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Mato Grosso do Sul e Brasil na contramão do Protocolo
de Kyoto
"Pense globalmente, aja
localmente", é com o lema da Agenda 21 que a Promotoria de Meio Ambiente
do Ministério Público de Mato Grosso do Sul quer evitar o aquecimento
global causado pelas termelétricas. Em Campo Grande uma usina movida a gás
natural boliviano funciona desde abril de 2001 e outras duas podem ser
implantadas na capital. A produção global anual de CO2 (dióxido de
carbono), o principal responsável pelo efeito estufa e do conseqüente
aquecimento do Planeta, é estimada em 23 bilhões de
toneladas.
Entre as informações reunidas em
um inquérito sobre impactos socioambientais das termelétricas a gás
natural, do Ministério Público de MS, são citadas projeções científicas
prevendo que se a quantidade de CO2 emitida hoje no mundo dobrar de
volume, as temperaturas médias na superfície da Terra aumentariam entre 3
e 5 graus Celcius. O aumento da temperatura pode elevar o nível do mar
(com o descongelamento de geleiras), provocando alterações drásticas nos
climas regionais e nos padrões de precipitação de chuvas.
Uma certeza o Ministério Público
já tem: Mato Grosso do Sul está contra o Protocolo de Kyoto, um acordo
mundial sobre meio ambiente que vai obrigar países, inclusive o Brasil, a
reduzirem drasticamente, até 2012, a emissão de gases poluentes,
responsáveis pelo aquecimento global. As cinco termelétricas previstas
para operar no Estado, e uma sexta em estudo, vão ajudar a prejudicar o
meio ambiente no planeta Terra com o aquecimento global. O desenvolvimento
do Brasil está na contramão do protocolo. No entanto, se o País, ao invés
de utilizar o gás natural para alimentar termelétricas, investisse na
inserção deste combustível no setor automobilístico, estaria a favor do
Protocolo de Kyoto, já que os benefícios seriam muitos com a substituição
da queima de gasolina e diesel pela de gás natural, neste caso, bem menos
poluente.
Termelétricas são maioria entre todas usinas em construção
no Brasil

EOL (Usina
Eolioelétrica de Energia) PCH (Pequena Central Hidrelétrica) SOL
(Usina Solar Fotovoltaica) UHE (Usina Hidrelétrica de Energia) UTE
(Usina Termelétrica de Energia) UTN (Usina
Termonuclear)
Para comprovar que as emissões de
CO2 devem aumentar, e muito, daqui para frente no Brasil basta acessar o
site www.aneel.gov.br, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A
agência disponibiliza para a população o BIG (Banco de Informações de
Geração). O Brasil possui no total 608 termelétricas em operação, gerando
cerca de 10.601 KiloWatts de potência. Atualmente as termelétricas
representam 14,04% da energia elétrica gerada pelo País.
O número de termelétricas vai aumentar em cerca de 20%
quando as 16 usinas que estão em construção e as 105 já outorgadas entre
1998 e 2001 estiverem prontas. Das modalidades de usinas em construção
(PCH - Pequena Central Hidrelétrica e UHE - Usina Hidrelétrica de Energia)
as termelétricas representam 61,12%. E dos empreendimentos outorgados
entre 98 e 2001 as termelétricas também são maioria, representando 66,18%
das usinas a serem construídas. As usinas que menos prejudicam o meio
ambiente como a EOL (Usina Eolioelétrica de Energia - que utiliza a força
dos ventos) e a SOL (Usina Solar Fotovoltaica - que utiliza a luz solar)
figuram entre a minoria dos pedidos outorgados. O Brasil que já possui
sete Usinas Eolioelétricas vai ganhar mais 46.
E pela primeira vez será iniciada a construção de uma
Usina Solar Fotovoltaica, com capacidade de geração de 20 KiloWatts de
potência. A própria tabela de informações do Banco de Informações de
Geração, da Aneel, mostra o quanto ainda são pequenas as iniciativas do
setor para geração de energia elétrica por meio de fontes alternativas.
