A
organização
política
dos
indígenas
na
América
do Sul
teve
início
na
década
de 80.
Em
alguns
países,
a maior
presença
indígena
na
população,
algumas
garantias
constitucionais
de
participação
política,
dentre
outros
fatores,
favoreceram
uma
participação
política
efetiva.
Em
outros
casos,
esse
processo
foi bem
mais
lento.
Na
Bolívia,
por
exemplo,
um
partido
indígena-camponês
tem hoje
a maior
bancada
de
oposição
no
parlamento.
“Nos
anos 80,
as
lideranças
indígenas
começaram
a
perceber
que não
é
possível
o êxito
de
qualquer
projeto
étnico-político
sem uma
aliança
com
outros
setores
da
sociedade
não-índia.
Essas
lideranças
começaram
a
entender
que a
vitória
ou a
derrota
de seus
projetos
enquanto
povos
distintos
estavam
historicamente
vinculadas
aos
projetos
políticos
da
sociedade
não-índia”,
explica
Paulo
Porto,
membro
militante
do PC do
B e
professor
da
Universidade
Estadual
do Oeste
do
Paraná.
O PC do
B é um
dos
partidos
que
possui
maior
número
de
lideranças
indígenas
em seus
quadros,
confirmando
a
tendência
sul-americana
de
candidaturas
indígenas
predominantemente
em
partidos
de
esquerda.
Segundo
Ávila,
os
candidatos
indígenas
ainda
não
possuem
uma
ideologia
partidária
explícita,
“indo do
PC do B
ao PFL”.
“Um
partido
indígena
seria
uma
idéia
interessante,
mas vejo
dificuldades
de se
colocar
uma
articulação
forte e
consolidada
que
efetivamente
dê
suporte
para as
candidaturas
indígenas”,
ponderou.
Para o
líder
indígena
Uilton
Tuxá,
membro
da
Apoinme
(Comissão
Executiva
da
Articulação
dos
Povos e
Organizações
Indígenas
do
Nordeste,
Minas
Gerais e
Espírito
Santo),
já
existe
um
consenso
do
movimento
indígena
no
Brasil
sobre o
a
necessidade
de
ampliar
a
participação
indígena
em todas
as
esferas
políticas.
"Só
assim
poderemos
defender
em linha
horizontal
os
nossos
direitos
ameaçados
pelos
grupos
de
políticos
anti-
indígenas
no
congresso
nacional",
enfatizou.
Outra
questão
importante
que
envolve
a
qualidade
da
representatividade
política
indígena
é o
despreparo
de
muitos
candidatos
índios
para
lidar
com os
"modos
de fazer
política
branca".
Essa
falta de
preparo
diminui
as
chances
dos
representantes
eleitos
agirem e
se
articularem
politicamente
em prol
das
comunidades
indígenas.“Existe
hoje uma
expectativa
de se
iniciar
uma
articulação
sólida
entre as
organizações
que
compõem
o
movimento
indígena,
os
parlamentares
e
lideranças;
para que
os
prefeitos
e
vereadores
eleitos
possam
usar
esses
espaços
em
defesa
de seus
direitos",
completou
Tuxá.
Além
disso,
afirmou
Ávila, o
voto
étnico
indígena
é muitas
vezes
corrompido
pela
política
municipal
ou pelos
tradicionais
meios
políticos
de
exploração
da
miséria
e dos
currais
eleitorais,
clássicos
da
política
brasileira.
Um
parlamento
indígena
Uma
idéia
discutida
pelos
diversos
movimentos
indígenas
brasileiros
é a
constituição
de um
parlamento
indígena.
Essa
proposta
foi
discutida
durante
o
“Seminário
Índios e
Parlamentos”
que
ocorreu
em
Brasília
em
novembro
de 2003.
O
parlamento
deveria
ser
reconhecido
pelo
governo
federal
e seria
uma
instância
de
articulação
indígena
que
faria a
ponte
entre as
necessidades
e
opiniões
das
comunidades
indígenas
e os
ministérios.
“O único
e
exclusivo
objetivo
da
criação
do
parlamento
é o
fortalecimento
do
movimento
indígena,
pois
nele
seriam
contemplados
organizações,
lideranças
e
parlamentares
indígenas.
Essa
instância
de
articulação
teria um
caráter
interministerial
e
estaria
lutando
permanentemente
em
defesa
dos
direitos
dos
povos
indígenas",
explicou
Tuxá.
Na visão
de
Ávila, a
idéia de
um
parlamento
indígena
é
bastante
interessante,
desde
que ele
seja
reconhecido
como uma
instância
política
no mesmo
nível do
nosso
parlamento
e que
seja
chamado
para
opinar e
tomar
decisões
sobre
temas
que
envolvem
diretamente
os
indígenas
como
mineração
em áreas
indígenas,
acesso
aos
recursos
genéticos
com
conhecimento
tradicional
associado
e
regularização
fundiária.
