Na nova fronteira de expansão
da cana-de-açúcar, o sotaque de índios guarani mistura-se ao
dos trabalhadores nordestinos. Em franco desenvolvimento no
segmento sucroalcooleiro, mas sem tradição e com escassez de
mão-de-obra "especializada", Mato Grosso do Sul assiste à
explosão de projetos de construção de novas usinas de açúcar
e álcool no país. Serão pelo menos 15 até 2010, prevê o
governo, o que tende a elevar a área de cana no Estado de
150 mil para 600 mil hectares.
O "boom" é impulsionado por "forasteiros" e produtores
locais decepcionados com os mercados de grãos e carne
bovina. E já atrai a atenção da Procuradoria do Trabalho do
Estado, que passou a receber denúncias de abuso do trabalho
indígena e de migrantes nas lavouras.
Com o aquecimento dos negócios, nos canaviais de Naviraí
índios e nordestinos já são quase artigo de luxo. "Falta
cortador na região", diz Celso Fernandes, 34 anos, fiscal de
mão-de-obra que há 16 anos trabalha em canaviais.
"Che amba´apo takuare`indýpe". A frase em guarani, que
significa "eu trabalho em cana-de-açúcar", hoje em dia é
comum no Mato Grosso do Sul. Índios como Justino Alvado, 42
anos, e Vanderlei Villalva, 24, ambos da aldeia de Amambai,
na divisa com o Paraguai, já são figuras fáceis nos
canaviais locais, também marcados pelo sotaque dos migrantes
nordestinos. Os cortadores de cana ganharam importância no
Estado, outro que aposta alto na cana como alternativa à
pecuária e aos grãos.
Com nove usinas instaladas e responsável por apenas 2,5% da
produção nacional de cana (420 milhões de toneladas por
safra no total), o Mato Grosso do Sul não tem tradição no
segmento. Mas contabiliza o anúncio de 34 projetos de novas
indústrias, alguns deles já em andamento. A euforia da cana,
propagada nos últimos quatro anos no país como reflexo dos
preços atraentes do açúcar e da boa demanda interna e
externa por álcool, contagiou o Estado.
O Valor percorreu de carro 1.160 quilômetros a partir de
Campo Grande, no sentido sul do Estado, passando por Rio
Brilhante, Dourados e Naviraí, municípios hoje dependentes
de soja e pecuária. Na BR 163, principal rodovia do Mato
Grosso do Sul, os canaviais ainda não são muitos , mas
despontam aqui e ali - diferentemente do que ocorre em São
Paulo, onde os canaviais rasgam as principais rodovias do
interior. Mas pecuaristas e agricultores sul-mato-grossenses
encaram a cultura como um novo impulso econômico.
Apesar da euforia, o governo estadual trabalha com previsões
mais conservadoras no que se refere aos investimentos.
Benedito Mário Lázaro, superintendente de Agricultura e
Pecuária da Secretaria da Produção e do Turismo, acredita
que dos 34 projetos anunciados, pelo menos 15 têm chances
reais de serem concretizados nos próximos anos.
O governo está contratando uma consultoria para fazer um
diagnóstico capaz de nortear os aportes sucroalcooleiros. As
áreas de pastagens ocupam cerca de 22 milhões de hectares no
Mato Grosso do Sul, e os grãos abocanham outros 2 milhões.
Se a previsão de Lázaro se confirmar e pelo menos 15 usinas
de fato saírem do papel, a área ocupada pela cana deverá
aumentar dos atuais 150 mil hectares para 600 mil até 2010.
Nas cidades visitadas pelo Valor, prevalece a empolgação. Em
Rio Brilhante, cidade com 28 mil habitantes, as usinas Passa
Tempo, do grupo Tavares de Melo, e a recém-inaugurada
Eldorado, da família Benedito Coutinho, vão dividir espaço
com a nova unidade produtora da Louis Dreyfus, com três
usinas de açúcar e álcool.
A nova planta da multinacional francesa, que deverá entrar
em operação em 2008, está em fase de plantio de mudas.
Donato Lopes da Silva (PTB/MS), prefeito da cidade, prevê
que a área de canaviais vai triplicar em Rio Brilhante, e
deverá alcançar 100 mil hectares em quatro anos.
