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Agricultura
Ecológica
Reduzindo
a Fome e Atingindo Metas Ambientais
Desde a Rio-92, a agricultura continua em
destaque na agenda internacional, agregando questões críticas
como água, pobreza, fome e saúde. Governos, agricultores,
cientistas e outros estarão reunidos na Cúpula Mundial de
Alimentação em Roma, nesta semana, para avaliar o avanço na
erradicação da fome, tendo o Secretário Geral da ONU já
destacado a agricultura como uma das áreas prioritárias da
Cúpula de Joanesburgo, em agosto.
Não obstante, surgiu uma divisão fundamental nas discussões,
nacionais e internacionais, entre o engajamento a uma abordagem
ecológica à produção de alimentos e a manutenção do modelo
disfuncional existente, com sua dependência em insumos químicos
e ajustes tecnológicos. Sem mudanças radicais no modelo atual da
agricultura, a produção de alimentos continuará aquém das metas
para o alívio da pobreza, eliminação da fome e restauração dos
ecossistemas naturais.
Disfunção Agrícola Ao mesmo tempo em que as fazendas se tornaram
mais sofisticadas tecnologicamente na última década, se tornaram
ecológica e socialmente destrutivas. A agricultura promove
alguns dos problemas ambientais mais ameaçadores do mundo –
desde o aquecimento global à disseminação de produtos químicos
tóxicos. E a grande maioria das comunidades agrícolas continua
sendo uma das mais pobres do planeta.
A configuração rural na maioria das nações, determinada por
políticas nacionais e internacionais com viés para fazendas de
grande porte e alta especialização, tem hoje menor diversidade
biológica com os agricultores desenvolvendo cultivos mais
uniformes, e dependendo de menor variedade de lavouras. Estas
monoculturas reforçaram uma forte dependência em insumos
químicos, generalizadas no mundo industrializado e cada vez mais
comum nas nações em desenvolvimento. Mundialmente, os
agricultores aplicam dez vezes mais fertilizantes químicos,
hoje, do que em 1950, e gastam aproximadamente 17 vezes mais –
em valores corrigidos – em pesticidas. Esta dependência em
agrotóxicos não só polui o solo e prejudica a saúde humana e a
vida silvestre, como também contamina a água, numa época quando
os mananciais consumíveis são cada vez mais escassos. (A água é
outra prioridade identificada pelo Secretário Geral.)
Ao mesmo tempo, as áreas rurais continuam sendo o locus da
pobreza global — é o lar de 75 % das 1,2 bilhões de pessoas que
vivem com um dólar, ou menos, por dia. Cerca de 100 milhões de
famílias – aproximadamente 500 milhões de pessoas – não têm
posse da terra que cultivam, uma condição que reduz em muito sua
capacidade de sustento e o incentivo de investir na terra. Os
indicadores rurais de saúde, educação e participação política
estão muito distantes daqueles das áreas urbanas. A fome,
também, se concentra no campo, agravada pela maior dificuldade
de acesso à água potável e saneamento.
Ao longo dos últimos trinta anos, os participantes de
conferências internacionais vêm, repetidamente, prometendo
acabar com a fome, porém este objetivo elusivo tem sido sempre
postergado. Os delegados da Cúpula Mundial de Alimentação, em
1974, se comprometeram a erradicar a fome dentro de uma década.
Duas décadas após, em 1996, os delegados da Cúpula Mundial de
Alimentação decretaram a redução, pela metade, da fome mundial
até 2015, mesmo quando o número de famintos continuava
praticamente o mesmo que em 1974. Mais recentemente, em 2001, a
FAO declarou que, no ritmo atual, mesmo a meta menos ambiciosa
de 1996 – ratificada como um Objetivo das Nações Unidas para o
Milênio do Desenvolvimento – não seria atingida nem em 60 anos,
muito tarde para muitos dos pobres mundiais.
Em nível global, a parcela da população mundial faminta está, em
geral, declinando. Porém, este declínio mascara a persistência
da fome em grande parte do mundo em desenvolvimento. E na África
sub-saariana, tanto o percentual quanto o número absoluto de
crianças famintas aumentaram nas últimas duas décadas.
A Opção Agroecológica Os agricultores e cientistas agrícolas em
muitas regiões do mundo estão reestruturando a produção de
alimentos para melhor servir aos objetivos ecológicos e sociais
delineados no Rio. Esta abordagem "agroecológica" à agricultura
enfoca menos a aquisição de produtos químicos e
ajustes tecnológicos e mais o aproveitamento dos processos
ecológicos disponíveis no campo, incluindo lavouras leguminosas
que incrementam a fertilidade do solo e insetos benéficos que
controlam as pragas.
