|
Sabe aquele professor apático, cansado e
irritado?
Ele nem sempre foi assim.
Ele já foi alguém animado e comprometido com a
sua profissão. Ele já foi um profissional
responsável e perseverante.
Ele já foi idealista e sonhador.
O que terá acontecido no seu
percurso que o tornou um profissional tão
“apagado”?
O professor está doente. Excesso
de burocracia (fichas avaliativas mensais,
bimestrais e formulários para comunicações com
coordenadores, para conselhos de classe, etc.), excesso de trabalho profissional em
casa (preparação e correção de tarefas
diferenciadas avaliativas, trabalhos escolares,
provas, testes, planejamentos, projetos, etc.), indisciplina em sala de aula
(conversas paralelas, uso de aparelhos MP3/4/5,
uso do telefone celular para enviar torpedo e
jogos, gritos, etc.), salário
baixo (e que não contempla o trabalho
extra-classe, especialmente aquele realizado aos
finais de semana e nos feriados), violências verbais
(broncas na sala dos professores durante o seu
descanso), violências morais (comparações entre
diferentes níveis de ensino e até entre os
próprios professores feitas por coordenadores),
exigências de resultados positivos nos boletins
pelos pais de alunos e pressão da direção,
perseguição de coordenadores e supervisores
bisbilhotando as salas de aula, pegando, às
escondidas, os cadernos e livros dos alunos para
fiscalizar o cumprimento do conteúdo, bombardeio
de informações e contra-informações por parte de
coordenadores de diversas áreas que precisam
"mostrar serviço", a indisciplina e apatia dos
alunos e, principalmente, a falta de
reconhecimento de sua atividade são algumas das
causas de estresse, ansiedade e depressão que
vêm acometendo os docentes brasileiros das
escolas privadas e públicas.
|
"Muitos pais acreditam
em tudo o que as
crianças dizem e vêm
procurar os orientadores
para tirar satisfação.
Isso é ruim porque, ao
menor sinal de deslize,
os alunos fazem o que
querem. Por isso temos
de ser duros. Sem
respeito com os
professores, é
impossível qualquer
aprendizagem e a escola
perde o sentido." |
|
(Neide Maria Negrini, 49
anos, professora de
português na Escola
Pueri Domus, em São
Paulo ) |
A indisciplina nas salas de aula
assumiu tais proporções que muitos
professores estão com medo dos
alunos. Não se trata da violência
que, nos bairros pobres, ultrapassa
os muros escolares e ameaça
fisicamente os educadores, mas sim
de um fenômeno de subversão do senso
de hierarquia que ocorre em grandes
redes de ensino privadas e também
está presente em colégios
tradicionais. Uma explicação parcial
para essa mudança de comportamento é
a seguinte: os alunos ignoram a
autoridade do professor porque o
vêem como uma espécie de empregado
ou prestador de serviços, pago por
seus pais. Uma das queixas mais
comuns dos professores diz respeito
ao sentimento de impotência diante
de alunos indisciplinados. Certas
escolas agem como se a lógica do
comércio – aquela que diz que o
freguês sempre tem razão – também
valesse dentro da classe. "Os
professores estão sofrendo de fobia
escolar, antes um distúrbio
psicológico exclusivo das crianças",
diz o psicanalista Raymundo de Lima,
professor do departamento de
fundamentos da educação da
Universidade Estadual de Maringá, no
Paraná. (Veja,
Edição
1904 . 11 de maio de 2005) |
Profissionais de saúde e de educação dão cada
vez mais atenção a fatores que afetam a saúde
psicológica do professor. Ainda que pouco seja
feito em termos de políticas públicas e
educacionais para prevenção, acompanhamento e
tratamento de casos genericamente classificados
como de estresse, pesquisas começam a
identificar a origem do mal e a apontar caminhos
para mudanças.
Partindo da hipótese de que as condições de
trabalho - excesso de tarefas e ruídos, pressão
por requalificação profissional, falta de apoio
institucional e de docentes em número
necessário, entre outras - geram um sobreesforço
na realização de suas tarefas, o estudo conclui
que os resultados aferidos nas diversas cidades
são convergentes e que os professores estão mais
sujeitos que outros grupos a terem transtornos
psíquicos de intensidade variada.
Um dos problemas mais comuns na
atividade de educador é a síndrome de burnout.
Suas causas estão na ocupação profissional,
principalmente entre trabalhadores que lidam
diretamente com pessoas e demandas variadas. É
comum entre médicos, enfermeiros, policiais e, é
claro, professores.
