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Retrato das Águas
A maior pesquisa sobre a saúde dos rios
brasileiros mostra que não são apenas os
do Pantanal que sofrem fortes pressões
ambientais.
 Carlos
Rydlewski
Fotos
Margi Moss
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Como um cristal: chama atenção a transparência das águas do Rio
Juruena, em trecho localizado no norte de Mato Grosso |
Uma aventura a bordo de um pequeno avião-laboratório, que ao longo
de catorze meses percorreu uma distância de 120 000 quilômetros, o
equivalente a quase três voltas em torno do planeta, resultou na
composição do mais amplo painel sobre a saúde dos rios do Brasil,
que detém a maior reserva de água doce do mundo, com pelo menos 14%
do total. O trabalho chegou a conclusões preocupantes. Das 5 900
amostras coletadas em 1 160 locais em todo o país, 25% apresentaram
problemas. Surpreende, por exemplo, o alerta proveniente do
Pantanal, onde duas em cada dez porções de água coletadas traziam
traços de poluição. Os maiores vilões identificados nesse caso foram
resíduos químicos oriundos da atividade agrícola e da ocupação
humana, como fertilizantes e esgoto doméstico não tratado. Tais
agressores afetaram principalmente os rios Miranda, Aquidauana e
Paraguai. As imediações do Amazonas concentram os rios mais limpos.
Entre os mais sujos estão trechos do Tietê (SP). Mas, no Nordeste,
seções do Paraíba, em João Pessoa (PB), do Capibaribe, no Recife
(PE), e do Jacuípe, perto de Feira de Santana (BA), obtiveram
classificação tão ruim quanto as piores notas do rio paulista.
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Remanescente isolada: só sobrou a igrejinha da cidade de Itá,
em Santa Catarina, inundada por barragem feita no Rio
Uruguai
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A coleta das amostras foi feita pelo casal Gérard e Margi Moss,
idealizadores do projeto. Eles sobrevoaram o país num pequeno avião
anfíbio. A maior parte das porções de água foi recolhida em vôos
rasantes em rios, lagos, represas e até açudes. Nesses
quase-mergulhos, o material era captado por meio de um pequeno
buraco, com apenas 1 centímetro de diâmetro, aberto na quilha da
aeronave, que permanecia em contato com a água por cerca de cinco
segundos. "A cada investida, eu tinha de executar procedimentos
típicos de pousos e decolagens, os mais perigosos de qualquer vôo",
diz o engenheiro Gérard Moss, também piloto do aparelho batizado de
Talha-mar. Completa ele: "Chegamos a fazer dezoito rasantes em um só
dia, e meu maior desafio era manter a concentração depois de repetir
tantas vezes esse tipo de manobra". O reconhecimento visual da área
abordada era o único recurso contra uma eventual colisão em troncos
ou barrancos de areia. Alguns parâmetros da qualidade da água (pH,
turbidez, condutividade, oxigênio dissolvido, temperatura, clorofila
e salinidade) eram analisados pelo equipamento instalado no próprio
Talha-mar. Depois, o material ainda era remetido para laboratórios.
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Praia no Araguaia, no Pará: o rio tem águas de boa qualidade
e, quando elas baixam, em julho, a população se diverte nos
bancos de areia
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Confluência do Rio das Velhas com o São Francisco, em MG:
poluentes de Belo Horizonte seguem para o Nordeste
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A pesquisa teve um desdobramento adicional. Trata-se de um registro
fotográfico feito em todos os vôos, no qual foram captados detalhes
impressionantes das doze regiões hidrográficas brasileiras. "Isso
nos rendeu um acervo com aproximadamente 15 000 imagens", diz Margi
Moss, autora das fotos. A edição limitada de um livro com 160
páginas e 250 desses registros foi lançada na semana passada, com o
título Brasil das Águas – Revelando o Azul do Verde e Amarelo.
Esse conjunto de fotos tem ainda a vantagem de permitir uma
comparação com o que será feito dessas regiões no futuro. No Brasil,
esse tipo de cotejamento, infelizmente, costuma trazer apenas más
notícias.
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Avião Talha-mar faz rasante para coletar amostra de água no
Rio Negro, no Amazonas: o casal responsável pelo projeto
chegou a fazer dezoito manobras desse tipo em apenas um dia.
O contato do coletor de água com a superfície do rio durava
cinco segundos
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Veja. Edição
1935 . 14 de dezembro de 2005
Leia mais em:
http://novaescola.abril.com.br/especiais/projeto_aguas/projeto_aguas.htm
http://www.brasildasaguas.com.br/ |