|
O ataque aos cofres
públicos não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas nos acompanha
desde o dia do nosso descobrimento.
Texto de Mouzar
Benedito e ilustração de Cauzi da revista Caminhos da Terra
Foi para isso que fizemos a revolução?" Essa frase foi pronunciada
em tom de desencanto por muitos militares quando começaram a pipocar casos
de corrupção envolvendo gente da cúpula do governo nos anos 70 e 80. Os
decepcionados eram aqueles que acreditaram que em 1964 houvera mesmo uma
revolução e que ela viera não apenas para espantar o "fantasma do
comunismo", mas também para acabar com a corrupção. Sentimento semelhante
vem agora de gente que entrou na política justamente combatendo tanto a
ditadura quanto a corrupção, militantes que se dedicaram por mais de 20
anos ao PT até conseguir colocar um ex-operário na Presidência da
República.
De novo o velho desencanto, o triste espetáculo de ocupantes de
altos cargos políticos saindo de suas funções bem mais ricos do que
entraram. Um fenômeno tão corriqueiro que pareceu inusitada a volta de
Olívio Dutra ao emprego de bancário quando terminou seu mandato de
prefeito de Porto Alegre, em 1987. Caso surpreendente num país em que boa
parte dos eleitores aceita político que "rouba mas faz", em que
historicamente o ataque aos cofres públicos faz parte do cotidiano, onde a
sonegação de impostos por empresas é quase obrigação, e onde até a Igreja
chegou a contrabandear usando santos ocos cheios de ouro e pedras
preciosas. Uma das conclusões falsas que até parte da mídia abraça
é que a corrupção é um fenômeno tipicamente brasileiro. Não é. Ela existe
desde muito antes do descobrimento do Brasil e sempre esteve presente em
muitas nações e em vários momentos da História. Prova de que ela não é
patrimônio exclusivo nosso é uma lista divulgada pela ONG Transparência
Internacional, em outubro de 2004, que traz uma espécie de ranking da
roubalheira em 146 nações pesquisadas.
A lista começa pelos países menos corruptos e caminha
progressivamente para os mais desonestos, e o Brasil aparece em 59º lugar.
Os primeiros são nações com alto grau de desenvolvimento humano e
distribuição de renda mais equilibrada. A Finlândia encabeça a lista, como
o país menos corrupto do mundo. Nos últimos lugares estão países
subdesenvolvidos e com péssima distribuição de renda, como Haiti e
Bangladesh.
| Na carta ao rei, Pero Vaz de
Caminha aproveita para pedir a volta
a Portugal de seu genro, degredado na África por ter roubado uma igreja
e espancado o padre. |
Fica claro que o subdesenvolvimento é um dos fatores
importantes para o aumento da corrupção. Países subdesenvolvidos, além do
tradicional abuso de poder e outros quesitos, têm fatores institucionais
que favorecem a prática, como o excesso de regulamentações. A profusão de
leis dá oportunidade para o surgimento de pessoas espertas que se tornam
especialistas em decifrá-las e intermediar processos e ações. São pessoas
que conhecem o caminho das pedras, sabem quem decide e como manipular as
decisões. Esse emaranhado de leis, muito apreciado por certos políticos,
traz embutido o velho método de criar dificuldades para vender
facilidades.
Uma corrente de historiadores acredita que a corrupção no
Brasil está associada ao emprego de degredados na nossa colonização
inicial. No século 16, pessoas que cometeram crimes em Portugal eram
condenadas a cumprir suas penas aqui, forma utilizada para povoar com
portugueses o Brasil e outras colônias lusitanas. De fato, só com Tomé de
Souza, primeiro governador-geral do Brasil, vieram 400 degredados.
