 |
|
ÓLEO
NATURAL
Operário tira biodiesel em usina de
Campinas, em São Paulo. O combustível
vegetal vai entrar na mistura
obrigatória do diesel comum |
O Brasil é, novamente, o país do futuro. Depois
de rodar pelo país e se encantar com o processo
de produção do álcool a partir da
cana-de-açúcar, Thomas Friedman, colunista do
New York Times e um dos maiores especialistas em
Oriente Médio, voltou para os Estados Unidos
convencido de que o Brasil pode se tornar a
Arábia Saudita do álcool. A comparação com o
maior exportador mundial de petróleo não é
delirante. O Brasil é o país mais avançado em
combustíveis de origem vegetal, também chamados
biocombustíveis. Temos matéria-prima
competitiva, tecnologia de ponta, um mercado
maduro e espaço para crescer. Foi esse potencial
etílico que trouxe para cá o subsecretário de
Estado americano para Assuntos Políticos,
Nicholas Burns. Ele veio na semana passada para
tratar de um acordo estratégico entre os dois
países na área de energia. Em março, quem virá
ao Brasil falar de combustíveis alternativos é o
próprio presidente George W. Bush, cujas
ligações com a indústria do petróleo são
históricas.
Os EUA estão empenhados em reduzir sua
dependência do petróleo importado de países
politicamente voláteis, como Venezuela e Iraque.
E também antecipam uma crescente preocupação com
fontes de energia que não contribuam para o
aquecimento global. Os combustíveis de origem
vegetal, como nosso álcool e nosso biodiesel,
estão entre as melhores opções. "A energia tende
a distorcer o poder de alguns Estados que
achamos que têm um peso negativo no mundo, como
Venezuela e Irã", afirmou Burns. "Quanto mais
pudermos diversificar nossas fontes de energia e
nos tornarmos menos dependentes do petróleo,
melhor ficaremos." Os americanos não são os
únicos interessados no suprimento de
combustíveis vegetais do Brasil. Outros países
vão procurar nosso álcool. Como vamos faturar
com isso?
A meta que passa pela cabeça de todos: o país
tem condição de se tornar a maior potência da
energia alternativa e o maior exportador mundial
de biocombustível, assim como a Arábia Saudita é
a maior exportadora de petróleo. Nos próximos
dez anos, a plantação de cana no Brasil deve
permitir a produção de 1,2 milhão de barris de
álcool por dia. Para alcançar o mesmo nível da
Arábia Saudita, que exporta 9,6 milhões de
barris de petróleo por dia, teríamos de dobrar
nossa produtividade e ainda quadruplicar a área
plantada. Estudos indicam que isso é viável. Os
sauditas faturam US$ 154 bilhões por ano
vendendo petróleo. Ninguém arrisca ainda quanto
o Brasil ganharia exportando álcool - hoje,
nossa exportação soma US$ 1,6 bilhão, valor
ainda baixo diante dos petrodólares sauditas.
Também não existem indícios para calcular se - e
como - seria possível aos países que hoje
importam petróleo passar a importar álcool. A
única coisa que se sabe é que cresce o interesse
mundial pelo álcool brasileiro e, portanto, os
prognósticos são de crescimento.
O Brasil, de certa forma, virou herói por
acidente. Nosso programa de álcool combustível
nasceu na década de 70, durante o regime
militar. Era uma opção estratégica para s
reduzir a dependência do petróleo importado e
melhorar nossa balança comercial. O programa
quase naufragou nos anos 90, quando o petróleo
ficou barato e os usineiros usavam a produção de
cana para exportar açúcar, abandonando o álcool.
Fomos salvos pela tecnologia bicombustível, que
liberta o consumidor do humor dos usineiros. E
pela gravidade do aquecimento global, que torna
cada vez mais prioritária a substituição de
combustíveis fósseis por outras fontes.