Dentre todos os pedidos aprovados entre 98 e 2001, as usinas que
utilizarão a força dos ventos representam apenas 14,51% e a única que vai
gerar eletricidade com a força do Sol representa, na tabela da Aneel,
0%.
Ministério Público pode ajuizar ação civil pública contra
usina de MS
Os impactos ambientais e sociais
que uma termelétrica a gás natural boliviano está causando em Campo Grande
podem ser investigados detalhadamente pela Promotoria de Meio Ambiente do
Ministério Público Estadual (MPE). E até mesmo as obras já iniciadas ou o
planejamento de implantação de mais usinas térmicas podem ser
interrompidos. Uma proposta de ação civil pública está sendo estudada pelo
MPE para ser ajuizada contra a empresa Centrais Geradoras do Sul do Brasil
S/A (Gerasul), empreendedora da Usina Termelétrica Willian Arjona, em
Campo Grande.
No início de 2002, no dia 9 de
janeiro, a promotoria instaurou inquérito civil para investigar e avaliar
os danos causados ao meio ambiente e ao consumidor com a transformação do
gás natural boliviano em energia elétrica. Mas a falta de dados técnicos
que pudessem comprovar os danos das usinas fez com que o inquérito ficasse
aguardando novas informações para os autos. "Felizmente, vários
pesquisadores denunciaram os males destas usinas, até porque tinham essa
necessidade de expor a gravidade do problema", afirma a promotora de Meio
Ambiente Marigô Bittar. O inquérito de janeiro deste ano deve resultar,
segundo Marigô Bittar, em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), para
minimizar os impactos causados pela usina Willian Arjona, que funciona há
cerca de dois anos.
A base da ação civil pública que
pode ser ajuizada pelo MPE são informações científicas de pesquisadores
publicadas em jornais e veículos da imprensa em MS, além de estudos e
pareceres de diversos especialistas de instituições de ensino e pesquisa,
a pedido do Ministério Público. O conteúdo das informações é tão
preocupante que a Gerasul pode ser responsabilizada por danos à saúde
pública, à economia regional, por propaganda enganosa e graves impactos ao
meio ambiente global. A ação do Ministério Público, que pode ser ajuizada
em abril, pretende garantir o direito ao meio ambiente equilibrado,
ameaçado de lesão por atividade predatória. A Constituição Federal, em seu
Artigo 255 assegura que "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações".
Casos
de câncer de colo do útero em Campo Grande podem estar relacionados com
atividades de Usina Willian Arjona
A justificativa do projeto
Termelétrica Carioba Dois, que pode ser implantada em Americana, São
Paulo, também está sendo estudada pelo MPE de MS. No documento é informado
sobre o dano dos componentes emitidos pela usina. Os gases são
responsáveis por doenças respiratórias e alguns deles podem, inclusive, se
desdobrar em componentes cancerígenos e por isso é de se esperar um
aumento significativo destas doenças na região. O mesmo pode estar
acontecendo em Campo Grande, com a operação da usina da Gerasul, a Willian
Arjona. Informação dada pelo professor doutorando da Unicamp, Carlos
Roberto Lima, já deixou o Ministério Público preocupado. Segundo Lima,
"cresceram de forma substancial as mortes por câncer de colo de útero
desde 1998 em Mato Grosso do Sul".
Justamente num período de
intensificação de trabalhos de combate à doença. Foram três mortes
ocorridas em 98 contra 53 em 2000. Os números de 2001 ainda não foram
divulgados mas o pesquisador da Unicamp sugere que seja realizada uma
investigação sobre a correlação destas mortes e a entrada em operação da
termelétrica Willian Arjona, em operação desde abril de 2001. Lima sugere
que se faça um mapeamento do local de residência das vítimas para
verificar se a maioria residia na porção Sul da área urbana de Campo
Grande. O MPE também vai utilizar informações de um artigo de autoria de
Carlos Bocuhy, onde é citado que as emissões das termelétricas
"provenientes da queima contínua de milhões de toneladas de gás por dia,
localizadas em áreas saturadas, atingirão as comunidades locais provocando
inevitáveis danos".