A maioria dos pesquisadores, porém, discorda da afamada
periculosidade dos degredados, já que, dado o interesse em mandar muita
gente para cá, qualquer pequeno delito era motivo para o degredo. Cerca de
200 crimes eram punidos com o degredo, inclusive o adultério e a
cafetinagem. No livro Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas: os Degredados
do Brasil-Colônia, o historiador Geraldo Pieroni afirma que o nascimento
do nosso país deveu-se a esses degredados por delitos de ordem religiosa
ou moral sem nenhum problema de conduta.
|
Segundo historiadores, o império
que nos descobriu já carregava o germe da corrupção. Na época,
Portugal era famoso pela burocracia e pelo desvio de
verba. |
Eduardo Bueno, jornalista e pesquisador da nossa história, insiste em
ressalvar que é preciso tomar cuidado com generalizações. Ele diz que o
problema "não está no degredado e sim nos que tinham o poder de enviar
degredados para o Brasil". Segundo ele, a corrupção brasileira começou
mesmo antes do descobrimento, nos impérios português e espanhol.
Chamados de "impérios papeleiros" por causa da burocracia que criava um
amontoado de leis e gerava uma gigantesca estrutura paralela, à margem do
poder central, Portugal e Espanha concentravam um núcleo de corrupção
muito grande, que incluía desvio de verbas, negociatas e dribles na
Justiça. Para Bueno, é nesse tipo de "império papeleiro" que está o germe
do sistema corrupto que persiste até hoje nestas terras.
É comum dizer que no Brasil cadeia é só para os "três pês"
(pobres, pretos e prostitutas), referindo-se à impunidade dos ricos. Isso
é também uma herança dessa tradição ibérica em que os cavaleiros - ou
seja, os ricos que tinham cavalos, contrapondo-se aos peões, que andavam a
pé - ficavam por lei isentos das chamadas "penas vis". Não podiam ser
espancados, amarrados em pelourinhos ou condenados à morte. Isso sem
contar a venalidade da Justiça e o tráfico de influências, que já aparece
nas primeiras linhas a registrar o Brasil.
A carta de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei Dom Manuel em 1500 para
dar a boa nova da descoberta, ou "achamento", da Terra de Vera Cruz,
trazia em seu final um exemplo dessa tradição. Nela, o escriba aproveita a
ocasião para pedir a volta a Portugal de seu genro degredado em São Tomé,
na África, por ter roubado uma igreja e espancado o padre.
|
Em uma pesquisa feita em 146 países, o Brasil
aparece como o 59º mais corrupto. No topo da lista está a Finlândia. Haiti e Bangladesh são os campeões da roubalheira.
|
E já na fundação da nossa primeira capital há um exemplo
claro de roubalheira, com superfaturameno na construção de Salvador, por
empreiteiras, entre 1549 e 1556. Prática que se alastrou inclusive durante
o período de ocupação holandesa, tido erroneamente por muitos como um
governo "limpo". Apesar de o príncipe Maurício de Nassau ser um homem
culto e ter trazido cientistas e artistas para Pernambuco, com ele vieram
também, como colonizadores, pessoas que, no que tange à malandragem, não
ficavam atrás dos portugueses. Aliás, teve origem na Holanda a história de
que não existe pecado ao sul do Equador. Aqui valia tudo.
Como boa tradição ibérica, a corrupção não poderia deixar de
continuar com a chegada da família real portuguesa, inculta e grossa, em
1808. Dom João VI é tratado pelos historiadores como sujo e balofo,
grosseiro no trato com as pessoas. No tempo em que esteve no Brasil, de
1808 a 1821, a corrupção se alastrou consideravelmente.
Dom Pedro I,
embora mais estadista que seu pai, tinha na conta de seus amigos pessoas
muito pouco recomendáveis, que assumiram posições importantes no Império.
Uma delas foi o famoso Chalaça, apelido do português Francisco Gomes da
Silva, considerado o homem mais poderoso do período. Companheiro de farras
de Dom Pedro, ele nomeava e demitia quem queria. Ao contrário de seu antecessor, Dom Pedro II foi um homem culto,
mecenas, poliglota, apreciador das artes e da ciência... mas sem nenhuma
aptidão para governar. Ficava enfastiado com as coisas do Estado. Assim,
fazia vistas grossas para os desmandos e a corrupção, inclusive eleitoral.
