Não deixa de ser curioso que
o mais conhecido e divulgado
relato da
Guerra do Paraguai
tenha sido escrito
originalmente em francês e
tenha como pano de fundo um
episódio menor com pouca ou
nenhuma importância
estratégica no desenrolar do
conflito.
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Monumento no
local dos
primeiros
combates |
A Retirada da Laguna,
ocorrida entre 08 de Maio e
11 de Junho de 1867, durante
a
Guerra da Tríplice
Aliança, teve início
na fazenda Laguna, situada
no
Paraguai, e percorreu
uma vasta área compreendida
pelos atuais municípios de
Bela Vista, Antônio João,
Guia Lopes e Nioaque, no
território do atual Estado
do
Mato Grosso
do Sul.
Seria apenas mais um dos
muitos e esquecidos
episódios da guerra, se
entre os seus participantes
não estivesse integrado como
Engenheiro-Militar o jovem
Taunay, que já depois
de findo o conflito resolveu
passar ao papel a odisséia
vivida na zona fronteiriça.
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Capa do livro da
versão em
português |
Nasceu assim a obra
«La Retraite de Lagune -
Épisode de la guerre du
Paraguay» impressa em
1871 e que viria a tornar-se
um dos grandes clássicos da
vasta literatura, ficcional
ou não, que apresenta como
pano de fundo o mais
importante conflito bélico
ocorrido no continente
americano
Incursões paraguaias no sul
de Mato Grosso, no início da
Guerra do Paraguai
(1865-1870) levaram o
comando militar do Império a
enviar uma coluna para
manter incólume a fronteira
brasileira e, dependendo das
circunstâncias, invadir o
território inimigo. Ao
acompanhar a expedição, como
tenente de engenharia,
Taunay não podia
imaginar o horror que os
aguardava.
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Vultos
paraguaios |
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"...tiros
rasgavam a
treva, deixando
entrever formas
ora de homens a
empunhar o
revolver ou o
sabre, ora de
animais esses
ainda mais
perigosos..." |
Por erro fatal do comandante
- acusado de covardia em
outro episódio - que
contrariando toda a lógica,
decidiu-se pela invasão do
Paraguai. Sem cavalaria, sem
retaguarda, com poucas
munições e víveres, a tropa
de cerca de mil e setecentos
homens penetrou num sertão
inóspito, numa vastíssima
região de pantanais, febres
e campinas que os paraguaios
incendiavam, colocando a
soldadesca brasileira dentro
de um inferno. Ao fogo
somou-se a fome. E a estes,
a terrível doença da cólera,
causada pela região
insalubre. A campanha - que
durou apenas um mês
transformou-se em um grande
desastre. Em condições
lamentáveis, sobreviveram
tão somente setecentos
homens.
A visível inépcia do
comandante, intensificado
pelo desconhecimento das
condições adversas do meio,
o heroísmo de oficiais e
soldados no dia a dia da
expedição e, principalmente,
a carnificina da guerra e da
peste aparecem numa prosa
simultaneamente objetiva e
dramática. A retirada
da Laguna não tem o
vigor trágico de Os
sertões, de Euclides da
Cunha, mesmo assim possui
força descritiva, interesse
documental e, muitas vezes,
emociona os leitores.
Tome-se, como exemplo, este
fragmento sobre as primeiras
manifestações da cólera:
Caiu à noite uma chuva
abundante que agravou todos
os nossos sofrimentos. Os
coléricos, amontoados junto
da pequena barraca dos
médicos, ao ar livre e sem
abrigo, recebiam no corpo
enregelado os aguaceiros,
que se sucediam a
intervalos. Penalizava-nos
ver aqueles desgraçados,
extremamente agitados,
rasgando os farrapos com que
procurávamos cobri-los,
rolando uns sobre os outros,
contorcendo-se de cãibras,
vociferando, lançando urras
que se confundiam num único
grito articulado: "Água!"
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"...exatamente
em tal momento,
um rebanho que o
infatigável
Lopez juntara
nos campos de
sua estância do
Jardim, ali
entrava
tumultuosamente..." |
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Os irmãos
Gabriel e José
Francisco Lopes
foram os
primeiros a
desbravar a
região no sul de
Mato Grosso até
a fronteira com
o Paraguai. Em
1846 Gabriel
Lopes adquiriu
uma fazenda de
pecuária às
margens do rio
Apa. Em 8 de
maio de 1867 na
Guerra do
Paraguai, José
Lopes foi
escolhido para
guiar uma tropa
de 1500 homens
do coronel
Carlos Camisão.
A partir daí foi
iniciada a
marcha até Bela
Vista e em
direção a
Nioaque que
durou 35 dias
sob a fome,
doenças e a
perseguição dos
soldados
paraguaios. 52
km depois, no
dia 27 de maio
de 1867, Guia
Lopes falece de
cólera a poucos
dias da
travessia do rio
Miranda, que era
o ultimo
obstáculo antes
do objetivo
final. Ele não
só guiou os
soldados
brasileiros,
muitas vezes
despistando o
inimigo num
terreno difícil,
como cedeu todo
o gado da
família para
alimentá-los na
retirada. Segundo
o Exército, ele
teve um
comportamento
heróico até o
último dia de
vida.
Agonizante,
ainda guiava a
marcha. E para
aqueles que lhe
diziam para
poupar-se, ele
respondia que
ninguém podia
contrariar a
vontade de Deus.
"Saibamos
morrer; os
sobreviventes
dirão o que
fizemos", disse
ele. Ainda
segundo
registros do
Exército, assim
que eclodiu a
guerra, em 1864,
a esposa e os 4
filhos de José
Francisco Lopes
foram presos e
levados para o
Paraguai, depois
de uma das
invasões do
território
brasileiro pelas
tropas de Solano
Lopes. Foi esse
um dos motivos
para o
aparecimento do
Guia Lopes: ele
alistou-se
voluntariamente
no Exército
brasileiro para
guiar as tropas
que iniciavam
uma ofensiva em
território
paraguaio. José
Francisco Lopes
sonhava resgatar
a família, mas a
ofensiva
revelou-se um
fracasso. As
tropas
brasileiras
tiveram de
recuar
fustigadas pelos
paraguaios na
retaguarda. A
atuação do guia
Lopes foi
decisiva para
evitar uma
tragédia ainda
maior. Fora
enterrado numa
localidade que o
homenageou,
passando a se
chamar Guia
Lopes da Laguna,
local onde foi
construído o
Monumento
Histórico. Em 14
de maio de 1946
é elevado a
município. |