da saúde, não se
alimenta adequadamente e muito exigido
em sala de aula. "Ele dá mais aula
do que deveria, trabalha quando deveria
descansar, quando deveria recondicionar
seus conhecimentos", afirma.
Como qualquer outro profissional, os
docentes estão sujeitos a doenças
ocupacionais, ou seja, causadas por
conta do trabalho. Movimentos
repetitivos (como apagar a lousa),
manter o braço acima do ombro e ficar
em pé por um longo período, atitude
que pode acarretar doenças vasculares,
são algumas das dificuldades que os
professores obrigatoriamente enfrentam
no dia-a-dia.
"Não existe uma doença que ataque
somente aos professores, o que existe é
um grupo de doenças que ataca as
pessoas que trabalham na área",
esclarece Stelmach. Por isso, o docente
deve tomar os cuidados que qualquer
outro profissional precisa ter. Visitas
regulares a um clínico geral, a um
fonoaudiólogo e a um fisioterapeuta,
por exemplo, são importantes para
prevenir doenças mais sérias. O médico
acredita que não falte iniciativa dos
professores em se cuidar, o que falta é
tempo e condições favoráveis.
"Eles entendem o que é uma vida
melhor, mas não conseguem ter, por
causa das condições de trabalho",
avalia.
Foi o caso da professora de
Epidemiologia e Bioestatística do
UniCEUB (Centro Universitário de Brasília)
Érika Luiza Lage Favito Rezende. Depois
de uma semana sofrendo com rouquidão,
mas sem parar de lecionar, ela só
procurou ajuda médica quando perdeu
totalmente a voz. No consultório,
descobriu que estava com uma forte infecção
na garganta e, por isso, seria obrigada
a fazer um tratamento com antibióticos
e ficar uma semana em repouso, sem poder
falar.
"Quando voltei, informaram que eu
tinha que repor todas as minhas aulas,
ou não receberia nada. O problema é
que, com isso, acabo falando mais do que
se tivesse apenas as aulas
normais", explica a professora. Ela
acredita que o regime horista de
trabalho seja um fator agravante para a
saúde do docente, já que força o
profissional a ir até o limite sem
pedir um dia de licença.
De
quem é a culpa?
Muitas vezes o professor entra no
mercado de trabalho sem ter informações
básicas de como cuidar da voz, e assim,
ele não procura ajuda profissional para
prevenir, e sim para tratar um problema
que já existe. "Seria interessante
que o professor tivesse, durante a sua
formação, algo para aprender a cuidar
da voz", diz Fabiana.
No entanto, não se pode simplesmente
inocentar os professores. Com
simples mudanças no dia-a-dia já é
mais fácil cuidar da saúde, mas falta
consciência, até mesmo para quem já
sofreu com desgastes.
"Para ser sincera, não passei a me
cuidar mais depois do problema. A gente
volta no ritmo e continua. Tenho consciência
de que estou correndo o risco",
esclarece Érika.
Tentar organizar uma rotina equilibrada,
manter sempre os mesmo horários,
melhorar a alimentação, separar tempo
para descanso e lazer, fazer aquecimento
vocal e corporal antes e depois das
aulas e, principalmente, visitar o médico
regularmente são algumas dicas que
ajudam a superar o desgaste da profissão,
manter a qualidade do trabalho e ter uma
carreira bem-sucedida no mundo acadêmico.
Veja
abaixo um quadro de ações que podem
colaborar com a sua qualidade de vida na
atividade profissional
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-
Beba regularmente água em temperatura
ambiente, em pequenos goles, quando estiver
dando aulas. A água hidrata as pregas
vocais.
- Articule bem as palavras.
- Evite o contato direto com o pó de giz.
Quando for apagar a lousa afaste o rosto e
evite espalhar o pó, usando o apagador no
sentido de cima para baixo.
- Mantenha uma alimentação saudável e
regular. Evite alimentos "pesados"
no período que você estiver lecionando.
- Evite o café, bebidas gasosas e o
cigarro. Eles irritam a laringe. Além
disso, o cigarro aumenta a chance de câncer
de laringe e pulmão.
- Evite consumir derivados de leite em
excesso, pois engrossam a saliva e aumentam
a vontade de pigarrear.
- Na hora de acordar e levantar da cama,
espreguice e faça alongamentos tentando
relaxar.
- Durante o banho, deixe a água quente cair
nos ombros, fazendo leves movimentos de rotação
com a cabeça e ombros. Isso ajuda a
diminuir a tensão do dia-a-dia.
- Com orientação fonoaudiológica, faça
exercícios de aquecimento e desaquecimento
vocal, antes e depois das aulas.
- Na sala de aula, utilize recursos que
aumentem a participação dos alunos e
ajudem a poupar a voz.
- Utilize alguns intervalos para descansar a
sua voz.
- Se possível, utilize microfone durante a
aula, desde que sua voz esteja treinada para
usá-lo.
- Consulte anualmente o serviço de
fonoaudiologia e otorrinolaringologia para
prevenir possíveis problemas.
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- Gritar. É importante que o professor
evite concorrer com ruídos que acarretem um
aumento na intensidade vocal (carros, aviões,
retroprojetor, ventilador etc).
- Sussurrar. Essa ação força as pregas
vocais.
- Pigarrear. Essa ação causa um forte
atrito na pregas vocais, irritando-as.
- Ingerir líquidos em temperaturas
extremas, ou seja, muito gelados ou muito
quentes.
- Falar de lado ou de costas para os alunos.
Quando fazemos isso a tendência é
aumentarmos a intensidade vocal.
- Falar enquanto escreve na lousa. Isso faz
com que o professor tenha que aumentar a
intensidade de sua voz e que aspire o pó de
giz.
- Chupar uma bala forte quando estiver com a
garganta irritada. Isso mascara o sintoma e
o professor tende a forçar a voz sem
perceber. Quando o efeito da bala passa a
irritação na garganta aumenta.
- Roupas pesadas e que apertem a região do
pescoço e abdômen.
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Fonte: Sinpro-SP
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Publicado
no Universia:
www.universia.com.br
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