A queima de gasolina e diesel lança na atmosfera
dióxido de carbono, um dos gases causadores do
efeito estufa. O mesmo acontece com os
biocombustíveis. Mas o carbono da combustão do
álcool pode ser reabsorvido pelo canavial, no
processo conhecido como fotossíntese. O mesmo
vale para o biodiesel, produzido com óleos
vegetais de soja, girassol ou mamona. Por isso,
na soma geral, eles não alteram a atmosfera.A
maneira mais imediata de combater as mudanças
climáticas, portanto, é substituir combustíveis
fósseis, como diesel e gasolina, por
biocombustíveis, como álcool e biodiesel, afirma
Suzana Kahn, da Coppe (Coordenação dos Programas
de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro).
Mais uma vez, o Brasil descobriu que foi
abençoado pela natureza. A cana, cultura
adaptada a nosso clima, é uma das espécies mais
eficientes para produzir álcool. A plantação de
cana ocupa cerca de 6 milhões de hectares no
Brasil. E ainda há espaço para ela crescer.
Apesar da preocupação mundial que o desmatamento
da Amazônia provoca no resto do mundo, o país
ainda tem 90 milhões de hectares cultiváveis,
fora das áreas sensíveis.
Temos um mercado sem
igual. Mais de 80% dos carros novos são
bicombustíveis. Usam gasolina ou álcool. A
gasolina vendida nos postos vem com 25% de
álcool. O país avança também em biodiesel. A
partir do ano que vem, os postos venderão diesel
com mistura de 2% de biodiesel produzido a
partir de óleos vegetais. A Petrobras pretende
suprir 80% desse mercado, comprando óleo vegetal
da agricultura familiar para fazer biodiesel. A
proporção chegará à 5% em 2013.
 |
NO CAMPO
O fumicultor Martins em sua plantação de
girassol. O biodiesel aumentou sua renda
|
O país continua aprimorando sua tecnologia. No
ano passado, a Petrobras inventou um processo de
produção de biocombustíveis. É o Hbio. Ele
incorpora óleo vegetal à produção de diesel. O
inventor é o engenheiro Jefferson Gomes, de 46
anos, há 20 na empresa. Por meio de reatores
instalados em refinarias, ele conseguiu fazer
com que 1 litro de óleo de soja renda
praticamente 1 litro de diesel. "O Hbio
complementa a indústria do biodiesel porque vai
estimular o produtor de matéria-prima. Se a
Petrobras se tornar um consumidor regular, aí o
mercado vai se estruturar", diz Gomes.
Alguns usineiros também estão pesquisando. A
Dedini, empresa que fabrica instalações
industriais para usinas canavieiras, desenvolveu
uma unidade capaz de produzir álcool e biodiesel
juntos. É a Barralcool, em Mato Grosso. Ela
aproveita o álcool como reagente na fabricação
de biodiesel de óleo de soja. Ainda queima o
bagaço para gerar energia elétrica. "Acreditamos
que será um ótimo negócio por causa do
aproveitamento dos insumos", diz Sílvio Rangel,
gerente de biodiesel da usina, localizada a 160
quilômetros de Cuiabá.
O país já virou exportador de usinas. A Dedini
já vendeu quatro usinas para países do Caribe,
de onde empresários locais exportam o
combustível para os EUA. "A procura é até
excessiva, porque não há usinas para pronta
entrega", diz José Francisco Davos,
vice-presidente de negócios da Dedini. O
interesse e a curiosidade dos estrangeiros sobre
o álcool criou o turismo da cana. Grupos de
estrangeiros chegam ao país e acrescentam
passeios a modernos engenhos ao roteiro da
viagem. Do início do ano até o Carnaval, a
Barralcool terá recebido quase 80 estrangeiros,
a maior parte dos EUA. "Antes do Carnaval chega
um grupo de 42 americanos", diz o agente de
turismo José Rocha Jr., de Tanguá da Serra,
município onde está a usina.
Com tanta promessa, o ritmo de novos
investimentos é frenético. Surgem 20 novas
usinas por ano no país. O financiamento do BNDES
para a indústria sucroalcooleira dobra a cada
ano desde 2004. No ano passado, foram mais de R$
2 bilhões. O banco avalia ou financia um total
de 62 projetos, com investimentos de R$ 12
bilhões. Em biodiesel, há 11 projetos a caminho,
com investimentos de mais de R$ 700 milhões,
segundo afirma Carlos Gastaldoni, assessor da
presidência do BNDES.