Vista como epidemia no meio educacional, essa
síndrome não é exclusividade brasileira. Estudos
na década de 1980 já apontavam altíssima
incidência do problema entre os docentes
norte-americanos.
|
A síndrome do
esgotamento profissional,conhecida
como síndrome de burnout,foi
batizada nos anos 70.
O nome vem da
expressão em inglês to burn out, ou
seja, queimar completamente,
consumir-se. |
Entretanto, por estar sendo estudada há
relativamente pouco tempo, ainda é difícil
avaliar o desenvolvimento do burnout nas
diferentes atuações profissionais. De qualquer
maneira, as mudanças sociais das últimas décadas
- que, para ficarmos no caso brasileiro,
alteraram a cultura e os interesses do alunado,
aumentaram a violência nos centros urbanos e
diversificaram e intensificaram o acesso à
informação - entraram na escola e tornaram-se
fatores motivadores de estresse entre os
professores.
Celso dos Santos Filho é médico residente do
setor de psiquiatria do Hospital do Servidor, em
São Paulo. Ele diz que atende a um número
considerável de professores que buscam ajuda
psiquiátrica com os mais diversos transtornos.
"Há uma desvalorização gradual do papel do
professor. Ele se sente cada vez menos
valorizado, o que afeta a prática profissional e
a auto-estima", conta. Tais perturbações
deságuam em "dificuldade para ir ao trabalho,
insônia, choro fácil". O médico nota que as
reclamações mais comuns desse sentimento de
depreciação da atividade apontam para a falta de
autoridade sobre os alunos e para a ausência de
apoio institucional (da escola) e das famílias
dos alunos.
|
O professor que desenvolve fobia
escolar sente um pavor profundo da
escola e da sala de aula,
acompanhado de alterações físicas
como palpitações e tremores. Os
ambulatórios psiquiátricos dos
hospitais brasileiros já registraram
o aumento dos casos de professores
com distúrbios de ansiedade, entre
eles a fobia escolar. "O número de
professoras que têm procurado
atendimento por estar estressadas,
deprimidas ou sofrendo de crise do
pânico aumentou cerca de 20% nos
últimos três anos", diz Joel Rennó
Júnior, coordenador do Projeto de
Atenção à Saúde Mental da Mulher do
Hospital das Clínicas de São Paulo.
Até meados dos anos 90, esse tipo de
distúrbio psicológico era um quase
monopólio daqueles professores que
trabalham em escolas públicas. Hoje,
afeta igual quantidade de educadores
de colégios particulares. (Veja,
Edição
1904 . 11 de maio de 2005) |
Existem dados que balizam a fala do psiquiatra:
a Unesco fez, em 2002, uma grande pesquisa sobre
o perfil do professor brasileiro. Em uma das
questões sobre a percepção que tinham do próprio
trabalho, 54,8% afirmaram ser um problema manter
a disciplina em sala de aula; 51,9% mencionaram
as características sociais dos alunos; e 44,8%,
a relação com os pais. Outros pontos críticos
estão relacionados com o volume de trabalho e a
falta de tempo para preparar aulas e corrigir
avaliações. De todo modo, as questões que
envolvem relações humanas, que são a essência da
educação, demonstram ser obstáculos difíceis
para os professores.
|
O professor acaba submetido a
múltiplas pressões. É seu dever
ensinar, impor disciplina aos alunos
e, ao mesmo tempo, evitar que a
escola perca "clientes". "Os
esforços para passar a matéria
equivalem a uma parcela mínima do
desgaste físico e mental do
professor", diz Marcos Hideaki Ono,
de São Paulo, professor de física
durante dez anos. O restante da
energia é aplicado para controlar a
classe, motivar os alunos e, às
vezes, ensinar aos adolescentes
princípios morais e éticos básicos.
Ono, de 37 anos, conta que não
suportava mais a agressividade dos
alunos e, recentemente, abandonou o
ensino para seguir carreira
acadêmica em física. "Nos intervalos
das aulas, era comum ver colegas
tremendo de raiva ou chorando na
sala de convivência dos
professores", diz Ono. Uma de suas
colegas pediu demissão depois que os
alunos começaram a atirar-lhe
moedas, insinuando que ela, por ser
negra, era indigente. (Veja,
Edição 1904 . 11 de maio de 2005) |
"A gente deixa de fazer o trabalho para ficar
chamando a atenção de aluno para tirar o pé da
cadeira e para fazer silêncio. Isso os pais
deveriam ensinar", revolta-se uma professora da
rede pública paulista. "Nas reuniões, os pais
dos alunos que não têm problemas aparecem; os
que têm, raramente vão." A psicóloga e
professora da PUC-Campinas, Marilda Lipp,
concorda com a professora: "As crianças estão
mal-educadas. Mas ao mesmo tempo em que os pais
desvalorizam os professores, passam a eles a
responsabilidade de educar os filhos".