O potencial das técnicas agroecológicas para o combate à fome e
à pobreza foi confirmado em duas pesquisas recentes. A primeira,
realizada por pesquisadores da Universidade de Essex, analisou
mais de 200 projetos agrícolas no mundo em desenvolvimento que
aplicam abordagens ecológicas. Constataram que em todos os
projetos – 9 milhões de fazendas cobrindo quase 30 milhões de
hectares - a produtividade aumentava, em média, 93 % e muito
mais em alguns casos. A maioria desses projetos obteve sucesso
no incremento da produção no Sahel africano, Colinas dos Andes,
florestas tropicais do sudeste asiático e outras áreas
"marginais" onde insumos químicos se tornaram inacessíveis,
inadequados e ineficientes.
A Segunda pesquisa, da World Conservation Union-IUCN, citou
exemplos de todo o mundo, demonstrando que agricultores que
reintegram a biodiversidade à lavoura – sob a forma de cercas
vivas para forragem ou habitat para polinizadores –
freqüentemente não só ganham produtividade como também auferem
benefícios ecológicos. Cafeicultores que reintroduzem cobertura
arbórea à sua paisagem agrícola não apenas preservam a mata
tropical e a biodiversidade presente, como também reduzem seus
custos de produção e sua vulnerabilidade a pragas e à
instabilidade climática.
A Questão da Biotecnologia Políticos, líderes industriais, ONGs
e agricultores que discutem o futuro da agricultura
freqüentemente se envolvem num debate polarizado onde alguns
argumentam que a biotecnologia ajudará a limpar a agricultura e
a atender aos pobres, enquanto outros vêem a biotecnologia,
simplesmente, como uma extensão do status quo defeituoso.
(Embora não houvesse áreas comerciais com cultivo geneticamente
modificado em 1992, por ocasião da Cúpula do Rio, os
agricultores adotaram mundialmente o cultivo transgênico em mais
de 50 milhões de hectares, em 2001, principalmente nos Estados
Unidos, Argentina, Canadá e China.)
A biotecnologia é um instrumento poderoso, mas para que tenha
uma função na melhoria no modo de cultivar a terra e reduzir a
fome, os pesquisadores terão que redirecionar sua ênfase atual.
Os principais produtos da biotecnologia comercializados até hoje
reforçaram a monocultura e dependência química sendo, em grande
parte, irrelevantes às necessidades dos agricultores pobres e
dos famintos mundiais. A indústria da biotecnologia que controla
a tecnologia com patentes e outros obstáculos autorais,
canalizou a maior parte dos seus investimentos em lavouras e
linhagens voltadas à agricultura em larga escala do Primeiro
Mundo, como a soja resistente a herbicidas ou o milho produtor
de inseticida.
Em contrapartida, a capacidade de mapear e estudar o código
genético de vegetais e animais – a "genômica" – pode dar uma
valiosa contribuição para incrementar o cultivo tradicional ou
aprimorar nosso entendimento de como as plantas respondem à seca
ou como os animais reagem a doenças. Este papel informativo da
biotecnologia é intrinsecamente menos arriscado e menos
politicamente polêmico do que a troca de genes entre espécies
totalmente não-relacionadas.
Enquanto apenas quatro nações — Estados Unidos, Argentina,
Canadá e China — têm uma área comercial significativa sob
cultivo transgênico, os agricultores em praticamente todos os
países do mundo estão ampliando o cultivo orgânico que se baseia
em princípios agroecológicos, indo mais além, limitando qualquer
aplicação química. A demanda dos consumidores por produtos
orgânicos impulsionou um mercado global multibilionário.
Os governos que apóiam o desenvolvimento de áreas orgânicas
estão investindo não apenas numa crescente oportunidade
econômica, mas também num esforço de manter seus mananciais
livres de poluentes e devolver a biodiversidade à paisagem
rural. Empresas alemãs de abastecimento de água em Munique,
Osnabruck e Leipzig atualmente pagam agricultores vizinhos para
se converterem ao cultivo orgânico – uma solução mais barata do
que remover produtos químicos da água.
Políticas Prioritárias Na Cúpula Mundial de Alimentação em Roma,
nesta semana, e na Cúpula Mundial de Joanesburgo, a ser
realizada em breve, os governos terão uma oportunidade de adotar
políticas agrícolas que incrementem incentivos a técnicas
agroecológicas, desincentivem práticas agrícolas poluidoras e
reformem políticas internacionais. Entre as principais
prioridades estarão a transferência dos subsídios agrícolas de
apoio à produção de commodities para remuneração de agricultores
pela conquista de objetivos ecológicos; apoio ao desenvolvimento
da agricultura orgânica; taxação de pesticidas, fertilizantes
sintéticos e fábricas-fazendas; redistribuição de terras e
garantia de direitos seguros de posse; e estabelecimento de
direitos iguais e apoio na agricultura para as mulheres.
Transferir subsídios agrícolas para apoiar a agricultura
ecológica.
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As nações industrializadas, coletivamente, pagam a seus
agricultores mais de US$ 300 bilhões anualmente, em
subsídios, restritos a um punhado de commodities. Estes
pagamentos consolidam os agricultores na adoção de práticas
agrícolas de baixa diversidade e alto uso de produtos
químicos. Os pagamentos também favorecem agricultores
maiores e mais ricos – em 1996, 25 % das fazendas em países
da OCDE recebeu quase 90 % do apoio total.
