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A AMAZÔNIA JÁ TEM DONO E NÃO É O GOVERNO
Roberto S. Waack
Presidente da Orsa Florestal, empresa que opera um projeto manejo
sustentável de florestas tropicais certificado pelo FSC, no Estado
do Pará.
Sim, a Amazônia tem dono. Ela é ocupada por um conluio perverso dos
madeireiros ilegais com a
oligarquia política. Surpreendentemente, esta orquestra ganhou o
apoio, mesmo que indireto, de movimentos radicais que buscam a
ocupação das terras a qualquer custo. “Os fins que justificam os
meios” comprometem a conservação da floresta aceitando apoio
financeiro de madeireiros e grileiros de terra em nome de
associações profissionais (itinerantes) de posseiros. Os madeireiros
ilegais atuam com grande eficácia ao se infiltrarem em comunidades
tradicionais, provocando também grande devastação no tecido social
dessas organizações. As terras são ocupadas por populações
desassistidas, a floresta é devastada e transformada em pastos
precários. Os naipes desta sinfônica são reforçados por burocratas
catatônicos e por grupos de agentes públicos que vivem da venda de
facilidades. Por mais incrível que possa parecer, um timbre
adicional desta sinfonia nefasta tem vindo de ambientalistas
radicais que se voltam contra qualquer iniciativa produtiva na
Amazônia, ignorando o fato de que mais de 20 milhões de pessoas nela
habitam. Indiretamente, acabam por favorecer as atividades ilícitas.
No lugar de uma floresta produtiva, a devastação total.
Incompreensível.
Esta situação precisa ser conhecida e esmiuçada em seus mínimos
detalhes. Os principais agentes deste processo são facilmente
identificáveis e não resistem à menor investigação jornalística,
para não ter que adicionar, já o fazendo, uma crítica à ação
incongruente do sistema judiciário no processo.
A prática predatória dos madeireiros ilegais se estende quando
levantam a bandeira do questionamento irresponsável da legalidade
das posses de terra, criando uma grande desordem ao instigar as
comunidades locais com os mais diversos interesses. A inépcia e
estratégica apatia dos poderes administrativo e judiciário
envolvidos com a questão fundiária são de pleno conhecimento da
sociedade brasileira. Tal situação abre flanco para a disputa das
áreas. Criada a confusão, os posseiros profissionais se instalam até
a derrubada e queima de todas as árvores, não restando, após a ação,
quaisquer condições de sobrevivência para as comunidades. Migrantes,
elas seguem para uma nova fronteira e a terra arrasada fica à
disposição dos fazendeiros interessados na pecuária e plantio de
grãos. A partir daí, tudo se repete.
A atuação desses profissionais – madeireiros e posseiros – é
favorecida tanto pela oligarquia política, que é financiada pelos
madeireiros, quanto pela esquerda radical que, por uma questão
ideológica, estimulam as ocupações ao mesmo tempo em que convivem
com a depredação das matas. Para eles, a perda da floresta é um “mal
menor”.Tudo isto ocorre graças à ausência ou inadequação de um
ambiente institucional que assuma a regência desta orquestra. Os
grupos de instrumentos reunidos no salão amazônico tocam seus
próprios interesses, mesmos os mais nobres, sem assumir nenhuma
responsabilidade pelo produto final. Para que nossos ouvidos parem
de ser agredidos com as más notícias ambientais e, especialmente,
nossos pulmões sobrevivam, é preciso um maestro que elimine os
ilegais, treine e aceite uma transição para vários agentes sociais e
produtivos tradicionais, e fortaleça aqueles que buscam genuinamente
o desenvolvimento sustentável na região.
Além de promover o respeito às instituições que existem hoje no
País, e que na Amazônia são precariamente consideradas, o desafio do
Estado é criar uma política que leve em conta a cultura dos
ribeirinhos, dos extrativistas, das comunidades tradicionais, dos
produtores rurais já instalados e das novas iniciativas empresariais
que estão surgindo.
Como organizar esta sociedade múltipla e complexa? Quais os desenhos
de organização que a região deve ter? Como abordar o seu
relacionamento com o mundo econômico? Que arquiteturas financeiras
devem ser disponibilizadas pelos bancos comprometidos com o
desenvolvimento da região? Como monitorar a evolução desse caldeirão
de oportunidades e desafios? Na prática as respostas se concentram
em um esforço para o desenho de novos arranjos institucionais que,
especialmente, assim como as leis vigentes, sejam cumpridos e
respeitados.
Pois é, a Amazônia tem dono. Pertence à sociedade que se preocupa
com a região de forma consistente e verdadeira, sem interesses
escusos ou “peles de cordeiros”. Pertence à sociedade que souber
construir e seguir as regras do jogo institucional, voltado para a
criação de um ambiente propício ao desenvolvimento sustentável real
- não o retórico . É preciso ir fundo na compreensão do que está
por trás das más notícias. É preciso não se iludir com o romantismo
da biodiversidade e da vida “onírica” das comunidades. A Amazônia
está acabando por falta e pelo não cumprimento de leis específicas à
sua realidade. |