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A Embrapa e a agricultura de precisão

Evaristo Eduardo de Miranda (*)

          Há trinta anos, os satélites espaciais eram um evento extraordinário. Hoje, eles fazem parte de nosso cotidiano: telefonia móvel, televisão, localização de veículos, previsão do tempo, comunicação de dados etc. A exemplo do que acontece nas cidades, na agricultura suas aplicações também não param de crescer: agrometeorologia, monitoramento do uso das terras, detecção de desmatamentos e queimadas, previsão de safras, mapeamento da infra-estrutura rural etc. Agora, com a emergência da agricultura de precisão, os satélites espaciais chegam aos sistemas de produção.
          A expressão "agricultura de precisão" designa uma série de técnicas e procedimentos, baseados no conhecimento da posição geográfica exata do maquinário agrícola, em tempo real. Os satélites de posicionamento global (GPS) permitem uma visão espacializada da produção de cada campo. Colheitadeiras estão recebendo equipamentos para fornecer, após a colheita do campo, não somente a média da produtividade, mas um mapa detalhado da sua variabilidade. Essas informações podem ser repassadas para o trator que vai distribuir a adubação. Tanto a formulação do adubo, como a sua distribuição pelo campo, em quantidade, poderão variar a cada metro quadrado, em função da produtividade de cada local e dos objetivos do agricultor.
          O universo de aplicação da agricultura de precisão é o da produção altamente mecanizada, voltada para grandes superfícies cultivadas, onde a interação do produtor com a heterogeneidade natural de seus campos é difícil, ou mesmo impossível. Nesse cenário de alta produtividade do trabalho e do capital, os sistemas orbitais e o geoprocessamento vão ampliar os lucros, graças a uma otimização da alocação dos insumos. Essa necessidade de otimização é particularmente sentida no caso de cultivos anuais como milho, arroz, soja e até feijão, principalmente no Centro-Oeste e no Sul do Brasil.
          A Embrapa vem acompanhando e participando do desenvolvimento da agricultura de precisão para avaliar, no sentido estratégico, sua importância para o agronegócio brasileiro. Pesquisas realizadas nesse campo, tanto na Embrapa, como em universidades e empresas privadas, mostram que tudo está no início. A maioria dos sistemas e equipamentos ainda está sendo desenvolvida, construída e testada. De certa forma, a agricultura de precisão continua sendo mais um sonho de fabricantes de equipamentos e vendedores de insumos, do que uma realidade imediata para uso do produtor rural.
          Não se trata de panacéia. Nenhum satélite ou sistema computacional pode substituir a capacidade de análise e decisão do agricultor. Existe o risco de se vender uma ilusão: os problemas serão detectados e resolvidos, automaticamente, pelas máquinas. Do conjunto de técnicas e tecnologias que um agricultor pode empregar para solucionar problemas de heterogeneidade na produção, o tema dos insumos é apenas uma parte. Baixas produtividades podem ter origem numa interaçao complexa entre fatores físicos, biológicos, químicos e climáticos. A médio prazo, a agricultura de precisão só permitirá agir sobre alguns fatores de produção, nem sempre os mais decisivos.
          A simples geolocalização de colhedeiras já significará um avanço no conhecimento da variabilidade espacial da produção e no aperfeiçoamento dos sistemas de colheita, reduzindo perdas e otimizando o uso da própria tecnologia agrícola tradicional. O aumento da qualidade nas informações sobre terras e colheitas levará a questionamentos científicos inéditos, aos quais a programação de pesquisa deverá responder. Grande parte das recomendações técnicas tradicionais deverão ser reformuladas, para atender ao grande potencial de ajuste e atuação dos implementos agrícolas originários da agricultura de precisão. O impacto ambiental da agricultura poderá ser modificado. As variedades poderão ser melhor adaptadas ao meio ambiente. Novos estudos econômicos e sociais serão necessários. De certa forma, nenhum centro de pesquisa da Embrapa e nenhum pesquisador poderão ficar alheios a essa nova conquista da ciência e da tecnologia.

(*) Pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite; - e-mail: mir@nma.embrapa.br

Fonte: Embrapa
 
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