Aumento da potência de Usina Willian Arjona já preocupa
MPE
Mesmo sendo a única em operação
no Mato Grosso do Sul, a usina a gás natural Willian Arjona está deixando
a Promotoria de Meio Ambiente do Ministério Público Estadual em alerta. A
usina pretende instalar mais duas turbinas e elevar a produção de energia
de 120 MegaWatts/hora para 200 MegaWatts/hora. Com o aumento da
capacidade, a usina da capital aumenta o consumo de 870 mil metros cúbicos
por dia de gás natural para 1,5 milhão de metros cúbicos. Conseqüentemente
a emissão de gás carbônico por ano passa de cerca de quatrocentas e
oitenta e quatro mil, quinhentas e quarenta e duas toneladas para
oitocentas e noventa e seis mil, quatrocentas e duas toneladas. Enquanto a
usina Willian Arjona operar com 120 MegaWatts/hora serão necessários mais
de 14 mil hectares de reflorestamento, ao passo que, se passar a operar
com 200 MegaWatts/hora, serão necessários mais de 27 mil hectares de
reflorestamento para minimizar os impactos no meio
ambiente.
Mais uma vez, segundo a promotora
de Meio Ambiente do Ministério Público de MS, Marigô Bittar, vem à tona a
irrisória quantia prevista como compensação ambiental pela usina. O
contrato de compensação ambiental entre o Instituto de Meio Ambiente
Pantanal (Imap - órgão ligado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente,
Cultura e Turismo) e a Gerasul é de apenas 352 mil, 486 reais. "O que se
tem é um dano de proporções incalculáveis, que perdurará no tempo e no
espaço por muitos e muitos anos. Nós, à toda evidência, não estaremos na
Terra, mas o que se dirá de nossos filhos e netos que estarão convivendo
com esse ar sujo e poluído, sujeitos a toda sorte de intempéries?", alerta
Marigô Bittar.
Contrato entre Gerasul e MSGás não traz vantagens para
sociedade
Até mesmo a forma de contrato
estabelecido entre a Gerasul e a MSGás (empresa distribuidora de gás
boliviano no Estado) pode ser questionada pelo Ministério Público. O gás
natural boliviano importado pelo Brasil é atrelado ao petróleo e à cotação
do dólar. Esta forma de contrato impõe aos consumidores contratos de
longos prazos onde paga-se pelo volume de gás natural contratado. "Take or
pay", em inglês, que traduzindo significa "Pegue ou pague", é como se
chama esta forma de acordo.
No caso de se utilizar volume
maior que o contratado, o volume adicional consumido será pago pelo
cotação do gás natural no mercado, ou seja, de acordo com o dia e hora em
que for consumido. Segundo análise do MPE, só se pode esperar desvantagens
econômicas para os consumidores e desvantagens ambientais para toda a
sociedade sul-mato-grossense. Perguntas de um artigo de autoria de Paulino
Coelho, publicadas no jornal Folha do Povo de 13 de maio deste ano também
são indagações do MPE:
Como justifica num país de
instabilidade cambial a compra de energia no exterior?
Como garantir
a estabilidade de suprimento?
A situação política, econômica e social da
Bolívia é estável para a compra de gás em cotação de dólar?
Quais são os
riscos de, um momento para outro, ter-se instantânea interrupção do
fornecimento de gás?
Você investiria seu dinheiro na construção de uma
indústria que depende de insumos vindos de um outro país num momento de
crise cambial no seu país e amplas possibilidades de instabilidade no país
fornecedor?
