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Geografia Urbana – Metrópoles fragmentadas

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          O texto seguinte é de autoria do geógrafo Michel Rochefort. Rochefort publicou em 1960 sua tese, sobre a organização urbana da região da Alsácia, no leste da França. Nesse estudo, que se tornou célebre, foram desenvolvidos os conceitos de rede e hierarquia urbanas. Aí se encontram os fundamentos teóricos das políticas contemporâneas de planejamento urbano e regional. O geógrafo francês trabalhou, por muitos anos, no Brasil. Orientou os primeiros estudos sobre a rede urbana brasileira e estimulou o desenvolvimento do planejamento no país. O texto é uma reflexão mais recente, sobre os impactos da internacionalização crescente da economia sobre as grandes cidades. O seu foco é a reestruturação interna dos espaços metropolitanos, que reflete tanto as novas necessidades das corporações transnacionais quanto as tensões sociais ligadas aos contrastes de renda cada vez maiores nas aglomerações urbanas.

          “O espaço das metrópoles sempre foi dividido em numerosos subespaços, diferenciados tanto pela idade das construções e o conteúdo humano quanto pelas atividades que nele se localizam. A imbricação (1) desses fatores fraciona a grande cidade em unidades complexas, cujas articulações se traduzem por relações e deslocamentos intensos (...).

          O esquema clássico opõe o centro da cidade, mais ou menos dividido em centro de negócios, centro de vida etc., aos bairros residenciais ou industriais. A evolução recente permite imaginar um futuro nitidamente distinto, ao menos para as grandes cidades que se tornarão as metrópoles de amanhã. O rápido desenvolvimento de suas funções de comando acompanha-se de localizações mais diversas dessas atividades e do [setor] terciário que as acompanha: vêm-se nascer multipolaridades, núcleos de atividades nos lugares atrativos das periferias. Identificar as necessidades em imóveis de escritórios dessas novas concentrações, atuar sobre o seu dinamismo por uma reorganização dos sistemas de transporte urbano e suburbano são e serão cada vez mais as tarefas do urbanizador de hoje e de amanhã.

          As encruzilhadas da circulação internacional, estações ferroviárias e aeroportos são com freqüência os suportes dessas novas localizações. Suas cercanias tornam-se os espaços de acolhida de todos esses fluxos de pessoas e mercadorias. Da qualidade que se souber dar-lhes dependerá em parte a capacidade da grande cidade para conservar e desenvolver o seu papel de metrópole. Os novos pólos do espaço urbano devem ser os pontos sensíveis em que o arranjo das construções e sua arquitetura buscam dar uma imagem moderna, dinâmica e atrativa da cidade.

          O esquema clássico do centro da cidade comporta o seu corolário (2), com os “subúrbios” e sua diversidade econômica e social. As tendências recentes da periurbanização (3) incitam a fazer alguns corretivos e permitem aventar algumas hipóteses para o futuro. 

(1) imbricaçãosobrepo
(2) corolário:
(3) Periurbanização: Processo de expansão periférica da mancha urbana. A característica singular da periurbanização é a formação de subúrbios separados da mancha urbana contínua.
(4) citadinos: 
(5) unívoca:  
(6) abastadas:  
(7) exacerbação:  
(8) sutis:
(9) acantonam:

 

 

 

Alphaville, SP - Exemplo de periurbanização, ou seja, da  expansão periférica da mancha urbana. A característica singular da periurbanização é a formação de subúrbios separados da mancha urbana contínua.

Leia a história de Alphaville, aqui.

          O mito da residência no campo, fundado numa publicidade que não vende casas, mas um ‘estilo de vida’, vai se perpetuar, ou mesmo se amplificar na mente dos citadinos (4) irritados pelo barulho e pela poluição da cidade grande? Do meu ponto de vista, a resposta não é unívoca (5). Cumpre, antes de tudo, levar em conta a distância-tempo entre a casa e o local de trabalho. Com a multipolaridade progressiva da metrópole, os transportes em comum, organizados em função da predominância do centro da cidade, atendem mal às necessidades, o carro individual se choca com os engarrafamentos e os custos. (...) Outro fator pode pesar sobre o futuro desse modo de habitar: a insegurança crescente ligada à pequena e média delinqüência. Vê-se isso mais claramente nas grandes cidades da América do Sul, mais ameaçadas hoje do que as européias; mas também estas não virão a ser influenciadas por esse ‘flagelo’?

          Em São Paulo, as pessoas abastadas (6), até uma época recente, sempre optaram pela residência individual nos bairros mais afastados do centro (...) A insegurança, mais que a distância, provoca uma mudança: não podendo voltar para casa sem arriscar-se a sofrer uma agressão num cruzamento (...) muitos ricos preferem hoje o imóvel residencial na cidade, com um único grande apartamento por andar e forte proteção na entrada: grade, guarda etc. Assim se transformou, por exemplo, o tradicional bairro de Higienópolis, perto do centro da cidade, onde as antigas casas foram substituídas por imóveis de luxo de quinze a vinte andares. Essa nova demanda pesa sobre a transformação do velho tecido urbano e tende a devolver à periferia seu papel de zona residencial para os pobres: estes foram expulsos das zonas degradadas da cidade pelo impulso da renovação destinada aos ricos (...).