|
Sempre fez parte do desafio do
magistério administrar adolescentes
com hormônios em ebulição e com o
desejo natural da idade de desafiar
as regras. A diferença é que, hoje,
em muitos casos, a relação comercial
entre a escola e os pais se sobrepõe
à autoridade do professor. "Ouvi em
muitas reuniões com coordenadores o
lembrete de que os pais e os alunos
devem ser tratados como clientes e,
como tais, têm sempre razão", diz
Iole Gritti de Barros, de 54 anos,
professora aposentada. Durante 33
anos ela ministrou aulas de história
para alunos da 5ª série em colégios
particulares de São Paulo. Em
algumas escolas, o temor de
desagradar aos pais e perder os
alunos acaba se sobrepondo à
necessidade de impor ordem na sala
de aula. A postura leniente com a
disciplina explica-se, em parte,
pelo número crescente de carteiras
vazias. Em cinco anos foram abertas
2.000 novas instituições
particulares de ensino fundamental e
médio, enquanto a quantidade de
alunos permaneceu inalterada. (Veja,
Edição
1904 . 11 de maio de 2005) |
De acordo com uma pesquisa orientada pelo
psicólogo e professor da UERJ, Francisco Nunes
Sobrinho, um fator determinante do burnout é a
idade do professor. Pelos resultados, educadores
mais jovens fazem uso exagerado de "controle
aversivo". "Eles, por exemplo, gritam mais com o
aluno para tentar controlar a disciplina. Se o
professor ameaça demais, ele também pode criar
um clima de estresse", explica.
|
Os pais entregaram a educação dos
filhos aos colégios, mas alguns
acham exageradas as exigências
escolares ou as punições impostas
aos indisciplinados. Também se vêem
no direito de deixar o filho na
escola com atraso ou buscá-lo mais
cedo, a pretexto de viajar ou ir ao
dentista – como se o horário de
estudo não tivesse importância. Sem
poder impor regras aos alunos, os
professores acabam ficando
impossibilitados de fazer aquilo que
os pais esperam deles. A escola é um
lugar onde as crianças aprendem a
convivência em sociedade, com todas
as suas regras. Ao perceberem que os
pais estão sempre do seu lado, os
estudantes ficam com a impressão de
que tudo é permitido. "Um aluno
chegou a me dizer que não iria fazer
o que eu estava pedindo porque, como
o pai dele pagava a escola, ele se
comportava como queria lá dentro",
diz a pernambucana Sandra Helena de
Andrade, professora de português em
duas escolas privadas do Recife..
(Veja,
Edição
1904 . 11 de maio de 2005) |
A deterioração da atividade docente não acontece
apenas no ensino público, o privado também sofre
de mal semelhante. "A relação entre professor e
aluno se transformou em relação
professor-cliente", condena Rita Fraga, diretora
do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP).
Apesar de trabalhar com profissionais da rede
particular do Estado, ou seja, que supostamente
figuram entre os mais bem remunerados do país e
com uma boa infra-estrutura de ensino
disponível, o sindicato nota um aumento do
estresse no seu público. Rita avalia que muitos
professores são pressionados pelos interesses
mercadológicos da escola e, assim, muitas vezes
não têm suporte da instituição em situações de
enfrentamento com os alunos. "Com medo de perder
o emprego, ele se sujeita a esse tipo de
situação."
|
"Hoje, a
punição é cada vez mais rara, tanto
na escola como em casa."
Os pais
têm larga parcela de culpa no que
diz respeito à indisciplina dentro
da classe. É uma situação cada vez
mais comum: eles trabalham muito e
têm menos tempo para dedicar à
educação das crianças. Sentindo-se
culpados pela omissão, evitam dizer
não aos filhos e esperam que a
escola assuma a função que deveria
ser deles: a de passar para a
criança os valores éticos e de
comportamento básicos, diz a
pedagoga carioca Tania Zagury,
autora do livro Escola sem
Conflito: Parceria com os Pais.
(Veja,
Edição
1904 . 11 de maio de 2005) |
|
 |
|
Medo de perder o
emprego gera submissão de docentes,
alerta Rita Fraga, do Sinpro-SP |
A psiquiatra do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da USP, Alexandrina
Meleiro, demonstra
que esse problema
de instituições
privadas existe nos casos que atende,
principalmente de professores do ensino
superior: "Em algumas (instituições), os alunos
fazem um motim contra o professor e a escola
prefere demitir o profissional a ficar do lado
dele", relata.
Entretanto, ela identifica que a maior
quantidade de casos está no ensino fundamental.
