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Na falta das
presas habituais,
leões da África
Oriental estão
devorando seres
humanos

Ruth Costas
Algo
terrível está ocorrendo com os leões da
África Oriental: eles estão comendo gente.
Só neste mês, devoraram vinte pessoas numa
área rural do sul da Etiópia. Na Tanzânia,
país que abriga o maior contingente de leões
selvagens, o número de vítimas
multiplicou-se nos últimos quinze anos.
Foram 900 ataques, com 560 mortos. A atual
matança na Etiópia impressiona pela ousadia
dos felinos. Os ataques foram realizados à
luz do dia. Entre as vítimas estão crianças,
mortas enquanto brincavam no quintal de
casa, e lavradores surpreendidos no campo. A
freqüência dos ataques intriga os
especialistas. Apesar da fama de comedor de
homens, o leão em geral evita o ser humano,
que não faz parte de sua dieta. "Esses
predadores tendem a ignorar o homem porque
nós emitimos sons que para eles são
estranhos e temos um porte e até um cheiro
diferentes dos de suas presas usuais", diz o
biólogo Carlos Alberts, da Universidade
Estadual Paulista, especialista em felinos.
Não significa ausência de confrontos. A
maior matança conhecida foi a realizada por
dois leões no Quênia, em 1898. Em nove
meses, eles devoraram 135 operários que
construíam uma ponte sobre o Rio Tsavo, até
serem mortos a tiros. Os leões de Tsavo
pertencem a uma subespécie, a única em que
os machos são desprovidos de juba. O
episódio rendeu alguns livros, um filme de
Hollywood – A Sombra e a Escuridão,
de 1996, com Val Kilmer e Michael Douglas –
e estudos científicos. Os corpos dos
matadores de Tsavo, empalhados e expostos
num museu de Chicago, foram examinados e se
descobriu que um deles tinha dentes ruins.
Talvez a deficiência o tenha obrigado a
substituir a caça de animais maiores pela de
homens, quase sempre pegos dormindo dentro
de barracas. Outra hipótese, mais provável,
é que a mudança de hábitos se deveu a uma
epidemia que dizimou as manadas de búfalos,
sua presa predileta.
Um estudo publicado no mês passado pela
Nature,
respeitada revista científica, mostra que,
diferentemente da dupla de Tsavo, cujos
hábitos de caça destoavam dos da espécie, as
investidas atuais estão adquirindo o caráter
de um padrão de comportamento. Dois fatores
podem explicar a mudança nos hábitos de caça
dos leões, ambos relacionados com
transformações em seus ecossistemas. O
primeiro é o aumento da população africana,
que dobrou nos últimos trinta anos. Com as
povoações humanas avançando sobre o
território ocupado por animais selvagens, a
probabilidade de alguém encontrar uma fera
na porta de casa é cada vez maior. O segundo
é a redução do número de zebras, gazelas e
antílopes, presas tradicionais dos leões, em
conseqüência da caça e da devastação da
vegetação. Obrigados a diversificar sua
dieta, os felinos inicialmente recorrem aos
javalis africanos, uma praga que devasta as
lavouras da região. São os javalis que
atraem as feras para as proximidades das
casas nas zonas rurais, onde, além do gado,
eles encontram mais um novo item para
incorporar ao cardápio, o homem.
A probabilidade de uma pessoa sobreviver ao
ataque de um leão é de menos de 40%. Em
geral, o animal avança sobre o pescoço da
vítima, que morre estrangulada pela pressão
da bocarra. Um leão pode pesar mais de 200
quilos e está acostumado a arrastar presas
com o dobro de seu tamanho. Uma única patada
é suficiente para matar uma pessoa,
quebrando ossos e esmagando órgãos internos.
Correr da fera, nem pensar. O leão pode
ultrapassar os 50 quilômetros por hora,
apesar de, devido ao peso, não conseguir se
manter nesse ritmo por mais de 90 ou 100
metros.
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Os dois leões de Tsavo, empalhados
em museu de Chicago: 135 pessoas
devoradas em 1898
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Com medo dos leões, 1.000 etíopes já
abandonaram a própria casa neste mês.
Outros, para desespero dos ambientalistas,
preferem ir à caça dos animais. Há
agricultores etíopes armando-se e saindo em
grupos pelas savanas, dispostos a vingar a
morte de um parente ou o sumiço de cabeças
de gado. "Para diminuir os riscos de ataques
estão sendo estudados projetos para
construir cercas ao redor dos parques e
recuperar as populações de zebras e
gazelas", disse a VEJA o biólogo tanzaniano
Bernard Kissui, do Centro de Pesquisa dos
Leões da Universidade de Minnesota, nos
Estados Unidos. "O grande desafio é
descobrir como homens e animais selvagens
podem viver próximos e em harmonia",
completa.
O avanço humano sobre espaços ocupados por
predadores tem provocado conflitos em outras
regiões do mundo. Nos EUA, onde muitas
famílias buscam qualidade de vida em
subúrbios próximos a reservas florestais, só
na última década setenta pessoas foram
devoradas por ursos e onças-pardas – número
igual ao que havia sido registrado em todo o
restante do século XX. Na floresta de
Sundarbans, na Índia, para se protegerem dos
tigres-de-bengala, os coletores de mel e
lenhadores usam na nuca máscaras que imitam
o rosto humano, distribuídas pelo governo.
Na década de 80, entre cinqüenta e sessenta
indianos eram comidos pelos felinos a cada
ano. O truque funciona porque os tigres
preferem atacar pelas costas e, ao ver um
homem "com duas caras", ficam confusos e
desistem da empreitada. No Brasil, as
onças-pardas, também conhecidas como
suçuaranas, estão se tornando freqüentes em
torno de pequenas cidades e áreas rurais.
"Recebemos de dez a vinte chamados por ano
para retirar onças-pardas de sítios, ruas e
até da casa das pessoas, e esse número
cresce ano a ano", diz Rogério de Paula,
coordenador do programa de conflitos entre
predadores e populações humanas do Centro
Nacional de Predadores do Ibama.
Fonte:www.veja.com.br
(Revista Veja -
Edição 1924 . 28
de setembro de 2005) |