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Higienópolis, SP

          Em seu espaço urbano, como naquele que o cerca, muitos fatores tendem portanto a fragmentar as metrópoles. Certamente é preciso marcar a profunda diferença que separa (ainda?) as grandes cidades dos países desenvolvidos das do Terceiro Mundo. Nestes últimos países, a exacerbação (7) das desigualdades sociais, a amplitude cada dia maior da massa das populações de baixa renda separa cada vez mais a cidade dos ricos da cidade dos pobres – o território legal dos espaços desiguais. Nos países desenvolvidos, as oposições são mais sutis (8), porém os fenômenos de exclusão acantonam (9) cada vez mais as rendas modestas em espaços limitados e distantes tanto do centro da cidade quanto dos novos núcleos de polarização , que provocam em torno deles, por renovação-criação, a formação de zonas de residências de alto padrão.   Sem dúvida, os ricos ainda não ficam fechados em seus bairros durante a noite, mas a insegurança começa a marcar a paisagem dos espaços que lhes são cada vez mais sistematicamente reservados.  

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Pólo empresarial de La Défense, em Paris

          Caminha-se para a visão de uma ‘cidade estourada’? Na Cidade do México, a imensidade urbana e a precariedade dos meios de transporte fracionam a aglomeração em subconjuntos que tentam viver em relativa autonomia, na falta de possibilidades de articulação. Está-se (ainda?) bem longe dessa imagem nas grandes cidades dos países desenvolvidos... mas a acentuação dos fenômenos de fragmentação deve acompanhar-se de uma reorganização e de uma melhoria dos transportes urbanos para que cada subespaço possa continuar a fazer parte de um conjunto coerente e a dispor de uma boa articulação com todos os demais.”

Michel Rochefort. Redes e sistemas. São Paulo, Hucitec. 1998. p. 162-165.

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(in ARAUJO, R. e MAGNOLI, Demétrio. Projeto de Ensino de Geografia: Geografia Geral. São Paulo : Moderna, 2004. P.255.)

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REFLEXÃO E DISCUSSÃO  
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O autor discute as mudanças no “esquema clássico” de estruturação do espaço urbano.

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a)     Qual é esse “esquema clássico”?

b)     Indique duas mudanças nesse esquema mencionadas no texto.

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Segundo o texto cabe ao urbanizador do futuro identificar as necessidades em imóveis de escritórios das novas concentrações populacionais suburbanas e reorganizar os sistemas de comunicação e transportes. Analisando o caso das Allphavilles, responda à seguinte questão:

a)  Ao construir e pavimentar estradas e rodovias, o poder público metropolitano (no caso da Grande São Paulo), torna-se agente causador da expansão do assoalho urbano? Justifique.

b)  Os transportes públicos nas metrópoles organizaram-se de modo a conectar o centro urbano aos bairros e subúrbios. O autor do texto “metrópoles fragmentadas” mostra que essa forma de organização dos transportes públicos atende mal às novas necessidades de deslocamentos. Que necessidades são essas.

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Considere as seguintes cenas: 

TEXTO I: A larga avenida de oito pistas de cada lado é separada por um grande canal, outrora um rio navegável e altamente piscoso, onde a sociedade divertia-se em campeonatos de pescarias, natação e remo. Navegando nas suas águas espessas, barrentas e cinzentas, uma solitária draga conduzida por um senhor mascarado trajando uma roupa de aparência de astronauta, retirava dejetos industriais e domésticos do leito, além de uma volumosa carga de barro gosmento. Cada lado da pista hospeda uma grande quantidade de indústrias, shoppings centers, condomínios residenciais e de escritórios, instalações do poder público , vilas e bairros operários e favelas. Nas calçadas, grupos ameaçadores de indivíduos aguardam o sinal vermelho.

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TEXTO II: Após a curva da estrada, no alto da serra, vislumbrei adiante, na descida, a pequena cidade com torre e o campanário da igreja, os telhados pontiagudos das casas, o campo ao redor graciosamente cultivado em perfeitos quadrados coloridos de verde claro, verde escuro, amarelo, laranja, marrom; belas cercas de madeira separavam o gado leiteiro malhado e, entre as árvores frutíferas, um e outro telhado de granjas de galinhas e de porcos. Ao longe, serpenteando entre as colinas e as plantações, um espelho d’água abastece a povoação e serve de recreação para a sociedade. Separando a cidade do campo, casas ajardinadas, refrescadas pelas sombras de árvores perfumadas e simples cercas caiadas de branco.

As duas cenas retratam uma realidade urbana, porém com nítidas diferenças.

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Considerando-se as atividades típicas da Terceira Revolução Industrial ou Informacional e as novas tecnologias de comunicação (Internet, telefonia móvel, sistemas de correio), ou de transportes (ferrovias, rodovias, aeroportos), informe qual das duas descrições urbanas anteriores (texto I e II) está mais adequada à produção de idéias e tecnologias e à qualidade de vida do pesquisador, justificando a sua opção.

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