"São professores com problemas somáticos -
depressão, ansiedade, às vezes síndrome do
pânico - e, em alguns casos, se houve um assalto
na escola, por exemplo, depressão pós-trauma",
diagnostica. De acordo com Alexandrina, "entre
30% e 40% acabam desistindo da profissão, o que
caracteriza que o problema é decorrente da
ocupação".
O tratamento, segundo a psiquiatra, varia muito.
"Dependendo do grau de desgaste, a pessoa pode
passar somente por psicoterapia, ser medicada
temporariamente com ansiolítico ou
antidepressivo e, às vezes, tem de ser deslocada
para uma função burocrática ou passar a
trabalhar com outros tipos de alunos."
Não é comum,
porém algumas instituições de ensino têm
investido na "prata da casa" e orientando os
profissionais mais afetados com os "males da
profissão" a realizarem exames médicos, terapias
e até concedem licenças médicas visando
recuperá-los. Muitas escolas mantêm convênios
com terapeutas psicólogos, fonoaudiólogos,
academias de ginástica e até promovem momentos
de desconcentração, espiritualidade, caminhadas
e ginástica coletiva. Porém não são todas que se
preocupam com o professor!
|
É o primeiro dia de aula do
professor substituto que irá
continuar o trabalho do titular de
Geografia, licenciado por problemas
de saúde. Passado o alvoroço
inicial, a turma faz silêncio para
ouvir o nome do novo professor e
estudar seus gestos, suas
estratégias. É uma turma pouco
afeita ao estudo, com poucas
exceções. Quando caminhava
para seus afazeres para a sala de
aula, pareceu-lhe que os corredores
daquela grande escola não eram nada
animadores para o recém-chegado
substituto. Alunos fazendo
piadinhas, professores conversando
entre si e sem dirigir a palavra ao
novato substituto, coordenadores
apressados e nervosos, etc. Quando adentrou a sala
de aula todos os alunos estavam em
pé, circulando despreocupadamente,
falando alto, rindo e sem qualquer
tipo de compromisso com o trabalho
que está apenas começando. Querem
falar de outros assuntos, mais
próprios e interessantes em sua
opinião para pessoas que, como eles,
estão em idade para freqüentar o
Ensino Médio. Geografia não lhes
parece parte integrante dos
conhecimentos que necessitam para
sobreviver na selva que percebem em
seus cotidianos. Romeu, o professor
substituto, mal consegue se
apresentar, pois é interrompido de
minuto em minuto por perguntas sem
conexão com o conteúdo e piadas dos
alunos. É apenas mais uma entre
várias formas de interromper o
trabalho que está sendo
desenvolvido.
Mal o professor chegou à sala e já
apareceram duas garotas pedindo para
ir ao banheiro. Notava-se que
queriam apenas retardar as
explicações e sair para, talvez,
usar o aparelho celular. Numa outra
aula, quando as primeiras páginas do
livro estavam sendo abertas no
capítulo sobre formas de relevo e
vulcanismo, surgem dois alunos,
atrasados, que trazem consigo
justificativas que lhes permitem
permanecer na aula. Nenhum dos dois
tem os materiais apropriados e ainda
desrespeitam o professor fazendo
gestos grotescos e obscenos pelas
costas. Durante as explicações do
conteúdo para a prova, já agendada
pelo antigo professor, os
atrasadinhos demonstram claramente
que não tem qualquer interesse pelo
que está sendo ensinado e, caso
tiram nota abaixo da média na prova,
terão a "segunda chamada" ou a prova
de recuperação. Para desestabilizar
ainda mais as aulas de Geografia, os
jovens desinteressados passam a
assistir a aula tendo a seu lado
outras pessoas que, como eles, não
estão dispostos a estudar e que, da
mesma forma como os primeiros,
querem ameaçar e boicotar os
esforços do Romeu.
Candidato em potencial para uma
licença de saúde? Geralmente os
profissionais da educação acumulam
aulas em outras escolas, fica
sobrecarregados de trabalho, em sala
de aula e em casa, tudo isso para
reforçar o orçamento minguado
decorrente da baixa remuneração da
classe.
A agitação, típica de uma sala de
aula do ensino médio, reforçada pela
pressão por resultados e pelas
inevitáveis comparações com o
professor titular, acarretará um
profundo esgotamento do professor
substituto levando-o, num futuro
não muito distante, a capitular e
recorrer à auxílio médico e
medicações psiquiátricas.
E aqueles alunos desinteressados?
Fizeram provas de recuperação,
trabalhos e exames finais, e até
foram para o conselho de classe e
passaram de ano, felizes e
realizados! Vestibular??? Não
tem problema... o papai paga a
mensalidade daquela faculdade
particular! |
|
|
|
. |