Sérias Ameaças ao
Ecossistema Pantaneiro sul-mato-grossense
Por: Rogério
Grassetto Teixeira da Cunha
Publicado em 16/11/2006
Na semana que passou,
deparei-me com uma série de assuntos extremamente
relevantes que mereceriam discussão nesta coluna: o
efeito do aquecimento global sobre a economia mundial, a
perspectiva do desaparecimento completo da indústria
pesqueira até 2048 e a retomada das discussões sobre a
transposição do rio São Francisco. Mas, pela minha
ligação emotiva, de encantamento com a beleza natural do
Pantanal, todos eles perderam importância quando soube
de um projeto de lei que corre na Assembléia Legislativa
do Mato Grosso do Sul, que é a mais nova ameaça à maior
planície alagável do planeta.
De autoria do deputado
estadual Dagoberto Nogueira, do PDT, o texto do PL é
simples, curto e de aparência inofensiva. Ele pretende
liberar a instalação e/ou aumento das usinas no Pantanal
e nos planaltos de entorno, com a série de graves
efeitos que isto acarretaria para a região.
Na justificativa da lei,
diversas pérolas. Dentre elas, o recorrente, mas
falacioso, argumento de geração de empregos. Dado o alto
grau de mecanização e a baixa modificação posterior da
maioria dos produtos, a agroindústria não é grande
geradora de postos de trabalho. No caso da cana, as
plantações geralmente utilizam mão-de-obra temporária e
precária, relação trabalhista não muito estranha a uma
boa parte dos fazendeiros do estado.
Outra preciosidade é a
justificativa de que o vinhoto, rejeito do processo
industrial das usinas, pode ser agora reutilizado como
fertilizante e não mais causa o impacto de outrora,
quando desoxigenava os rios e matava a fauna aquática. O
deputado esqueceu-se de alguns detalhes. Conforme o
volume adicionado ao solo ou o regime de chuvas do
local, o vinhoto não será todo absorvido pelas plantas e
irá parar no lençol freático ou será lavado diretamente
para os rios. Além disso, há a possibilidade de falhas
no sistema, como demonstrou o vazamento ocorrido no rio
Pratagy, em Alagoas, no início deste ano. O
armazenamento do subproduto em lagoas temporárias é
também um método arriscado, como mostrou o acidente em
Serrana, SP, em 2003, sendo também a possível causa da
poluição do rio Sirinhaém, PE, em 2001.
Outro problema grave da
monocultura canavieira é o excesso de fertilizantes e
agrotóxicos utilizados, que podem causar conseqüências
danosas sobre a fauna aquática e a saúde dos rios. Pior:
temos ainda os efeitos em cascata originados pelo
aumento da quantidade de terra nua nos planaltos do
entorno do Pantanal devido ao corte de matas e à
implantação de uma cultura anual. Com as chuvas, isto
gera um grande acréscimo no volume de sedimentos (areia,
argila etc.) carregados para os rios que nascem no
planalto. Como o Pantanal é uma gigantesca planície,
estes rios perdem velocidade quando lá entram, e os
sedimentos acabam por depositar-se no fundo, causando o
assoreamento dos leitos. A agonia do rio Taquari está aí
para quem quiser ver, bastante eloqüente para nos
alertar sobre os perigos de continuarmos as nossas
insanidades na bacia do Pantanal.
Outros ingredientes
perigosos nesta poção já bastante problemática são: a
mentalidade reinante na região, especialmente dos
fazendeiros, completamente alheia a questões ambientais
e acostumada a agir impunemente e sem restrições; a
ausência e conivência do Estado; e a fiscalização
escassa e ineficiente.
O Pantanal é um local de
beleza incomparável, com enorme riqueza de espécies e
densidade de animais, que lhe confere ainda grande
importância biológica. O seu potencial econômico mais
óbvio é para o turismo ambiental, rural ou a pesca
responsável (pegue-e-solte, por exemplo). A criação de
gado, atividade tradicional ali e à qual a cultura local
encontra-se fortemente entrelaçada, pode ser mantida,
incentivando-se o método orgânico, que compreende uma
série de cuidados em relação ao meio ambiente e à
alimentação, saúde e bem-estar animal. Alternativas
poderiam incluir ainda a criação de animais silvestres,
como jacarés e capivaras, e a produção de mel, entre
tantas outras que poderiam gerar mais emprego e renda,
de forma socialmente mais justa e, sem dúvida, muito
menos impactante ao meio ambiente que monoculturas de
cana.
Nunca me cansarei de
repetir que esta insistência em incentivar o agronegócio
no Pantanal e em seu entorno por parte dos governantes e
legisladores dos dois estados que o abrigam (MS e MT) é
a demonstração de uma completa ausência de visão de
futuro, para ficarmos com a hipótese mais favorável.
Leia também: Avanço da cana-de-açúcar no Mato Grosso do Sul
Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.