De acordo com a Agência Internacional de
Energia, a tecnologia e a matéria-prima
disponíveis hoje garantem que 20% do combustível
usado em transporte no mundo todo poderia ser
substituído por biocombustíveis em 2030. Quem
vai atender à explosiva demanda global? Saberá o
Brasil aproveitar a oportunidade?
Exportar não é fácil. Os EUA sobretaxam o álcool
brasileiro e subsidiam a produção local, a
partir do milho. s "O potencial é enorme. O
problema é que todos querem desenvolver o
próprio álcool", diz Pedro Mizutani,
vice-presidente-geral da brasileira Cosan, o
maior produtor de álcool do mundo. Mas há
indícios de que a capacidade de produção
americana tenha limites. Em 2000, 6% do milho
americano era usado para fazer álcool. Em 2006,
foram 20%. Só que isso puxou o preço do cereal,
usado para ração animal. O efeito colateral é
péssimo para o custo dos alimentos nos Estados
Unidos. Em algum momento, os americanos terão de
importar álcool. Aí, as barreiras deverão cair.
Outra medida importante é criar uma
especificação técnica única para o álcool no
mundo. Sem isso, não há como vender o produto no
mercado internacional. Na semana passada, Brasil
e EUA concordaram em criar um padrão. A notícia
é ótima para a Petrobras. A estatal já fornece
para Venezuela, Nigéria e Japão, onde a lei
permite misturar 3% de álcool à gasolina. Em
parceria com uma empresa japonesa responsável
pela importação de álcool, a Petrobras fundou
uma firma, a Nippaku, para atuar no ramo. Seu
plano é tornar-se uma multinacional de
biocombustíveis. Para isso, negocia
participações, compras e investimentos com mais
de 20 usinas de álcool de grande porte no Brasil
e outras duas dezenas de biodiesel. "Temos
acordos de confidencialidade, mas há vários
grupos na mesa de negociações. Se vamos aumentar
as exportações, a garantia de fornecimento de
álcool tem de ser total", disse a ÉPOCA o
presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.
 |
VEGETAL
Bush visita laboratório de álcool da
DuPont nos EUA. Os americanos estudam
comprar álcool do Brasil |
A Petrobras tem motivos para se preocupar com
isso. A falta de confiabilidade no abastecimento
é um dos entraves históricos no ciclo do álcool
brasileiro. Quando o preço do açúcar sobe e o do
petróleo cai, é mais lucrativo para o usineiro
abandonar temporariamente o álcool e dedicar-se
ao açúcar. "É preciso modificar a produção, para
ter usinas mais dedicadas ao álcool", diz
Gabrielli.
A entrada de uma gigante como a Petrobras na
bioindústria pode modificar a vida de grandes e
pequenos agricultores, como o plantador de fumo
Sérgio dos Santos Martins, de 52 anos, de
Venâncio Ayres, no Rio Grande do Sul.
Incentivado pela Afubra, a associação dos
fumicultores do Brasil, Martins começou a
plantar girassóis nas entressafras do fumo em
seu sítio. A Afubra compra a produção e repassa
75% do lucro ao agricultor. O girassol é um dos
insumos do biodiesel. Quanto mais usos tiver,
mais lucro agricultores como Martins terão.
Ser um grande exportador de produtos valorizados
no mercado é sempre bom. Mas pode ser fugaz. O
que o Brasil precisa fazer para não repetir
enredos como o do ciclo da borracha? No início
do século XIX, ela era o motor da economia
nacional. Até os ingleses levarem algumas
sementes para suas colônias na Ásia. Plantadas
de forma mais planejada, elas renderam mais que
as árvores espalhadas pela selva amazônica.
Depois, veio a borracha sintética e acabou com o
suntuoso ciclo da borracha. A saída para evitar
que o álcool tenha esse destino é investir em
tecnologia.
