Por:
Maurício Drumond
Os esportes são parte importante da vida cotidiana na
sociedade moderna. Mobilizando milhões por todo mundo –
praticando, assistindo, trabalhando, torcendo e,
principalmente, consumindo –, o esporte se faz presente
em diversas esferas da vida social. Dentro deste quadro
de presença dos esportes na sociedade moderna, é
indubitável que o futebol ocupa uma posição de
destaque. Nenhuma outra prática da cultura popular
envolve a tantos e desperta tamanho interesse e paixão.
Tal é a força de identificação nacional do futebol, que
este esporte já foi até mesmo considerado o estopim de
uma guerra entre El Salvador e Honduras, conhecida como
a Guerra do Futebol. Na realidade, entre as verdadeiras
causas da guerra está uma antiga disputa em relação à
imigração de salvadorenhos para Honduras, a posição
privilegiada de El Salvador no Mercado Comum Centro
Americano (MCCA) e principalmente por uma reforma
agrária hondurenha no início de 1969, que serviria de
pretexto para a expulsão de salvadorenhos das terras do
país e visava redistribuir suas terras a cidadãos
hondurenhos.
Em
Junho de 1969, na mesma época em que o numero de
salvadorenhos fugidos de Honduras aumentava, El Salvador
e Honduras disputaram uma vaga nas eliminatórias para a
Copa do mundo do México, em 1970. Os meios de
comunicação de massa de cada país aumentavam as já
existentes tensões, encorajando o ódio entre os cidadãos
dos países vizinhos. Em 6 de junho de 1969, a equipe de
El Salvador vai a Tegucigalpa, capital hondurenha, para
a primeira das duas partidas agendadas entre as
seleções. Sofrendo uma enorme pressão da torcida local
desde a noite anterior ao jogo, os salvadorenhos não
conseguiram segurar o empate e acabaram cedendo a
vitória à seleção de Honduras nos últimos minutos do
jogo. Honduras 1 a 0.
A
indignação da população em El Salvador com o resultado
da partida – e principalmente com o tratamento
dispensado a seus atletas – foi enorme. Gilberto
Agostino (2002) cita o caso da adolescente Amélia
Bolamos que “revoltada com o tratamento dispensado à sua
seleção, [...] matou-se com o revólver do pai logo após
o jogo” (p. 192). E logo depois fala de seu funeral, que
“marcado por rompantes de nacionalismo e ódio, [...] foi
televisionado, sendo acompanhado por um cortejo militar,
tornando ainda mais tensa a expectativa da partida de
volta” (p. 192).
Com
tanta tensão envolvendo o confronto de volta em São
Salvador, não é de se estranhar que o embate em campo
tenha se desdobrado para as ruas da capital. A torcida
salvadorenha recebeu os rivais com ainda mais ódio do
que sua equipe havia recebido em Honduras, tanto que os
visitantes tiveram que se dirigir ao estádio em um
veículo blindado (Agostinho, 2002, p. 192). Momentos
antes da partida, uma bandeira de Honduras foi queimada
e seu hino desrespeitado. Após a vitória por 3 a 0 da
seleção local – que levaria a um novo confronto em campo
neutro –, a violência tomou conta das ruas. Dezenas de
torcedores hondurenhos foram agredidos e até mesmo
mortos.
Neste mesmo período, a milícia paramilitar hondurenha
“Mancha Brava” foi acusada de cometer atrocidades contra
salvadorenhos, o que levou ao aumento do número de
emigrantes a retornar à El Salvador. Assim, em 25 de
junho, dois dias antes da partida de desempate entre os
dois escretes, o governo de El Salvador acusou os
hondurenhos de genocídio na ONU (Sack e Suster, 2000, p.
306; Agostino, 2002, p. 193). Os dois países fecharam as
fronteiras e mobilizaram as suas tropas, enquanto as
duas seleções se encontravam no estádio Asteca, na
cidade do México, para o jogo de desempate. Após empate
de 2 a 2 no tempo regulamentar, o time de El Salvador
garantiu sua vaga na Copa do Mundo com um gol na
prorrogação. El Salvador havia vencido o primeiro
embate.
 |
|
moraisvinna.blogspot.com |
Em 14 de julho o exército de El Salvador invadiu
Honduras, iniciando uma guerra que durou cinco dias. A
Organização dos Estados Americanos (OEA) negociou o
cessar fogo que entrou em vigor em 20 de julho, e levou
as tropas salvadorenhas a abandonar o território ocupado
ainda no início de Agosto. Apesar de curta, a guerra
deixou aproximadamente dois mil mortos, a maioria
composta por civis. No ano seguinte El Salvador disputou
a Copa do Mundo, no México, e não passou da primeira
etapa, tendo disputado três partidas, sofrendo nove gols
e não marcando nenhum.
É de comum entendimento que o futebol não foi o elemento
causador da guerra entre Honduras e El Salvador. No
entanto, pode-se inquirir quanto ao papel desempenhado
pelo esporte na exarcebação das relações entre os dois
países. Incitadas pela mídia através dos meios de
comunicação de massa, as tensões que já projetavam as
duas nações em direção ao conflito foram inflamadas pela
idolatria ao esporte. Neste caso, pode-se entender
melhor o papel desempenhado pelo futebol através de seu
caráter simbólico. Como notou Eric Hobsbawn (2004),
o esporte internacional tornou-se [...] uma expressão de
luta nacional, com esportistas representando seus
Estados ou nações, expressões fundamentais de suas
comunidades imaginadas. [...] A imaginária comunidade de
milhões parece mais real na forma de um time de onze
pessoas com um nome. (p. 171).
A força do futebol como um fator de identificação de um
indivíduo com sua pátria pode ser vista com facilidade
em grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de
futebol masculino da FIFA. A cada quatro anos, o país
anfitrião do evento – um dos maiores eventos
internacionais da atualidade, ao lado dos Jogos
Olímpicos – recebe milhares de pessoas de diversas
partes do mundo. As ruas tornam-se coloridas com
torcedores vestindo as cores de seu país, agitando suas
bandeiras e cantando hinos e canções. Tal festival de
nacionalismos é único. Nem mesmo os jogos olímpicos
causam tamanha mobilização e despertam uma paixão tão
grande entre o indivíduo e seu país. Mais do que
qualquer outro esporte, o futebol carrega consigo grande
capital simbólico de representação da nação.
É justamente este caráter simbólico do futebol que
permite que este esporte desperte tamanha comoção entre
movimentos nacionalistas, separatistas ou não,
principalmente na Europa. Estes movimentos regionais que
buscam a autonomia política costumam ver no esporte – e
em especial no futebol – um meio de legitimação de suas
aspirações nacionais.