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História: Ocupação do território
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Grosso do Sul na enciclopédia virtual
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Quem eram os povos que habitaram
o território correspondente a
Mato Grosso do Sul no período da
conquista? Como viveram e se
relacionaram? Foram todos iguais
ou sustentaram culturas e
sociedades diferenciadas? O que
os teria levado ao
desaparecimento e à
transfiguração compulsória que
deu origem à figura do elemento
humano a quem chamamos índio?
Entre as regiões noroeste
e sudoeste do Estado de Mato
Grosso do Sul, sudoeste do
antigo Estado de Mato Grosso,
estende-se o Pantanal
sul-mato-grossense, formado por
campos baixos e alagadiços que
os rios inundam todo o ano.
Nesse cenário marcado
pela exuberância dos carandás,
paratudos e buritis,
movimentando-se em busca da
sobrevivência viviam tribos de
línguas e costumes diferentes,
muitas das quais, embora
apresentassem variações
etno-culturais, tinham em comum
a orientação pelo ciclo das
águas. Entre essas tribos
estavam os canoeiros Payaguá e
Guató, povos que tinham no rio
Paraguai sua principal fonte de
subsistência, dele se afastando
apenas quando seu curso inundava
os campos.
Outros grupos
sedentários, como os Guaná, de
língua Aruak, preferiam os
terrenos abrigados e mais
propícios ao cultivo,
caracterizando-se como tribos de
lavradores, produtores de
mantimentos e tecidos.
Nem sedentários, nem
completamente nômades, outras
tribos, como a dos Guaicuru,
também seguiam o fluxo das águas
acompanhando a caça que
deslocava-se no movimento das
enchentes e vazantes. Viventes
em terra, esses seminômades
caçadores e coletores
constituiam-se em bandos de
ferozes guerreiros que causavam
apreensão entre os demais grupos
nativos da região, a quem faziam
cativos.
Nesse ir e vir no
compasso das águas, enquanto
milhares de nativos viviam em
diferentes configurações
socioculturais, os espanhóis
penetravam o interior do
Continente utilizando a foz do
Rio da Prata, firmando seu
principal núcleo de ocupação em
Assunpción, no Paraguai. Pelos
afluentes do rio Paraguai
chegaram à bacia do Amazonas,
donde partiram para a conquista
dos altiplanos da América
Central.
Uma vez instalados,
possuindo tecnologia superior,
os conquistadores implantaram o
colonialismo de exploração,
apossando-se das novas terras,
saqueando suas riquezas e
remodelando seus habitantes como
escravos coloniais, atuando
através da “erradicação da
antiga classe dominante local,
da concessão de terras como
propriedade latifundiária aos
conquistadores, da adoção de
formas escravistas de conscrição
de mão-de-obra e da implantação
de patriciados burocráticos,
representantes do poder real,
como exatores de impostos”
(Ribeiro, 1978).
A partir de então, sob
pressão escravista, os povos
nativos sofreram grande ruptura
em seu processo evolutivo
natural, sendo remodelados
através da destribalização e da
deculturação compulsória,
perdendo a maior parte de seu
patrimônio cultural e só podendo
criar novos hábitos quando estes
não colidissem com sua função
produtiva dentro do sistema
colonial (Idem). Encerradas em
territórios cada vez menores ou
absorvidas pelo processo
civilizatório, as etnias nativas
foram conduzidas a
transfiguração étnico-cultural
ou a completa extinção.
Os canoeiros Guató, por
exemplo, foram dominados ainda
no período colonial. Mais tarde,
por ocasião da Guerra do
Paraguai, lutaram e sofreram
ataques de ambos os lados, sendo
dizimados nos anos seguintes por
epidemias de varíola e outras
doenças. Os poucos remanescentes
continuaram a viver como
pescadores nas lagoas e furos do
alto Paraguai (Ribeiro, 1996).
Os Guaná também foram
rapidamente dispersados. Segundo
notícias da primeira metade do
século XIX, uma parte foi
aldeada junto ao Paraguai; outra
parte, mais a leste, no rio
Miranda, teve suas aldeias
invadidas em conflitos entre
brasileiros e paraguaios. Com o
tempo, os remanescentes
dispersos tentaram voltar aos
locais de origem, passando a
viver em competição com
criadores de gado que ocupavam a
região (Idem). Os Kinikinawa e
os Layana, por exemplo, foram
compelidos a trabalhar para
aqueles que tomaram suas terras.