Um passo decisivo será a descoberta da melhor
tecnologia para extrair açúcar de folhas e
bagaço de plantas para, a partir daí, produzir
álcool. O álcool celulósico dobrará a produção
de álcool da cana. Também permitirá que outras
culturas, como o milho americano e o canadense,
fiquem competitivas com nossos canaviais. "Temos
o menor custo de produção do mundo. Com o álcool
celulósico, alguém pode nos passar", diz
Mizutani, da Cosan. "Como o mundo acordou para o
álcool, Estados Unidos, Canadá e União Européia
estão investindo milhões em pesquisas", diz
Ricardo Dornelles, do Ministério de Minas e
Energia.
Resta algo mais por fazer? "Marketing", diz o
consultor Mario Veiga, da PSR Consultoria. "O
cidadão médio americano não tem idéia de que o
álcool brasileiro é melhor, mais barato, mas é
taxado. Não basta ser citado como exemplo a ser
copiado. Negócio é negócio. Já fomos os reis do
açúcar, da borracha e do café. É a última chance
que Deus está nos dando. Precisamos aproveitar
esta oportunidade." Se o Brasil conseguir virar
uma potência tecnológica do biocombustível, não
seremos um país apenas de agricultores, como
Martins, mas daremos futuro também para
pesquisadores de ponta, como Jefferson. A
escolha é nossa.
|
POR QUE É POSSÍVEL |
•
NOSSA CANA
É A MELHOR matéria-prima para a
produção de álcool
•
HÁ ESTUDOS
para dobrar a produtividade da
cana e ampliar a área plantada.
Nossa produção de álcool
chegaria a 9,6 milhões de barris
por dia, o equivalente à
produção de petróleo atual da
Arábia Saudita.
•
MAIS DE
80% da frota nova tem motor
bicombustível, movido a gasolina
e álcool
•
TODA A
GASOLINA vendida no país já leva
25% de álcool
•
TEMOS AS
MELHORES CONDIÇÕES de clima e
solo
•
TEMOS UM
PROCESSO INÉDITO para produzir
diesel
a partir de óleo vegetal
•
O PREÇO DO
PETRÓLEO em alta torna viável o
investimento em álcool e no
biodiesel |
|
|
O QUE FALTA FAZER |
•
CRIAR UMA
POLÍTICA para garantir
suprimento estável de álcool,
que sempre pode cair se o preço
do açúcar aumentar
•TER
GRANDES EMPRESAS dedicadas à
logística para exportar álcool,
gasolina misturada ao álcool e
outros produtos agregados
•
ESTIMULAR
MAIS PESQUISAS em tecnologia
para descobrir como produzir
álcool a partir de outras
plantas
•
INVESTIR
EM MARKETING O mundo precisa
conhecer as vantagens ambientais
do álcool da cana para que os
países reduzam as restrições à
importação do produto brasileiro |
|
|
UM PAÍS MOVIDO A PLANTAS |
|
Como o Brasil criou várias
tecnologias para encher os
tanques de carros e veículos
pesados com combustíveis de
origem vegetal |
 |
 |
|
|
O valor ambiental do combustível
vegetal |
|
O planeta está
esquentando por causa da
concentração crescente de gases,
como o dióxido de carbono, na
atmosfera. Eles retêm o calor do
sol. Os combustíveis de origem
vegetal evitam esse aumento de
carbono na atmosfera
|
 |
|
1
• Qualquer
planta, para crescer, retira
carbono do ar por meio da
fotossíntese. Com essas
moléculas de carbono, a planta
constrói suas folhas, caule e
raízes |
|
2
• Usinas
de álcool ou biodiesel fazem
combustível a partir do vegetal.
Assim, as moléculas de carbono
que a planta tirou da atmosfera
viram combustível |
|
3
• Os
carros queimam o combustível
vegetal no motor. Pelo
escapamento, lançam as moléculas
de carbono de volta para a
atmosfera |
|
4
• As
plantas, como cana-de-açúcar ou
girassol, vão capturar moléculas
de carbono outra vez para
crescer. Isso compensa o que foi
emitido pelos carros |
|
Fotos: Eduardo
Nicolau/AE, divulgação, Brendan Smialowski/AFP