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A
galinha talvez seja a primeira ave a ter sido
domesticada há cerca de 12 mil anos quando o ser
humano começou a ficar sedentário. Desde então as
galinhas têm um destino sinistro: raramente morrem de
morte natural. São mortas para o consumo humano. Na
perspectiva delas, a vida é simplesmente uma tragédia.
Normalmente as galinhas eram e são criadas ao ar
livre, perambulando ao redor das casas. Ainda hoje as
"gainhas caipiras" são preferidas por serem
muito mais saudáveis. Modernamente com a sociedade da
produção industrial, elas foram transformadas em máquinas
para produzir carne e ovos. Fechadas, às milhares, em
aviários nos quais em cada metro quadrado são
criadas de de dez a doze, enganadas pela iluminação
que lhes tira a percepção da noite, alimentadas por
promotores de crescimento e de antibióticos para
crescerem até um ponto comercialmente ideal,
quarenta dias, elas são submetidas a grande
padecimento. Se Gandhi, o Dalai Lama ou qualquer
pessoa sensível ao sofrimento visitassem um desses
currais aviários, seguramente se indignariam e até
chorariam de compaixão. Mas nossa espécie se
especializou em submeter impiedosamente todas as
demais para tirar proveito delas mesmo que implique
grande sofrimento.
Sabemos hoje que
todos os seres vivos formamos uma única comunidade de
vida, pois somos portadores do mesmo alfabeto genético
– as quatro bases fosfatadas e os 20 aminoácidos.
Por que então impor este padecimento na forma de
crueldade para com nossos familiares e parentes
naturais?
Depois de séculos de
violência, as galinhas agora estão nos dando o
troco. É a vingança das galinhas. Ela vem sob a
forma da gripe aviária que está atingindo outros
seres vivos e pode alcançar também os humanos. É o
famoso virus H5N1. Virus aviários sempre
existiram em formas não letais. Agora este H5N1 se
revela uma cepa patogênica. Se sofrer mutações
que o torna capaz de transmitir-se aos seres humanos,
ele pode se replicar loucamente e matar entre 150 milhões
a um bilhão de pessoas, consoante previsões científicas.
Surgido pela primeira vez em 1997 em Hong-Kong, agora
atingiu quase metade do mundo. Não existe um antídoto
que o elimine, apenas possui efeito limitante. É o
Tamiflu que não age profilaticamente, apenas 18 horas
após a infecção. Foi desenvolvido a partir de um ácido
extraido de vagens de anis estrelado encontradas em
agumas províncias da China. A companhia farmacêutica
norte-americana Gilead Sciences da qual o Secretário
da Defesa do Governo Bush, D. Rumsfeld, foi presidente
e é sócio, desenvolveu o antivirus Tamiflu. Cedeu a
lcença exclusiva de produção à Roche suiça que
está lucrando milhões de dólares e reluta em
subceder licenças de produção por causa da não anuência
dos acionistas.
Hoje é sabido: a
origem da gripe não provém de galinhas criadas ao ar
livre mas das práticas avícolas industriais e pela
utilização de "subprodutos" da criação
avícola como ração industrial. A Fundação
BirdLife demonstrou que o padrão de focos da gripe
segue as rotas das estradas e das vias férreas e não
as rotas dos vôos de aves migratórias. A gripe é
consequência do manejo cruel que nós seres humanos
temos feito com as galinhas confinadas. Ai está o
nicho de reprodução do virus. É uma doença sistêmica.
Ela demanda uma forma de relação com os seres
vivos que não implique crueldade mas racionalidade e
compaixão.
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