Os Terena, que tiveram suas
aldeias dominadas por
comerciantes de aguardente,
acabaram transformando-se em
sertanejos ou sendo obrigados a
afastarem-se das terras férteis
do Miranda, refugiando-se em
terrenos impróprios para a
agricultura e para sua condição
de lavradores.
De maneira generalizada,
todas as tribos nativas que
habitavam a região foram
extintas ou transfiguradas pela
pressão de um modelo colonizador
despótico e intolerante,
expresso, “tanto por sua
projeção geográfica sobre a
terra inteira quanto na sua
capacidade de estancar o
desenvolvimento paralelo de
outros processos civilizatórios”
(Ribeiro, 1978).
Neste cenário conflitante
houve, porém, uma exceção. Um
determinado grupo étnico se
fortaleceu após o contato com os
colonizadores. Para isso,
saquearam os bens culturais de
seus adversários, adotando o
cavalo, a lança e outras armas
para utilizá-las no uso da caça
e da guerra, aprimorando sua
própria estrutura sociocultural
e se transformando numa das
tribos nativas mais resistentes
de toda América do Sul.
No século XVI, ainda no
início da ocupação espanhola, os
nativos de quem falamos
assaltaram as pequenas vilas que
se formaram, as estâncias
crioulas e a cidade de Assunção,
guerreando ferozmente, fazendo
cativos e contra-atacando às
tentativas de extermínio e
redução empreendidas pelos
invasores.
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Índios
Guaicuru
em
ação:
símbolos
do
Estado
de
Mato
Grosso
do
Sul.
O
nativo
do
Estado
é
denominado
Guaicuru
em
razão
da
bravura
e
inteligência
dessa
nação
indígena,
a
qual
muito
devemos. |
Suas correrias
expandiram-se a territórios cada
vez mais amplos, aumentando sua
fama de guerreiros invencíveis.
Desde “Cuiabá, em Mato Grosso,
às proximidades de Assunção, no
Paraguai, e das aldeias
Chiriguano nas encostas andinas,
no Chaco, até as tribos Guarani,
das matas que margeiam o Paraná.
Em toda essa região atacavam e
saqueavam não somente grupos
indígenas, mas também povoados
espanhóis e portugueses, fazendo
cativos em todos eles. Chegaram,
deste modo, a constituir o
principal obstáculo que os
colonizadores tiveram de
enfrentar no centro da América
do Sul e motivo constante de
suas preocupações. Bem
aparelhadas expedições militares
foram armadas por portugueses e
espanhóis para combatê-los sem
jamais lograr êxito completo
contra esses índios cavaleiros,
que conheciam profundamente seu
território e sabiam fugir a todo
encontro que lhes pudesse ser
desfavorável” (Ribeiro, 1996).
Aliados aos canoeiros
Payaguá, empreenderam ataques
fulminantes por terra e água,
como os realizados contra as
monções paulistas que rumavam ao
ouro de Mato Grosso, causando a
elas mais prejuízo que todas as
demais tribos guerreiras
reunidas.
Repeliram ainda o assédio
ideológico dos espanhóis,
principais interessados em sua
domesticidade, saqueando e
destruindo reduções e
aldeamentos missionários;
negando-se à conversão
salvacionista e dificultando a
catequização de outras tribos.
Impediram a utilização de
caminhos mais curtos entre
Assunção e o Peru, obrigando os
viajantes a desviarem o curso de
suas jornadas por caminhos
tortuosos, causando atraso e
prejuízo ao empreendimento
colonizador.
Sentiam desprezo pelo
raça européia e orgulhavam-se de
serem superiores, retribuindo à
civilização o mesmo tratamento
etnocêntrico e intolerante
dispensados aos povos nativos.
Sobre esse assunto, Félix Azara,
citado por Baldus, escreveu o
seguinte: “se creen la nación
más noble del mundo, la más
generosa, la más formal en el
cumplimiento de su palabra con
toda lealtad y la más valiente.
