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As raposas de rabo felpudo

Sady Ricardo dos Santos
sadysantos@uol.com.br

Eng. Agrônomo, autor do livro VIVA MAIS E MELHOR; Ex-representante da EMBRAPA/PR; Presidente do Centro de Pesquisa, Preservação e desenvolvimento Ambiental


 

“Podem enganar alguns por muito tempo, muitos por algum tempo, mas nunca todos por todo o tempo – F. D.Roosevelt”.

          O grande humorista brasileiro Jô Soares “O gordo” em suas apresentações semanais na TV, nos intervalos das entrevistas, sempre apresenta uma série de improvisos, piadas, brincadeiras com a platéia entre outros atrativos. Há algum tempo em uma destas apresentações Jô, interpretou o papel de um professor alemão que fazia o acasalamento entre animais, vegetais, insetos etc. Dizia “O gordo” entre risos da platéia, que cruzando um elefante com um vaga-lume poderia obter um elefante com um pisca-pisca na tromba; se fizesse a cruza de uma minhoca com um porco espinho iria ter arames farpados. No caso de cruzar uma abelha com guaco poderia conseguir um excelente xarope contra tosse. E assim continuava o famoso humorista divertindo a platéia, mal sabendo que tudo aquilo iria num futuro não muito longínquo se tornar uma realidade pouco divertida para a platéia mundial.

          Após cerca de 20 anos depois das apresentações do genial humorista da Globo, os animais, plantas, insetos e até bactérias estão sendo “cruzados” com sofisticadas técnicas de laboratório produzindo os Transgênicos, sendo, portanto, possível misturar os genes de espécies de animais, vegetais, microorganismos e etc, que nunca se poderiam cruzar na natureza e de uma forma perigosamente diferente de todos os fenômenos que regem os processos normais de desenvolvimento das espécies da vida no planeta terra. Atualmente já foi divulgado o cruzamento de fumo com vaga-lume produzindo plantas que brilham no escuro.

          Para a grande maioria dos pesquisadores e cientistas íntegros a produção e desenvolvimento de seres transgênicos representa um procedimento que não está livre de vir a produzir problemas, não podendo assegurar de forma nenhuma que os transgênicos são inócuos ou que não representem nenhum perigo para a saúde dos seres vivos e do meio ambiente como um todo. Como poderiam os homens de ciência considerar saudável o fato de uma planta transgênica ficar mais resistente aos agrotóxicos, como no caso do herbicida Roundup da Monsanto na cultura de soja, se na realidade irão apresentar risco para as plantas, para o solo, para o homem e animais que as rodeiam e inclusive para o meio agrícola? De fato acredito que no caso dos Transgênicos utilizados na agricultura os cientistas acabam de conseguir descobrir uma nova forma de agrotóxico. Nenhum pesquisador razoavelmente lúcido e honesto poderia afirmar que há garantia científica para o consumo dos transgênicos pelo homem sem os riscos potencialmente existentes. 

          Um fato que sempre nos preocupou foi o desenvolvimento de agrotóxicos e sua aplicação indiscriminada, determinando problemas extremamente graves não só para o meio ambiente como para com o homem, reduzindo sua qualidade de vida, longevidade e promovendo o aparecimento de doenças graves dificilmente reconhecíveis ou tratadas convenientemente, mesmo com os importantes recursos da medicina moderna. Muito mais preocupado ficamos agora com o advento dos transgênicos, capazes de transtornar de maneira irreversível todo o equilíbrio e sustentabilidade da biodiversidade do planeta.

          É bom lembrar que muitos produtos hoje reconhecidamente maléficos para a saúde humana, como o DDT e a Talidomida, já foram liberados e defendidos pelas empresas produtoras e cientistas do mundo inteiro. Na década de 60 a professora e pesquisadora Rachel Carson, estudando os venenos agrícolas organoclorados (conhecidos como DDT, Pó de Gafanhoto, BHC, Aldrin, etc...), identificou um conjunto de problemas e fez o seguinte alerta: “Estamos expondo populações inteiras a agentes químicos extremamente venenosos”. Nós não demos a atenção que o assunto merecia, pois estávamos somente preocupados em aumentar a produtividade de nossas lavouras, dizia.

          Hoje, é sabido que, mesmo após mais de 20 anos da data em que foi proibido o uso daqueles produtos, ainda há resíduos deles, ou de seus isômeros em poços artesianos, nos lençóis freáticos e na cadeia trófica, no meio ambiente.

          Um outro fator importante é que as plantas transgênicas contêm genes de resistência a antibióticos, com a função de possibilitar a seleção das células transformadas, isto é, são usados como marcadores. Esses genes podem, através de recombinação e/ou transferência horizontal, serem transmitidos a outros organismos, inclusive possivelmente para os seres humanos. Seria o mesmo que nos alimentarmos com plantas capazes de nos predisporem a mortíferas infecções semelhantes às hospitalares.

          Os transgênicos podem ainda (fato comprovado) afetarem a saúde das pessoas com o aumento de alergias passando genes das proteínas alergênicas (causadoras de alergias) de uma planta para outra, como foi o caso com a castanha-do-Pará, determinando sérios problemas às pessoas alérgicas. Potencializam ainda os efeitos de substâncias tóxicas, pois muitas plantas possuem substâncias tóxicas naturais para se defenderem de seus inimigos naturais e se manipuladas geneticamente os níveis dessas toxinas podem aumentar. Estimulam o aumento dos resíduos de agrotóxicos no solo, alimentos, etc., sendo que alguns dos produtos transgênicos têm como característica se tornarem resistentes aos efeitos dos agrotóxicos (soja “roundup ready”. Isto permite que seja aplicado mais veneno (agrotóxico) na plantação, cujos resíduos permanecerão nos alimentos, podendo também trazer mais risco de poluir os rios e o solo).