O mesmo artigo esclarece que a forma de pagamento
"Take or pay" foi imposta ao Brasil e a Mato Grosso do Sul. Consumindo ou
não o Brasil vai ter de pagar pelo gás boliviano, e em dólar. Durante
investigações preliminares do Ministério Público a Gerasul, responsável
pela Usina Willian Arjona, esclareceu que seu contrato de fornecimento de
gás com a MSGás (empresa distribuidora) não foi firmado na modalidade
"Take or pay". A Gerasul informou que seu contrato é do tipo
"interruptível", facultando a ambas as partes a prática de "fornecimento
ou consumo zero". É importante lembrar que a MSGás é a distribuidora do
produto que adquire da Petrobras, que por sua vez é a importadora que
realiza suas transações com os produtores bolivianos com base no valor do
dólar. Mesmo com as explicações da Gerasul, a promotora de Meio Ambiente,
Marigô Bittar, entende que, na prática, o contrato entre a Gerasul e a
MSGás é um "espelho" do contrato entre a MSGás e a Petrobras. Logo, o
contrato é efetivamente atrelado ao dólar e ao petróleo.
Especialistas não aconselham investimentos em térmicas a gás
natural
No dia 21 de outubro de 2001 a
Procuradoria de Meio Ambiente do Ministério Público de MS convocou órgãos
públicos, de ensino e pesquisa e as empresas Gerasul e Enersul para
solicitar informações. Dentre os questionamentos formulados pelo MPE
estavam dúvidas quanto aos efeitos da introdução do gás natural na
economia do Estado e no bolso dos consumidores. As informações técnicas
respondidas pelos pesquisadores da Universidade Estadual e Federal de Mato
Grosso do Sul (UEMS e UFMS) não são nada otimistas. A UEMS informou que MS
não tem consumidor cativo para uso do gás e também que não sabe se existe
demanda do gás natural no Estado.
A UFMS informou que o gás natural
pode ser usado em quatro tipos de aplicações diferentes: uso veicular,
substituição do GLP (gás de cozinha) dando mais segurança, uso industrial
e em termelétricas para gerar energia. Sobre os efeitos no bolso do
consumidor, a UFMS afirmou que uma boa alternativa para a economia é o uso
do gás natural como combustível em veículos. A instituição não recomenda o
uso do gás natural como fonte para geração de energia em termelétricas,
que custa entre duas a três vezes mais o custo da energia gerada por
hidrelétricas. O investimento econômico em termelétricas a gás natural,
segundo a UFMS, "virá a penalizar o consumidor".
O professor Ildo Sauer, do
Instituto de Engenharia Eletrotécnica da Universidade de São Paulo
(IEE/USP), também acha distante as usinas termelétricas de grande porte.
Ele afirma que deveriam ser implantadas, no máximo algumas térmicas de
complementação. O Ministério Público tem ainda dados que comprovam que o
custo médio do MegaWatt/hora da hidrelétrica fica entre 17 e 20 dólares,
enquanto que o MegaWatt/hora da usina termelétrica fica em torno de 35
dólares. A UFMS finaliza sua análise afirmando que "não há justificativa
plausível para a introdução de térmicas a gás natural em MS. A única
alternativa em favor das térmicas seria o aumento da confiabilidade,
decorrente de mais uma fonte presente".
Propagandas de energia limpa são
enganosas
As campanhas publicitárias do
chamado "Governo Popular de MS" já são consideradas pelo Ministério
Público como propagandas enganosas. Elas não informam a população de que a
energia elétrica gerada com a queima do gás natural também produz
poluentes e contribuem para a elevação da temperatura regional e global.
Pelo contrário, a publicidade mostra que o Estado está no caminho do
desenvolvimento respeitando o meio ambiente.
Para a promotora de Meio Ambiente
Marigô Bittar "a população não tem conhecimento dos malefícios causados
pelas termelétricas e está sendo alvo de propaganda enganosa". Mais "um
absurdo", segundo a promotora. O gás natural não é energia limpa, ele é
apenas 20% menos poluente que o petróleo. O Ministério Público de MS
entende que a sociedade não está sendo devidamente informada e, portanto,
está sendo privada de seu legítimo direito de opinar sobre o
desenvolvimento energético do Estado. O mesmo aconteceu durante a
construção do Gasbol (Gasoduto Bolívia-Brasil), um processo iniciado sem a
necessária discussão com a sociedade.