Como su talla, la belleza y
elegancia de sus formas, así
como sus fuerzas, son bastante
superiores a las de los
españoles, ellos consideran a la
raza europea como muy inferior a
la suya” (Boggiani, 1945).
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Alguns
exemplares cerâmicos
do rico artesanato
guaicuru. |
A eles atribuem-se também
importantes participações em
episódios da História
brasileira, como “o não
estabelecimento dos paraguaios
acima do rio Apa, numa época em
que, primeiro aos portugueses,
depois aos brasileiros, era
materialmente impossível
impedi-lo. No curso da guerra do
Paraguai lutaram ativamente ao
lado das tropas brasileiras, mas
sempre independentes, como uma
força à parte, movida por
motivações próprias e exercendo
a guerra a seu modo” (Ribeiro,
1996).
Em sua trajetória
histórica, resistiram com grande
poder de adaptação, chegando até
à segunda metade do século XIX
com força para impor temor aos
inimigos. Atravessaram o século
XX mantendo fortes traços
culturais conseguindo chegar ao
século XXI conservando certo
grau de independência e a posse
de uma reserva territorial cuja
área encontra-se dentro do
Município de Porto Murtinho
(MS).
Hoje, estão representados
pelos Kadiwéu, remanescentes da
divisão de antigas tribos
Mbayá-Guaicuru. Sobreviventes
que, mais uma vez, tentam
adaptar-se ao processo
civilizatório que continua a
pressioná-los com intolerância e
etnocentrismo, resistindo ao
assédio da sociedade envolvente
que ainda pretende
conquistar-lhes a alma e
tomar-lhes as terras.
Símbolo de resistência
contra a deculturação
compulsória, os Kadiwéu têm uma
História que o povo brasileiro
deveria conhecer melhor, não
apenas pela ferocidade com a
qual foram julgados bárbaros e
cruéis no passado - traço que a
civilização experimentou muitas
vezes - mas pela capacidade de
lutar e se adaptar sem perder a
própria identidade.
Os brancos, espanhóis – pelo
Tratado de Tordesilhas, o
Pantanal pertencia a Espanha –
chegaram por volta de 1524
subindo o Rio Paraguai. Não
houve muito interesse na
ocupação devido a descobertas de
minas de ouro e prata no Peru e
no México. Na segunda metade do
século XVI, nas famosas
“entradas”, os bandeirantes
paulistas alcançaram essas áreas
com o objetivo de escravizar
índios e encontrar metais
preciosos. No início do século
XVIII chegaram a Chapada
Cuiabana subindo os rios Tietê,
Paraná e afluentes do Paraguai.
Encontraram grande quantidade de
ouro em Cuiabá dando início a
conflitos entre a comunidade
local e bandeirantes. Os nativos
foram resistindo à invasão de
seus territórios, algumas
sociedades se extinguiram e
outras seguiram para áreas de
menor interesse econômico.
Em 1750, surgiram algumas vilas
como: Corumbá, São Pedro del Rei
(Poconé), Vila Maria do Paraguai
(Cáceres) e Miranda o Tratado de
Madri, servindo como base para
disputas com espanhóis que
tinham a intenção de retomarem
as terras antes pertencentes a
eles através do Tratado de
Madri. O Fote Coimbra foi uma
fortaleza militar construída em
1775, nas proximidades de
Corumbá. Visando o abastecimento
dessas vilas foram instalados
engenhos de cana, lavoura e
pecuária, aumentando a ocupação
do território.
As grandes fazendas foram
surgindo dando lugar a pecuária
extensiva. De 1864 a 1870, Mato
Grosso foi palco da Guerra do
Paraguai, de um lado a Tríplice
Aliança formada por Uruguai,
Argentina e Brasil, mais o apoio
britânico, e do outro, o
Paraguai. As cidades e fazendas
pantaneiras foram quase
totalmente dizimadas. Após a
derrota do Paraguai, o Brasil
ampliou seu território na
região, incorporando cerca de
47000km² de pertencentes ao
Paraguai.
Houve conflitos fundiários
devido ao parcelamento das
antigas sesmarias incorporando a
região grandes projetos de
desenvolvimento. Os moradores
antigos foram expulsos, seguindo
para as áreas ribeirinhas.
Reduzindo alternativas de
subsistência, fazendo da pesca
uma opção a sobrevivência.
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