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A sopa de
lixo no
Pacífico
Cabem dois
EUA na
plataforma
de sujeira
encontrada
no oceano e
formada
sobretudo
por resíduos
de plástico
LUCIANA
SGARBI
Foi durante
uma alegre
competição
de barco a
vela que o
oceanógrafo
americano
Charles
Moore se
deparou com
algo
trágico: um
gigantesco
depósito de
lixo em
pleno mar.
"Fiquei
impressionado,
de repente
estava no
meio
daquilo.
Para onde eu
olhava, via
lixo", diz
ele. A 500
milhas
náuticas
(cerca de
920
quilômetros)
da costa da
Califórnia,
no oeste dos
EUA, esse
depósito
estava e
ainda está
lá. A
primeira e
mais
importante
questão é
saber como
essa mancha
se formou e
cresceu. A
primeira e
mais
importante
resposta,
impressionante
e
assustadora,
é que a
grande
sujeira que
muitas vezes
se tenta
esconder
debaixo do
imenso
tapete de
mar é fruto
da falta de
consciência
ambiental -
um dia ela
aparece e
bóia, um dia
a atitude
predatória
vem à tona,
ainda que
seja em meio
a uma
tranqüila
regata.
"Toda vez
que eu ia ao
deque via
coisas
boiando.
Como nós
conseguimos
sujar uma
área tão
enorme?",
pergunta
Moore. O
especialista
que passou
anos em seu
barco
estudando
essa área
(do Havaí
até quase o
Japão)
revela que a
mancha tem
mais de dez
anos. E suas
proporções
são
assustadoras:
"Ali existem
cerca de 100
milhões de
toneladas de
detritos." A
formação
desse
megaentulho,
apelidado
pelos
especialistas
de "sopa
plástica", é
atribuída a
dois fatores
combinados:
ação humana
e ação da
natureza. Os
pesquisadores
contabilizam
que um
quinto dos
resíduos foi
jogado de
navios ou
plataformas
petrolíferas,
e inclui
itens como
bolas de
futebol,
caiaques,
sacolas
plásticas e
restos de
naufrágios.
O restante
veio da
terra. No
mar, esse
lixo
flutuante
acabou se
agrupando
por
influência
das
correntes
marítimas. E
então ficou
vagando.
Ironia
do destino,
Charles
Moore era
herdeiro de
uma família
que fez
fortuna com
a indústria
do petróleo,
e o plástico
que compõe a
tal "sopa" é
feito
justamente a
partir de
petróleo -
demora
aproximadamente
300 anos
para se
decompor.
Hoje, Moore
vendeu o seu
negócio e se
tornou um
ativista
ambiental,
criando nos
EUA a
Fundação de
Pesquisa
Marítima
Algalita. O
diretor de
pesquisa
dessa
fundação, o
ativista
ecológico
Marcus
Eriksen,
relata a
impressão
que teve
quando viu
pela
primeira vez
a imensa
lixeira:
"Parece uma
ilha de lixo
plástico
sobre a qual
se pode
andar. É uma
sopa de
plástico,
uma coisa
sem fim que
ocupa uma
área que
pode
corresponder
a até duas
vezes o
tamanho dos
EUA."
Pode ser que
os milhões
de toneladas
tenham
passado
despercebidos
pelas
autoridades
ambientais e
sua
tecnologia -
translúcida,
a mancha
flutua rente
à linha da
água e, por
isso, pode
ser
imperceptível
aos
satélites.
Mas, de
acordo com o
Programa
Ambiental da
ONU,
detritos de
plástico
constituem
90% de todo
o lixo
flutuante
nos oceanos.
Estima-se
que 46 mil
peças de
plástico
provoquem
anualmente a
morte de
mais de um
milhão de
aves e de
outros 100
mil
mamíferos
marinhos.
Seringas,
isqueiros e
escovas já
foram
encontrados
no estômago
desses
animais
depois de
mortos.
A gravidade
do problema
soou como um
alarme aos
ouvidos de
especialistas
de todo o
mundo. O
oceanógrafo
David Karl,
da
Universidade
do Havaí,
pretende
coordenar
uma
expedição
para estudar
o problema
ainda este
ano, pois
acredita que
esse lixo no
Pacífico já
formou um
novo habitat
marinho. Tão
cedo, porém,
essa
situação não
será
resolvida.
A
área,
conhecida
como "giro
Pacífico
norte", é um
local onde o
oceano é
calmo devido
aos poucos
ventos e aos
sistemas de
pressão
extremamente
altos. Essas
condições
naturais
estariam
"segurando a
sujeira".
"Da mesma
forma que
ela está
presa
naquele
redemoinho,
a sociedade
está presa a
maus
costumes",
diz Moore. E
com razão:
até
pesquisadores
da Agência
Espacial
Americana
(Nasa) e de
agências
russas estão
acostumados
a despejar
toneladas de
resíduos de
suas
espaçonaves
no oceano
Pacífico. A
nave russa
Progress
M-59, por
exemplo,
teve seus
fragmentos
carbonizados
e lançados
ao mar - uma
tonelada de
lixo. Em
forma de
chuva de
metal
incandescente,
os destroços
caíram em
uma zona
entre a
Oceania e as
Américas (a
mesma região
da sopa) e,
assim, o
caldo de
trambolhos e
quinquilharias
foi ganhando
proporções
cada vez
maiores.
A
fiscalização
para evitar
agressões ao
meio
ambiente em
geral
costuma ser
fraca, e
mais
inoperante
ainda é a
fiscalização
que deveria
proteger o
ambiente
marinho - a
absurda sopa
de lixo no
Pacífico
comprova
esse fato.
Convenções
internacionais
determinam
que todas as
embarcações
devem manter
em
recipientes
adequados os
seus
resíduos
produzidos a
bordo, sendo
proibido (e
passível de
multa) o seu
descarte no
mar - a
Marinha
brasileira
estabelece
punições
pecuniárias
que vão de
R$ 7 mil a
R$ 50
milhões. Uma
vez boiando
nos oceanos,
no entanto,
esses
resíduos
passam a ser
sujeira sem
dono - como
ponta de
cigarro na
rua. Ainda
que se saiba
a sua
procedência,
é impossível
responsabilizar
culpados.
Por isso a
fiscalização
é teórica e
ineficaz,
por isso
formam-se
lixões como
o do
Pacífico,
por isso a
humanidade,
feito
suicida,
emporcalha
aquilo que é
a principal
condição
biológica
para a sua
sobrevivência
- a água.
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