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Repetem-se as proezas do agronegócio brasileiro.
O país faz bonito na soja, nos sucos, na carne,
no frango e em outros produtos resultantes do
feliz encontro entre sol, água, inovação
tecnológica e capacidade empresarial. A equação
contém os ingredientes do sucesso. Sol e água
creditamos à generosidade divina. Na tecnologia,
bem conhecemos a liderança da Embrapa, que traz
a reboque muita pesquisa universitária. O
empresariado rural foi uma surpresa. Persiste a
imagem do coronel do interior, herdeiro de um
feudalismo atrasado. Era um empresário ausente
do campo e presente nas grandes capitais, onde
esbanjava suas riquezas. De onde veio essa nova
classe empresarial moderna, arrojada e
pragmática?
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"Surpresa! O agronegócio só viceja
nos estados que estão na metade de
cima da qualidade da educação." |
A história ainda não está bem contada. Quem sabe
o mapa do Brasil daria algumas respostas? Pedi a
um agrônomo que me marcasse com pontinhos no
mapa onde estava situado o agronegócio. Em
seguida, tomei os níveis que cada estado obteve
no Ideb (um indicador do MEC que combina a
velocidade de avanço dos alunos no sistema com a
pontuação obtida na Prova Brasil). Dividi os
estados em quatro categorias. Em seguida,
superpus um mapa ao outro. Pude ver,
simultaneamente, a distribuição do agronegócio e
o nível de avanço da educação. Surpresa! O
agronegócio só viceja nos estados que estão na
metade de cima da qualidade da educação. Seja
qual for a razão, ele não gosta de estados com
gente pouco educada.
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"...o
Centro-Oeste deu um salto enorme:
foi colonizado por migrantes do Rio
Grande do Sul, Paraná e São Paulo,
tradicionalmente os estados com os
melhores níveis de escolaridade." |
Vamos entender melhor o lado da educação. A
liderança dos estados do Centro-Sul é
centenária. Mas o Centro-Oeste deu um salto
enorme, ultrapassando velozmente o Norte e o
Nordeste. A razão é simples: foi colonizado por
migrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e São
Paulo, tradicionalmente os estados com os
melhores níveis de escolaridade. Ao migrar para
os cerrados do Centro-Oeste, essa gente
reproduziu lá seu estilo de vida. No interior de
Goiás deparei com um negro trajando bombachas.
Vinha do Rio Grande do Sul, tchê! Como levaram
as bombachas, os gaúchos também carregaram para
lá as escolas e a infra-estrutura de água e
esgoto tratados. O mapa, contudo, mostra algumas
bolinhas avançando sobre estados
educacionalmente mais pobres do Norte e do
Nordeste. Mas são microrregiões colonizadas
pelos fluxos migratórios sulinos, avançando no
território do oeste da Bahia, sul do Piauí e do
Pará.
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"(...)
o agronegócio não se localizou onde
a educação é fraca. (...) regiões
habitadas por gente mais bem
educada, (registra o) ...
aparecimento de um empresariado
moderno no campo.(...) eles entendem
de mercado e apropriam-se das
melhores tecnologias." |
As aparentes exceções não fazem senão confirmar
o que indica o mapa: o agronegócio não se
localizou onde a educação é fraca. Poderíamos
pensar que a Embrapa estaria a serviço de um
capitalismo sulino, furtando-se de investir no
que precisariam o Norte e o Nordeste para dar
igual salto. A teoria parece boa. Mas não é. A
Embrapa tem enormes investimentos em produtos
para toda a geografia nacional. Ainda assim,
seus grandes clientes se encontram no
agronegócio. Ao se registrar a forte aderência
do agronegócio às regiões habitadas por gente
mais bem educada, nota-se, também, pistas para o
enigma do aparecimento de um empresariado
moderno no campo. Ao que tudo indica, seu
surgimento está ainda associado aos níveis
superiores de educação e modernidade do
Centro-Sul e às ondas de colonização vindas de
lá. Por serem mais bem educados e possuírem uma
cultura empresarial, eles entendem de mercado e
apropriam-se das melhores tecnologias. No fim
dos anos 70, numa visita a Ijuí, eu discutia
educação rural com as lideranças de uma
cooperativa agrícola. Eu falava de escolas com
galinhas circulando pelas salas de aula e não
nos entendíamos. Finalmente, eu vi que estava
fora de seu universo. A preocupação delas era
conseguir que as instituições de ensino da
região preparassem seus alunos para entender a
bolsa de cereais de Chicago, já on-line na
cooperativa. São esses os responsáveis pelo
crescimento da soja no Centro-Oeste.
O que aprendemos com o mapa citado no presente
ensaio? Podemos discutir se as escolas são fruto
da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Podemos
entrar no campo pantanoso das relações entre
educação e traços culturais. Mas, no mínimo,
ficamos sabendo que o agronegócio só vinga onde
há ou aparece gente mais bem educada.
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