MS
pode abrigar 6 termelétricas, 5 a gás natural e 1 para queima de
lixo
A apreensão do MPE
é grande já que Mato Grosso do Sul pode ter 6 termelétricas. O projeto da
quinta usina confirmada foi divulgado em 13 de março deste ano. Na data,
foi assinado protocolo de intenções entre o governador de MS, José Orcírio
Miranda dos Santos (o Zeca do PT) e o secretário de Infra-Estrutura,
Delcídio do Amaral, com o vice-presidente de Relações Interinstitucionais
da El Paso Energy International do Brasil, Joseph Newman. A quinta
termelétrica deve ser disputada para ser instalada em Campo Grande,
Dourados ou Água Clara.
A única usina
termelétrica em funcionamento no Estado é a Willian Arjona, que opera em
Campo Grande desde abril de 2001. Outra usina prevista para a capital é a
da Enersul (Empresa Energética de MS), cujos estudos já foram aprovados
pelo Programa Prioritário de Termoeletricidade. Um projeto, ainda em
estudo, da prefeitura de Campo Grande pode implantar mais uma termelétrica
para a queima do lixo. No município de Três Lagoas já está em construção a
usina da Duke Energy, que inicia a operação neste primeiro semestre de
2002. E no Pantanal, a usina de Corumbá já tem licença ambiental expedida
pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) para sua construção.
Aquecimento global é maior preocupação de
pesquisadores
Um cálculo
realizado pelo professor doutorando da Universidade de Campinas, Carlos
Roberto Lima, estima que as termelétricas em MS, quando estiverem
operando, lançarão na atmosfera 501 mil toneladas de carbono elementar,
gerador do gás carbônico. Vale lembrar que o cálculo feito em outubro de
2001 projeta apenas os impactos das usinas Willian Arjona (operando com
produção de 120 MegaWatts/hora), Três Lagoas e Corumbá.
Para reduzir
os riscos de poluição ao meio ambiente gerados pelas substâncias liberadas
pelas usinas, o professor da Unicamp revela que seriam necessários, no
mínimo, 56 mil hectares de reflorestamento em MS. Lima baseou-se no
cálculo onde cada MegaWatt produzido por uma termelétrica emite cerca de
125 quilos de gás carbônico e outras substâncias e cada tonelada de
floresta consegue capturar até nove toneladas desses poluentes por ano. O
efeito imediato da emissão do gás carbônico e outros poluentes é o
agravamento do efeito estufa, que provoca o aquecimento global com
elevação das temperaturas. O mais adequado, no entender do pesquisador,
seria fazer uma avaliação e identificação das fontes renováveis locais de
energia, antes de criar expectativa sobre o gás proveniente da
Bolívia.
MPE apresenta alternativas e derruba preocupação do Estado
com fornecimento de energia elétrica
Se por um lado as administrações
públicas em MS defendem a construção de mais usinas termelétricas para a
auto-suficiência na geração de energia elétrica, por outro lado o
Ministério Público apresenta alternativas sustentáveis de geração de
energia e dados que derrubam o desespero de se produzir mais eletricidade.
Um recente estudo realizado pela Enersul (Empresa Energética de MS) revela
que o Estado possui potencial para geração de energia com aproveitamento
hídrico, através das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), superior a
2000 MegaWatts/hora. O valor é o triplo do que MS necessita
anualmente.
Para o diretor de Engenharia e
Construção da Enersul, Antônio Soarez Diniz, a auto-suficiência não é um
objetivo a ser perseguido com toda essa ênfase. "Não podemos dispensar a
energia produzida por outras fontes, como a Itaipu, o mercado hoje é muito
competitivo", disse Diniz. Mato Grosso do Sul também pode planejar o uso
de fontes energéticas renováveis e disponíveis que podem suprir todas as
suas necessidades energéticas com vantagens. O Estado também não corre o
risco de não ter energia elétrica suficiente. Segundo a UFMS, tem-se hoje
energia para alimentar o Estado por muito tempo, talvez mais de 15 anos,
somente utilizando recursos hídricos e internos.