          De acordo com eminentes pesquisadores ingleses, e conforme o livro publicado pela Souza Cruz Agrotóxicos – Informações para uso médico, o herbicida roundup, utilizado nas culturas transgênicas de soja tem poder cumulativo no solo e em caso de intoxicação aguda dos agricultores não existe um antídoto, sendo, portanto, considerado como mortal.

           Só para analisar mais o risco dos herbicidas para o homem, basta dizer que o herbicida Tordon semelhante ao Roundup foi utilizado na guerra do Vietnã como desfolhante para eliminar as folhas das florestas e desta maneira expor  os vietnamitas ao ataque dos norte americanos. Até hoje aqueles que tiveram contato com o herbicida Tordon com conhecido “Agente laranja” (pois eram embalados em tambores de cor laranja) carregam seqüelas incuráveis em todo o organismo. O Tordon é ainda utilizado no Brasil para capina química de ervas daninhas em diversas culturas inclusive a cana de açúcar.

          Os produtos transgênicos conduzem ao aparecimento de pragas de insetos resistentes a grandes quantidades de um ou vários pesticidas ao mesmo tempo (superpragas) caso venham a ser transferidos os genes que envolvem inseticidas, herbicidas ou outros venenos agrícolas.As pragas (insetos) vão ficando cada vez mais resistentes aos agrotóxicos, exigindo a aplicação de agrotóxicos cada vez mais potentes e prejudicando o meio ambiente e toda a cadeia alimentar e conseqüentemente os seres humanos e animais que consomem estes produtos transgênicos.

          As culturas transgênicas produzem menos que as plantações convencionais e alteram negativamente as características do solo, pois recebem grandes quantidades de agrotóxico sem serem afetadas, porém envenenando o solo e conseqüentemente os produtos agropecuários; os transgênicos, explica Sebastião Pinheiro em sua cartilha dos trangênicos: “são mais caros para o agricultor visto que  anualmente tem de adquirir novas sementes de transgênicos, não podendo utilizar as de suas colheitas, pois a empresa Delta & Pine, dos EUA, patenteou o gene classificado como terminador (exterminador). Ele é incorporado às sementes que plantadas e colhidas tornam -se estéreis. Isto obriga o agricultor a comprar sementes sempre for plantar (royalties). O gene exterminador poderá ser levado pelo vento junto com os grãos de pólen e fecundar as flores de plantas silvestres ou domésticas, tornando-as também estéreis, e provocando uma irreparável destruição do patrimônio biológico da humanidade. Na América Latina, causaria grandes e negativos impactos; contaminando a agricultura convencional e biológica e quando empregados em rações, podem conduzir a profundas alterações fisiológicas nos animais que as consomem”.

           O controle da expansão dos transgênicos na natureza é praticamente impossível, bem como o são também os efeitos nocivos sobre os ecossistemas e ao meio ambiente como um todo, sendo os riscos sobre a saúde humana imprevisíveis.O uso de plantas transgênicas com características de resistência a herbicidas implicará na possibilidade de elevação do uso desses perigosos agrotóxicos. Ainda para reforçar a importância de não se usar o povo como cobaias menciono  a matéria publicada  na Gazeta de 8.12.2004 –ANVISA cancela registro de 130 medicamentos similares. Nesta matéria alertam o povo que aqueles medicamentos são capazes de produzirem efeitos colaterais graves. E agora?

          Por uma questão de sobrevivência humana e preservação do meio ambiente, fazemos um apelo às autoridades e inclusive ao governo federal, para que, analisando os riscos a que fica exposta a população deste País pelo uso indiscriminado de agrotóxicos e agora pela liberação de cultivo de plantas transgênicas, que estimule e dê o maior apoio para a expansão da agricultura orgânica.Consideramos esta prática ecologicamente correta como uma das únicas formas de desenvolvimento de uma sociedade sustentável num ambiente puro, sadio, livre de agrotóxicos, aditivos químicos e principalmente das plantas transgênicas e seus já conhecidos efeitos maléficos para o homem e meio ambiente como um todo.

           É possível, relata Valter Viana “ter sementes e alimentos sadios, em grande quantidade para toda população mundial, respeitando o meio ambiente, praticando uma agricultura saudável, sem depender de transgênicos. A fome, existente no mundo e no Brasil, não é decorrente da falta de alimentos, mas do modelo econômico concentrador de renda e de riqueza que impede muitas pessoas de terem acesso aos alimentos necessários para uma vida saudável”.

          Nesta oportunidade, quero propor um voto de louvor ao Governador Roberto Requião pela empunhadura consciente da bandeira que corajosamente e a duras penas vem levantando contra todo um poder multinacional e nacional. Requião, com muita garra, inteligência e conhecimento de causa, vem tentando impedir a expansão das “raposas de rabo felpudo” que gananciosa e impiedosamente na calada da noite desenvolvem o seu ataque, contaminando suas vitimas com a peçonha transgênica que pode lenta e insidiosamente descolorir o rosado da face dos filhos da família brasileira.

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