“Um
parlamento
indígena
seria um
canal de
discussão
mais
representativo
dos
direitos
indígenas
do que o
parlamento
brasileiro
com suas
bancadas
contrárias
aos
interesses
indígenas”,
argumenta
o
antropólogo.
Tutela e
proteção
do
conhecimento
indígena
A
criação
de um
parlamento
indígena
e o
aumento
da
participação
dos
índios
nas
esferas
políticas
estaduais
e
federais
seria um
passo
importante
para
aprovar
uma
antiga
reivindicação
de
grande
parte
dos
movimentos
indígenas:
a
mudança
do atual
Estatuto
do
Índio.
Isso
porque,
a Lei
6001,
promulgada
em 1973,
que
passou a
ser
conhecida
como
Estatuto
do Índio
é
considerada
hoje
ultrapassada
pela
maioria
dos
movimentos
indígenas.
As
críticas
são
dirigidas
principalmente
à parte
que
determina
que os
índios
ou
silvícolas
devem
ser
"tutelados"
por um
órgão
indigenista
até que
estejam
“integrados
à
comunhão
nacional”.
Segundo
o
Estatuto,
os
índios
seriam
“relativamente
incapazes”
de
exercer
seus
direitos
civis, o
que
justificaria
o
estabelecimento
da
tutela.
Para
Ávila a
tutela
indígena
seria
hoje
injustificada
já que
os
povos,
organizações
e
lideranças
indígenas
lutam
ativamente
em busca
de seus
interesses,
articulando
e
mobilizando
diversos
setores
da
sociedade
nacional
e
global.
Segundo
Tuxá é
preciso
que os
povos
indígenas
façam um
novo
Estatuto
onde
sejam
incorporados
artigos
que
visem a
proteção
dos
direitos
de
conhecimento
intelectual,
direito
à posse
coletiva
sobre as
terras
indígenas
e parte
das
riquezas
do
subsolo.
Também
seriam
necessárias
adequações
nos
sistemas
de
educação
e saúde
de forma
que
possam
atender
a atual
demanda
dos
povos
indígenas
e
definir
modelos
de
sistemas
de
proteção
e gestão
territorial
sustentável.
Na
opinião
de
Ávila, o
desrespeito
às
diferenças
de
costumes,
crenças
e
organização
social
foram os
elementos
fundamentais
para
estabelecer
o
conceito
equivocado
de
tutela
indígena,
onde as
diferenças
culturais
são
colocadas
como
sinônimo
de
incapacidade.
“É
preciso
separar
e
distinguir
a tutela
da
responsabilidade
federal
frente
aos
assuntos
e
questões
indígenas”,
lembrou
ainda o
antropólogo.
A
questão
relacionada
ao
direito
de
propriedade
intelectual
do
conhecimento
indígena
ainda
não
possui
nenhuma
regulamentação
específica
no
Brasil.
A
constituição
brasileira
apenas
reconhece
que os
povos
indígenas
têm o
direito
de
manter
suas
diferenciadas
formas
de
organização
social.
Existe
um
Projeto
de Lei
em
tramitação
há mais
de oito
anos
mas, a
questão
é, por
enquanto,
normatizada
por uma
Medida
Provisória.
"Vejo a
questão
da
legitimidade
política
– quem
tem o
direito
de falar
e
assinar
um
contrato
em nome
de um
povo –
como um
grande
desafio.
As
sociedades
indígenas
brasileiras
nunca
tiveram
uma
centralização
política
que
representasse
um
conjunto
de
aldeias.
Cada
aldeia é
uma
unidade
política
em si",
acrescenta
Ávila.
Essa
questão
já tem
trazido
problemas
concretos
para a
população
indígena
como no
caso do
povo
Krahô,
numa
experiência
de
parceria
com a
Universidade
Federal
de São
Paulo .
Segundo
Tuxá, a
proteção
dos
conhecimentos
indígenas
é um dos
grandes
desafios
para as
comunidades
indígenas
hoje e
será
necessário
que a
proposta
de
Estatuto
dos
Povos
Indígenas
tenha
normas
claras
sobre
como
será
feita
essa
proteção.
Segundo
ele, os
movimentos
indígenas
já estão
articulando
uma
revisão
das
propostas
de
Estatuto
que
tramitam
pelo
congresso.
Essa
revisão
deve ser
realizada
em três
oficinas
nas
regiões
Leste/Nordeste,
Sul/Sudeste
e
Norte/Centro-Oeste.
Após
essas 3
oficinas
regionais
será
feita
uma
última
oficina
nacional
de onde
será
tirada
uma
única
proposta
dos
povos
indígenas
no
Brasil
que será
apresentada
ao
congresso.