A universidade ressalta ainda que
é necessário considerar que o sistema interligado brasileiro, baseado em
fontes hidráulicas, alimentou praticamente sozinho o sistema de MS por
décadas. "O MS está mais do que garantido em termos de fontes
energéticas", garante a UFMS. Para a Universidade Estadual de Mato Grosso
do Sul (UEMS), MS tem potencial para a instalação de fontes alternativas
que utilizem a energia solar. A universidade garante que o Estado é
beneficiado pela incidência solar e por altas temperaturas durante quase
todo o ano. No entanto, mesmo com o potencial solar, esta alternativa
depende de tecnologias fabricadas, em sua maioria, fora do Brasil. Este
fato encareceria a instalação de usinas solares. "A biomassa viria a ser,
talvez, a melhor alternativa devido à quantidade de indústrias avícolas,
agrícolas e outras onde a opção tecnológica dos biodigestores desponta
como uma solução energética pontual", recomenda a UEMS.
A retomada do Proalcool, programa
iniciado em 1975 pelo Brasil para reduzir a dependência externa do
petróleo, seria um grande salto positivo para o meio ambiente e para o
desenvolvimento do Brasil. A recomendação é feita pelo pesquisador do
Departamento de Engenharia Elétrica da UFMS, Bruno Mangiapelo. "Este
programa nos tornou o maior produtor de álcool do mundo e representa o
maior gol que este País já marcou em toda sua história", comenta
Mangiapelo no inquérito do MPE. Segundo o pesquisador, o álcool, ao ser
queimado, emite bem menos poluentes do que a gasolina ou o diesel, com a
vantagem de seus poluentes serem reabsorvidos pela natureza, apresentando
poluição muito pequena. "Ele é uma excelente alternativa, renovável,
ecológico, limpo e com tecnologia de produção e distribuição totalmente
conhecidas, além de ser produzido próximo aos centros de consumo, gerando
muitos empregos", conclui Mangiapelo.
Saiba quais são as
usinas termelétricas de MS
Usina Termelétrica de
Corumbá funcionará no Pantanal, no município de Corumbá. O
empreendimento da Duke Energy deve gerar 88 MegaWatts/hora de energia
elétrica e já conseguiu a Licença Ambiental para iniciar a construção. (a
gás natural).
El Paso Energy (pode ser instalada em Campo
Grande, Dourados ou Água Clara). Custará 400 milhões de reais, com
previsão de geração de 250 MegaWatts/hora de energia. Funcionará com ciclo
combinado em duas fases. (a gás natural)
Usina Termelétrica de Três
Lagoas, também empreendimento da Duke Energy, já está em construção e
deve geral inicialmente 240 MegaWatts/hora de energia. A primeira turbina,
de 60 MegaWatts, já está sendo implantada no município de Três Lagoas. A
usina inicia sua operação ainda neste primeiro semestre. (a gás
natural)
Usina Termelétrica Willian Arjona é a única em MS que está
em operação, desde abril de 2001, na capital, Campo Grande. Atualmente
gera 120 MegaWatts/hora de energia elétrica. Seu potencial deve ser
ampliado para 200 MegaWatts/hora a partir de junho deste ano, com a compra
de duas turbinas. (a gás natural)
Usina da Enersul (Empresa Energética de
MS) se encontra em estudos mas já foi aprovada pelo Programa
Prioritário de Termoeletricidade. Ela vai operar em Campo Grande com
previsão de geração de 240 MegaWatts/hora. As obras podem iniciar ainda
este ano. (a gás natural)
Usina Termelétrica para queima do lixo de
Campo Grande pode vir a se concretizar. O empreendimento está em
estudo nos planos da prefeitura de Campo Grande como solução para a
destinação final do lixo da capital. Segundo pesquisadores, a usina vai
gerar energia elétrica com custos elevados, poluição com produção de gases
tóxicos e liberação de metais pesados na atmosfera.