Assim como em boa parte do Mato Grosso do Sul, a pecuária e
o plantio de grãos - sobretudo soja e milho - são as
principais atividades econômicas de Rio Brilhante. Com as
novas oportunidades de emprego que Lopes acredita que a
cadeia da cana pode criar, a prefeitura prevê que a
população da cidade chegará a cerca de 40 mil habitantes.
Em Naviraí, mais ao sul do Estado, a usina Coopernavi,
controlada pelo fundo Infinity Bio-Energy, já não reina mais
absoluta. Uma nova usina foi instalada na cidade vizinha de
Iguatemi, e o próprio Infinity avalia a construção de outras
duas plantas na mesma região.
Os investimentos em curso no Mato Grosso do Sul seguem a
mesma lógica do que aconteceu no Triângulo Mineiro - que
viveu o primeiro "boom" sucroalcooleiro na metade da década
de 90, com a chegada de empresários nordestinos - e em
Estados como Goiás e Mato Grosso, apontados como novas
fronteiras para a cana em virtude das terras mais baratas e
do clima favorável.
"A região de Naviraí enfrenta nos últimos três anos um baque
[econômico] provocado pela crise dos grãos e pela queda dos
preços do boi gordo", diz Moacir de Andrade, presidente da
Associação Comercial e Industrial da cidade.
Com cerca de 50 mil habitantes, Naviraí depende da pecuária.
Grandes frigoríficos, como Bertin e Mercosul, estão
instalados na cidade. A simples notícia de que poderia haver
novos investimentos em cana motivou uma onda de consultas
por parte de indústrias metalúrgicas ligadas à cadeia
canavieira, de acordo com o prefeito da cidade, Zelmo de
Brida (PL/MS).
Com o aquecimento dos negócios, nos canaviais de Naviraí
índios e nordestinos já são quase artigo de luxo. "Falta
cortador na região por conta do crescimento do segmento",
diz Celso Fernandes, 34 anos, fiscal de cortadores que há 16
anos trabalha em canaviais.
A crise da soja levou muitos caminhoneiros a adaptarem seus
veículos para transportar cana. "Trabalho no início do ano
com soja e depois vou para cana", confirma um caminheiro.
Ele preferiu não ser identificado para não perder o "bico".
Outros fizeram o mesmo. Donato Lopes, prefeito de Rio
Brilhante, diz que o movimento em borracharias da região
aumentou em conseqüência da nova atividade.
Considerada a capital dos agronegócios do Estado, Dourados,
com 187 mil habitantes, também se arma para a chegada da
cana. Aqui a cultura tende a ser uma frente complementar,
uma vez que já há uma considerável diversificação econômica.
E o prefeito da cidade, Laerte Tetila (PT/MS), afirma que
Dourados trabalha para continuar assim.
"Temos trabalhado para diversificar a economia da região
[também fortemente amparada por pecuária e grãos]", diz
Tetila. De acordo com ele, o governo aprovou a instalação de
uma unidade da estatal Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) para pesquisar peixes. "Também vamos
investir no plantio de girassol para a produção de biodiesel
e já temos um rebanho razoável de ovelhas", diz Tetila.
O prefeito afirma que Dourados atravessa uma "época de ouro"
e deverá receber investimentos da ordem de R$ 500 milhões em
duas novas usinas - uma da família Benedito Coutinho, que já
conta com uma unidade localizada em Rio Brilhante, e outra
do pecuarista Celso Dal Lago Rodrigues, desenvolvida em
parceria com o grupo Unialco, do empresário Luiz Guilherme
Zancaner (ver matéria abaixo).
Nos canaviais, os cortadores sabem que a expansão gera
emprego, mas reclamam que o trabalho é árduo. "Tem hora que
o cabra fica triste, lembra da mãe lá em Trindade
[Pernambuco] e chora. Às vezes bebe para esquecer, mas
trabalha para levar dinheiro para família", diz, pesaroso,
Francisco Carlos da Silva, 34 anos. Conhecido como "Boca de
Ferro", Silva retoma o corte. E acredita em dias melhores