Fotos Margi Moss
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| Como um cristal: chama atenção a
transparência das águas do Rio Juruena, em trecho localizado
no norte de Mato Grosso |
Uma aventura a bordo de um pequeno
avião-laboratório, que ao longo de catorze meses percorreu uma
distância de 120 000 quilômetros, o equivalente a quase três voltas
em torno do planeta, resultou na composição do mais amplo painel
sobre a saúde dos rios do Brasil, que detém a maior reserva de água
doce do mundo, com pelo menos 14% do total. O trabalho chegou a
conclusões preocupantes. Das 5 900 amostras coletadas em 1 160
locais em todo o país, 25% apresentaram problemas. Surpreende, por
exemplo, o alerta proveniente do Pantanal, onde duas em cada dez
porções de água coletadas traziam traços de poluição. Os maiores
vilões identificados nesse caso foram resíduos químicos oriundos da
atividade agrícola e da ocupação humana, como fertilizantes e esgoto
doméstico não tratado. Tais agressores afetaram principalmente os
rios Miranda, Aquidauana e Paraguai. As imediações do Amazonas
concentram os rios mais limpos. Entre os mais sujos estão trechos do
Tietê (SP). Mas, no Nordeste, seções do Paraíba, em João Pessoa
(PB), do Capibaribe, no Recife (PE), e do Jacuípe, perto de Feira de
Santana (BA), obtiveram classificação tão ruim quanto as piores
notas do rio paulista.
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Remanescente isolada: só sobrou a igrejinha
da cidade de Itá, em Santa Catarina, inundada por barragem
feita no Rio Uruguai
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A coleta das amostras foi feita pelo casal
Gérard e Margi Moss, idealizadores do projeto. Eles sobrevoaram o
país num pequeno avião anfíbio. A maior parte das porções de água
foi recolhida em vôos rasantes em rios, lagos, represas e até
açudes. Nesses quase-mergulhos, o material era captado por meio de
um pequeno buraco, com apenas 1 centímetro de diâmetro, aberto na
quilha da aeronave, que permanecia em contato com a água por cerca
de cinco segundos. "A cada investida, eu tinha de executar
procedimentos típicos de pousos e decolagens, os mais perigosos de
qualquer vôo", diz o engenheiro Gérard Moss, também piloto do
aparelho batizado de Talha-mar. Completa ele: "Chegamos a fazer
dezoito rasantes em um só dia, e meu maior desafio era manter a
concentração depois de repetir tantas vezes esse tipo de manobra". O
reconhecimento visual da área abordada era o único recurso contra
uma eventual colisão em troncos ou barrancos de areia. Alguns
parâmetros da qualidade da água (pH, turbidez, condutividade,
oxigênio dissolvido, temperatura, clorofila e salinidade) eram
analisados pelo equipamento instalado no próprio Talha-mar. Depois,
o material ainda era remetido para laboratórios.
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Praia no Araguaia, no Pará: o rio tem águas
de boa qualidade e, quando elas baixam, em julho, a população
se diverte nos bancos de areia
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Confluência do Rio das Velhas com o São
Francisco, em MG: poluentes de Belo Horizonte seguem para o
Nordeste
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A pesquisa teve um desdobramento
adicional. Trata-se de um registro fotográfico feito em todos os
vôos, no qual foram captados detalhes impressionantes das doze
regiões hidrográficas brasileiras. "Isso nos rendeu um acervo com
aproximadamente 15 000 imagens", diz Margi Moss, autora das fotos. A
edição limitada de um livro com 160 páginas e 250 desses registros
foi lançada na semana passada, com o título Brasil das Águas –
Revelando o Azul do Verde e Amarelo. Esse conjunto de fotos tem
ainda a vantagem de permitir uma comparação com o que será feito
dessas regiões no futuro. No Brasil, esse tipo de cotejamento,
infelizmente, costuma trazer apenas más notícias.
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Avião Talha-mar faz rasante para coletar
amostra de água no Rio Negro, no Amazonas: o casal responsável
pelo projeto chegou a fazer dezoito manobras desse tipo em
apenas um dia. O contato do coletor de água com a superfície
do rio durava cinco segundos
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