Saiba Mais
*Atenção leitor, abaixo estão
informações que podem esclarecer os malefícios que a queima do gás natural
em termelétricas traz à sua saúde e ao meio ambiente. O brasileiro, que
tem sido tão mal informado sobre os impactos negativos que estes
empreendimentos trazem, pode decidir se quer ou não conviver junto às
termelétricas. As informações sobre poluentes e impactos socioambientais
gerados pelas termelétricas estão sendo divulgadas pelo Ministério Público
Estadual de MS para que todos possam conhecer e participar deste chamado
desenvolvimento do Brasil.
As termelétricas a gás natural não
produzem energia elétrica sem danificar o meio ambiente e a saúde da
população de sua região, pelo contrário, elas danam rios, ecossistemas,
aumentam a temperatura do planeta Terra, podem causar câncer, problemas
respiratórios e diminuir a resistência do organismo humano para combater
outras doenças. Veja quais são os principais poluentes emitidos durante
a queima do gás natural em termelétricas e saiba como estes poluentes
interferem no ambiente:
Dióxido de Carbono (CO2): é o
poluente causador do efeito estufa - efeito proveniente da absorção, pela
atmosfera, da radiação solar que, aquecendo a superfície do planeta,
produz irradiação que permanece nas camadas atmosféricas inferiores
elevando o seu nível térmico. O efeito estufa, por conseqüência, agrava
ainda mais o aquecimento do Planeta, um efeito comprovadamente maléfico
para a natureza e para o homem. Para cada MegaWatt/hora de produção de
energia elétrica são emitidos para a atmosfera 129 quilogramas de CO2,
segundo cálculo realizado pelo Departamento de Energia Elétrica da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Os gases
poluentes emitidos para a atmosfera pelas termelétricas demoram cerca
de 150 anos para se dissiparem. Além de todo esse dano, a termelétrica tem
capacidade de usar enormes volumes de água para refrigeração de seus
equipamentos. Por causa disso, ela é sempre instalada perto de grandes
mananciais, como rios e lagos. Explicando de maneira mais simples, a
termelétrica pega a água fria do rio e a devolve muito quente ao rio,
conseguindo, assim, destruir parte de sua flora e fauna.
Segundo o
engenheiro eletricista e professor da UFMS, Jeferson Ortega, todos os
ecossistemas entorno de uma termelétrica são prejudicados com a elevação
das temperaturas. Os resíduos eliminados, provenientes da queima de gás
natural, entram em contato com o ar atmosférico a uma temperatura de 540
graus Celsius.
Ozônio (O3): é um poluente secundário, produzido
pela reação entre os óxidos de nitrogênio com outros compostos presentes
no ar. O ozônio é conhecido como oxidante fotoquímico, pois se forma a
partir de reações químicas estimuladas pela luz solar. Enquanto na
estratosfera o ozônio protege os seres vivos dos raios ultravioletas que
vêm do Sol, em baixas altitudes, dependendo da concentração, é um poluente
tóxico. Estudos realizados em animais mostram que o ozônio causa
envelhecimento precoce, danos na estrutura pulmonar e diminuição da
capacidade do organismo em resistir às infecções
respiratórias.
O Departamento de Engenharia Elétrica da UFMS
destacou também, a pedido do Ministério Público de MS, os seguintes
poluentes gerados pelas termelétricas:
CO - monóxido de
carbono
NO e NO2 - monóxido e dióxido de nitrogênio. Estes óxidos se
transformam na atmosfera em poluentes secundários como o ácido nítrico e
ácido sulfúrico. Ambos são facilmente dissolvíveis em água. Os ácidos
ainda podem se transformar em sais de enxofre e de nitrogênio e, estes
ácidos, então, podem se precipitar (cair) através da chuva, neblina ou
neve. Este fenômeno de precipitação é conhecido como chuva ácida, que
causa danos em florestas, plantações, lagos, peixes, prédios, água de
abastecimento para consumo, carros, pessoas etc. As chuvas ácidas, além
de causar redução da fertilidade dos solos, têm efeitos diretos na saúde
das pessoas expostas a ela como mal-estar, náuseas e
irritações.