Por isso era chamado de "Pedro Banana". Seu reinado era repleto de festas,
que aconteciam como se o país estivesse às mil maravilhas. Depois de 1884,
seu governo foi ficando insustentável, em grande parte por causa da
chamada "Questão Militar", que teve como estopim a descoberta de
irregularidades num destacamento do Exército no Piauí. Segundo Nelson Werneck Sodré em seu livro A História Militar do Brasil,
diversos fornecedores do Exército enriqueceram bastante durante o Império,
passando recibo de mercadorias que nunca entregaram ou entregaram em
quantidade ou qualidade diferente do especificado. O historiador conclui:
"Chega-se a ter a impressão de que, de cada dez indivíduos, nove eram
desonestos ou dissidiosos na defesa da moralidade administrativa das
Forças Armadas. Os que discordavam eram poucos e considerados criadores de
caso". O imperador permanecia alheio a tudo isso.
A República não mudou muito essa história. Tanto a
desonestidade continuou que as mudanças radicais de governos sempre
tiveram entre as causas motivadoras - pelo menos nos discursos - o combate
à corrupção. Isso ocorreu, por exemplo, em 1930 e 1964. Sem contar que
desde o governo Jânio Quadros, que foi eleito tendo como símbolo uma
vassoura, que seria usada para "varrer" os corruptos do governo anterior,
quase todos que ocuparam o poder pela via eleitoral falavam em combate à
corrupção do seu antecessor. Fernando Collor de Mello combateria a
corrupção de José Sarney, Fernando Henrique Cardoso combateria corrupções
anteriores e Lula viria a acabar com a corrupção do período FHC.
Nem tudo, porém, foi inútil. Um caso exemplar foi o impeachment de
Fernando Collor, em 1992. Poucos meses antes, em maio daquele ano, o
empresário Emílio Odebrecht tentava justificar a corrupção como um hábito
alastrado em toda a população em uma entrevista ao Jornal do Brasil: "Eu
acho que a sociedade brasileira toda é corrompida e corrompe.
Hoje, para o sujeito resolver alguma coisa, até para sair de uma fila
do INPS, encontra seus artifícios de amizade, de um presente ou de um
favor. Isso é considerado um processo de suborno. O suborno não é um
problema de valor, é a relação estabelecida". O afastamento de Collor
trouxe ânimo novo no combate à roubalheira no Brasil, mas os cinco séculos
de assalto aos cofres públicos provam que não será fácil vencê-la. Como
dizia o ex-ministro Paulo Brossard no tempo do fim da ditadura: "A
democracia no Brasil é relativa, mas a corrupção é absoluta".
|
Histórias de
Corrupção
O GOVERNADOR E SEU ENGENHO Em 1597, o governador-geral do Brasil era dom
Francisco de Sousa, apelidado Francisco das Manhas. E pelo jeito era
mesmo manhoso: ele foi acusado de desviar dinheiro público para o
seu engenho. Mas foi mantido no cargo.
OS PORTUGUESES DE NASSAU Ordenança de Maurício de
Nassau a seus sucessores, durante a ocupação holandesa: "Convém que
Vossas Senhorias procurem angariar e manter, por meio de favores e
de dinheiro, alguns portugueses particularmente dispostos e
dedicados para com Vossas Senhorias, dos quais possam vir a saber em
segredo os preparativos do inimigo (...). Esses portugueses
devem ser os mais importantes e honrados da terra, e lhes será
recomendado que, exteriormente, se mostrem como se fossem dos mais
desafetos aos holandeses".
TRAIDOR PREMIADO Os cofres públicos já foram também
usados para premiar delatores. Um exemplo é Joaquim Silvério do
Reis, que denunciou a Inconfidência Mineira em 1792. Ele era
conhecido como mau pagador em Ouro Preto, estava cheio de dívidas, e
depois da delação ficou tão malvisto que temia ser assassinado. O
governo resolveu o problema dele mandando-o para uma fazenda no
Piauí que recebera de graça, presente governamental.
LIMPANDO OS COFRES O Banco do Brasil foi fundado e
refundado várias vezes. A primeira delas foi em 1808, por Dom João
VI, depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, fugindo das tropas de
Napoleão que invadiram Portugal. Ao voltar para Portugal, em 1821,
Dom João VI pegou todo o dinheiro depositado no banco. Levou
tudo!