-
Os governos deveriam transferir esses subsídios em favor de
uma premiação a agricultores que atinjam certos objetivos
ecológicos. (O mais recente Projeto de Lei Agrícola dos
Estados Unidos promove exatamente o contrário.)
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Os governos nacionais deveriam colaborar com organizações
agrícolas para aumentar a parcela de áreas sob produção
orgânica para 10 %, durante os próximos 10 anos, através da
melhoria de programas de certificação orgânica; incremento
do know-how orgânico em universidades agrícolas, centros de
pesquisa e agências de extensão, e subsídios ou créditos
fiscais a agricultores nos primeiros anos de conversão.
-
Os governos deveriam considerar a taxação de pesticidas,
fertilizantes sintéticos, fábricas-fazendas e outros insumos
ou práticas agrícolas poluidoras. Cuba e Suíça se destacam
entre as nações na aplicação de uma série de medidas
econômicas que promovem a agricultura sustentável em nível
nacional.
Eliminar subsídios à exportação, "dumping" de alimentos e outras
práticas comerciais injustas.
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Os acordos comerciais internacionais existentes restringem a
capacidade das nações de proteger e construit economias
agrícolas internas, proibindo programas de preço mínimo
interno e tarifas sobre importações. Ao mesmo tempo, esses
acordos dão um extenso campo de manobra para outras formas
de distorção comercial, inclusive permitindo às nações ricas
realizarem "dumping" de produtos subsidiados no mercado
internacional a preços abaixo do custo de produção – uma
arma econômica que pode eliminar a produção local de
alimentos.
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Os acordos comerciais deveriam proibir táticas hostis de
comércio, como "dumping" de alimentos e subsídios à
exportação.
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A
fim de combater a fome ou manter a agricultura familiar, os
acordos comerciais deveriam conceder às nações soberania
sobre o que deve ou não cruzar suas fronteiras.
Redistribuir a terra e garantir direitos seguros de posse.
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Onde a terra é distribuída eqüitativamente e os agricultores
possuem direitos seguros de posse, a incidência da pobreza e
fome é menor, e a produção de alimentos é maior. Os
agricultores também têm maior incentivo para investir em
plantações arbóreas, melhoria do solo e outras práticas
conservacionistas.
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Cerca de 100 milhões de famílias rurais, abrangendo cerca de
500 milhões de pessoas, não possuem direitos de posse, ou
afins, da terra que cultivam, inclusive a quase maioria das
populações agrícolas do sul da Ásia, América Central e do
Sul, e do sudeste asiático.
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Entre as prioridades estão o aceleramento de reformas no
leste e sul da África, e na América Central e do Sul, onde a
distribuição de terras é particularmente desigual, e o apoio
a serviços de crédito, extensão e acesso a mercados para os
beneficiários da reforma agrária.
Assegurar às mulheres direitos iguais e apoio na agricultura.
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As mulheres desempenham um papel integral na produção de
alimentos no mundo – particularmente quando os homens migram
para os centros urbanos – porém raramente recebem o mesmo
apóio financeiro e técnico que os agricultores masculinos.
Esta discriminação continua sendo um dos maiores obstáculos
para a erradicação da fome e da pobreza no campo. Quando as
mulheres tiverem o mesmo acesso aos recursos agrícolas que
os homens, sua produtividade, renda e capacidade de
alimentar suas famílias aumentarão.
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Garantir às mulheres posse e acesso à terra, irrigação e
obtenção de crédito e serviços de extensão deveria ser
prioridade nacional e internacional.
Apoiar pesquisas agrícolas do setor público centradas no
agricultor e enfocadas na ecologia.
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Os gastos em pesquisa agrícola tanto do setor público quanto
do privado estão fortemente inclinados para as fazendas dos
países ricos. Estas nações atualmente gastam cinco vezes
mais que os países em desenvolvimento em pesquisa e
desenvolvimento agrícola como parcela da produção agrícola,
não obstante as populações predominantemente rurais do mundo
em desenvolvimento terem mais a se beneficiar da pesquisa
agrícola.
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Simultaneamente, à medida que a pesquisa agrícola é
privatizada, caem os investimentos públicos. O setor privado
tende a investir pouco em pesquisas importantes para o mundo
em desenvolvimento por não ver grande potencial de lucro.
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Todas as nações deveriam revigorar a pesquisa agrícola
pública. Uma vez que o setor privado tende a enfocar
inovações patenteáveis e comerciáveis, ao invés de modernos
sistemas de cultivo ou gestão agrícola, a pesquisa do setor
público deveria centrar-se em abordagens agroecológicas.
Esta pesquisa deveria envolver agricultores, inclusive
mulheres, como atores centrais (Brian Weil -
WWI-Worldwatch Institute)
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