SO2 - dióxido de enxofre
Materiais
particulados
Hidrocarbonetos
Substâncias
aromáticas
A própria Gerasul, empreendedora da Termelétrica
Willian Arjona, informou que a combustão completa do gás natural libera
dióxido de carbono (CO2) e água (H2O). No entanto, quando a usina opera,
não existe a combustão completa do gás natural e isso gera outros produtos
como materiais particulados (MP), monóxido de carbono (CO),
hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (Nox).
Não existem
níveis seguros
Não existem estatísticas definitivas sobre a
quantificação dos efeitos destes poluentes, entretanto, alerta a UFMS, o
agravamento das condições de saúde das pessoas, ao serem expostas a tais
poluentes, são acelerados pelas substâncias emitidas pelas térmicas a gás
natural. Existem registros em regiões afetadas por tais poluentes onde 26%
das mortes de moradores estão relacionadas com problemas pulmonares e
cardíacos.
Câncer e alterações no DNA
Segundo o
pesquisador da Unicamp, Carlos Roberto Lima, entre as emissões dos
poluentes citados acima encontram-se substâncias potencialmente
cancerígenas (induzem o aparecimento de câncer no organismo) e genotóxicas
(que podem causar alterações no DNA). Os poluentes das térmicas a gás
também provocam problemas na visão por meio de irritações e catarata. Lima
alerta que "a simples presença de determinadas substâncias, independente
dos níveis de emissões ou da sua concentração no ar, provocam os
males".
Poluição Sonora
Em um dos documentos que fazem parte do
inquérito do Ministério Público de MS para investigar impactos
socioambientais das termelétricas, um artigo de autoria de Carlos Bocuhy
informa: "imaginemos uma dúzia de turbinas de avião Boing 747 funcionando
normalmente, sem sair de um local com baixa capacidade de dispersão". Dá
para imaginar quanto de barulho um empreendimento destes causa. Uma
recomendação do Departamento de Energia Elétrica da UFMS é a medição dos
níveis de ruído em decibels, dentro e ao redor da usina em pleno
funcionamento.
Redução de impactos
Relatório técnico emitido
pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) a pedido do
Ministério Público informa que existem sistemas que reduzem as emissões
dos poluentes das termelétricas. Existem dois sistemas de geração de
energia nas termelétricas, o convencional e o de cogeração. No sistema de
cogeração é possível a eliminação da emissão de dióxido de enxofre (SO2) e
redução das emissões de monóxido de nitrogênio (NO) em dez vezes. As com o
sistema também é possível eliminar 50% do dióxido de carbono (CO2) emitido
durante a queima do gás natural. Mas a própria UEMS adverte que, ainda que
as emissões de CO2 em uma termelétrica a gás natural sejam mais baixas, é
necessário lembrar que o tempo de vida do CO2 na atmosfera é muito maior
do que o tempo de vida dos outros dois poluentes (NO2 e SO2).
O relatório enviado ao MPE pela UFMS relata
também que alguns poluentes podem ser neutralizados e, outros controlados.
Mas a única técnica, segundo a universidade, aplicável para a redução dos
impactos das termelétricas a gás natural é a cobertura vegetal (floresta)
para capturar, através da fotossíntese, o carbono emitido pela
usina.
Além de agravar e provocar problemas de saúde, a poluição gerada
pelas termelétricas tem graves conseqüências na economia e desenvolvimento
da região. O enfraquecimento da economia local, aumento dos gastos dos
governos com a saúde pública e aumento dos custos sociais são incluídos
como impactos negativos.(Ecologia em Notícias)
www.riosvivos.org.br
http://www.arvore.com.br/
FONTE:
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