O MINISTRO QUE NÃO ROUBAVA Em 1831, depois que
Dom Pedro I abdicou em favor de seu filho, o imperador seguiu para a
Europa no navio Warspite. Com ele, o fiel marquês de Paranaguá,
antigo ministro da Guerra. Paranaguá estava apreensivo, pois teria
que viver com uma pequena aposentadoria em Portugal, não fizera
fortuna no governo. A bordo, ele recorreu a Dom Pedro em busca de
uma solução para seu problema e ouviu o seguinte do ex-imperador:
"Faça o que quiser, não é da minha conta. Por que não roubou, como
Barbacena?". Este, no caso, era o ex-ministro da Fazenda, o visconde
de Barbacena.
ALISTAMENTO LUCRATIVO Em 1874, a Lei 2556 alterava
os critérios de recrutamento de soldados para o Exército e a Armada:
os recrutados, de 18 a 35 anos, podiam ser dispensados mediante
o pagamento de 400 mil-réis, o que tornava o privilégio inacessível
para pobres. O recrutamento tornou-se um verdadeiro negócio. Abusos
e perseguições resultaram numa insurreição feminina chamada "Guerra
das Mulheres". Elas invadiam igrejas, rasgavam editais e faziam
passeatas.
OS SANTOS DO PAU OCO Até a Igreja esteve envolvida
no envio de ouro para a Europa no século 18, sem pagar os devidos
tributos à Coroa portuguesa. Quem não queria pagar os impostos
colocava ouro e pedras preciosas dentro de imagens religiosas ao
passar pelas vistorias. O método, utilizado até por padres, gerou a
expressão "santo do pau oco", para designar algo que não é o que
parece.
SUBORNO EM ITAIPU Segundo a revista americana
Times, numa edição de 1981, empresas européias deram 140 milhões de
dólares em propinas e suborno para autoridades brasileiras, de modo
a pegarem uma fatia da construção da Usina de Itaipu.
COMILÕES Em 1981, quando Eurico Resende governava o
Estado do Espírito Santo, em apenas três meses as compras de carne
para o Palácio atingiram 5,8 toneladas. Mas foram comprados também
850 frangos. Fazendo as contas, sua família teria comido 72 quilos
de carne e nove frangos por dia. Mas o governo justificou: além das
famílias, havia os servidores que comiam lá. Haja
servidores...
O ESCÂNDALO DA MANDIOCA Na pequena cidade de
Floresta, em Pernambuco, a agência do Banco do Brasil fazia
empréstimos a pessoas influentes do Estado, supostamente para
plantar mandioca. Mas elas nunca pagavam: alegavam que a seca
destruíra os plantios - que nunca haviam sido feitos - e os
prejuízos eram cobertos pelo seguro agrícola. Em 1981, quando se
descobriu a mutreta, calculava-se que o valor total dos
"empréstimos" chegara a 700 milhões de dólares. Pedro Jorge de
Melo e Silva, procurador da República, encarregado de apurar o caso,
foi morto no ano seguinte. Entre os acusados pelo assassinato, foi
preso e condenado o major da Polícia Militar José Ferreira dos
Anjos, que fugiu da cadeia e só foi recapturado em 1996. O processo
de desvio de dinheiro nunca foi concluído.
QUEM DEVIA TOMAR CONTA... Recentemente, a Operação
Curupira da Polícia Federal prendeu dezenas de pessoas de vários
estados. Funcionários do Ibama, órgão de proteção ao meio ambiente,
estavam fazendo justamente o contrário, colaborando com a extração
ilegal de madeiras de lei. Entre os acusados estava o secretário
estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso, o superintendente do Ibama
no mesmo Estado e o presidente da Fundação Estadual do Meio
Ambiente. Os prejuízos causados pelas fraudes cometidas foi superior
a 1 bilhão de reais.
|
PARA
IR MAIS LONGE | Corrupção - Um Estudo sobre
Poder Público e Relações Sociais, de Marcos Otávio Bezerra, Ed. Relume
Dumará | A Economia Política da Corrupção no Brasil, de Marcos Fernandes
Gonçalves da Silva, Ed. Senac | A Fantástica Corrupção no Brasil, de Mário
Barros Jr, Ed. do Autor | Náufragos, Traficantes e Degredados, de Eduardo
Bueno, Ed. Objetiva.
voltar |