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Sheraton Doha Hotel & Resort, Doha, Catar |
A
rodada
de
Doha
das
negociações
da
OMC
começou
em
novembro
de
2001.
O
objetivo
era
a
adesão
à
Agenda
de
Desenvolvimento
de
Doha,
e a
partir
daí
negociar
a
abertura
dos
mercados
agrícolas
e
industriais.
A
intenção
declarada
da
rodada
era
tornar
as
regras
de
comércio
mais
livres
para
os
países
em
desenvolvimento.
Em
dezembro
de
2001
a
China
e
Taiwan
foram
admitidas
na
OMC
A
Rodada
Doha
é o
principal
elemento
do
comércio
mundial.
De
fato,
se
trata
das
exaustivas
negociações
entre
as
maiores
potências
comerciais
do
mundo,
com
o
objetivo
de
diminuir
as
barreiras
comerciais,
focando
o
livre
comércio.
As
negociações
receberam
o
nome
de “Doha”,
capital
do
Qatar,
pois
foi
nessa
cidade
que
os
países
começaram
a
discutir
a
abertura
do
comércio
mundial.
O
principal
problema
da
Rodada
Doha,
ou
seja,
do
comércio
mundial,
é a
preocupação
de
cada
país
nos
efeitos
de
uma
política
liberalizante
que
supostamente
trariam
desemprego
em
países
que
não
estão
aptos
a
concorrer
de
forma
igual.
Se
as
nações
em
desenvolvimento
como
Brasil
e
Índia
querem
que
a UE
(União
Européia)
e os
EUA
(Estados
Unidos
da
América)
diminuam
os
subsídios
(impostos)
aos
produtos
agrícolas
estrangeiros,
os
países
desenvolvidos
querem
em
troca,
a
abertura
aos
produtos
manufaturados
europeus
e
americanos.
Todas
essas
questões
foram
grandemente
discutidas
nas
rodadas
em
Cancun,
Genebra,
Paris
e
Hong
Kong,
porém
até
hoje
não
há
um
consenso
mundial
a
respeito
da
abertura
comercial.
Recentemente,
o
Brasil
e a
Índia,
as
principais
potências
comerciais
em
desenvolvimento,
abandonaram
as
negociações
da
Rodada
Doha,
levando
todo
o
mundo
à
frustração
e à
descrença
a
respeito
da
liberação
do
comércio
mundial,
já
que
os
principais
países
realizarão
eleições
recentemente,
adiando
ainda
mais
as
esperanças
de
negociações
futuras.
|
Matéria
da
Revista
Veja
Edição
1967 2
de
agosto
de 2006 |
|
Um golpe
contra a
globalização |
|
Giuliano
Guandalini
|
O mundo perde com o fracasso melancólico da Rodada de Doha de negociações comerciais da OMC
|
 |
|
Colapso: lançada há cinco anos na cidade de Doha, no Catar, a rodada da OMC emperrou. |
|
|
Em
novembro
de 2001,
em Doha,
capital
do
Catar,
no
Oriente
Médio,
os
países-membros
da
Organização
Mundial
do
Comércio
(OMC)
anunciaram
com
pompa o
início
de uma
nova
fase de
discussões
para
liberalizar
o
comércio
no
mundo. A
meta era
dar um
novo
impulso
à troca
de bens
e
serviços
entre as
nações
ao
reduzir
não
apenas
tarifas,
até
então o
foco das
negociações
globais
de
comércio,
mas
todos os
outros
entraves
ao
comércio.
Em Doha,
a nona
rodada
de
negociações
globais
de
comércio
desde
1947, o
objetivo
passou a
ser a
eliminação
dos
subsídios
e de
outras
práticas
anticompetitivas
que,
embora
generalizadas,
punem
especialmente
as
nações
em
desenvolvimento
ricas em
produtos
agrícolas.
Não foi
à toa
que as
negociações
receberam
o nome
de
Rodada
Doha de
Desenvolvimento.
Na
semana
passada,
depois
de anos
de
impasse,
Doha
entrou
em
colapso
de forma
deprimente.
Previstas
para ser
encerradas
em
janeiro
de 2005,
as
discussões
foram
suspensas
sem ao
menos um
esboço
de
acordo e
há até
incertezas
quanto a
sua
retomada.
Como
definiu
o
ministro
indiano
do
Comércio,
Kamal
Nath, "a
Rodada
Doha
está no
meio do
caminho
entre a
UTI e o
crematório".
É uma má
notícia
para
todo o
mundo.
Os
países
ricos
perdem a
chance
de ter
maior
acesso a
economias
em
ascensão,
como a
Índia.
Já os
países
em
desenvolvimento
terão de
enfrentar
por mais
algum
tempo a
concorrência
desleal
dos
produtos
agrícolas
altamente
protegidos
das
nações
industrializadas.
Subsídios
são
nocivos
ao
comércio
livre
porque
fazem
com que
os
preços
internacionais
de
commodities
como
soja,
milho e
trigo
fiquem
abaixo
de seu
valor
real,
num
patamar
inferior
ao que
seria
justo
para
remunerar
os
produtores
que
buscam o
lucro na
produtividade,
e não no
tapetão
da ajuda
oficial.
Por
esses
motivos,
os
negociadores
brasileiros
estiveram
entre os
que mais
festejaram
o
lançamento
da
Rodada
de Doha.
Corretamente,
viam
nela a
chance
de o
país
derrubar
as
barreiras
que
impedem
o
aumento
das
vendas
às
nações
ricas. O
agronegócio,
setor em
que o
Brasil
dispõe
de maior
vantagem
competitiva,
é
justamente
o mais
protegido
nos
Estados
Unidos,
na
Europa e
no Japão
–
atingem
280
bilhões
de
dólares
os
subsídios
anuais
nas três
regiões.
O ânimo
brasileiro
foi
tamanho
que o
Itamaraty
decidiu
colocar
em
segundo
plano
outras
negociações.
A idéia
era que
somente
um
acordo
planetário,
e não
regional
ou
bilateral,
possibilitaria
uma
redução
drástica
dos
subsídios.
A idéia
está
correta.
Mas,
dado o
fracasso
de Doha,
resta a
dúvida
sobre se
valeu a
pena
apostar
todas as
fichas
em um
jogo
arriscado
e
incerto.
No plano
histórico,
o
fracasso
de Doha
fez
surgir o
temor de
que se
repita
uma onda
protecionista
similar
à
iniciada
com a
eclosão
da I
Guerra
Mundial.
Antes de
1914, o
mundo
viveu um
período
de
globalização
capaz de
rivalizar
com o
atual.
Depois
disso, o
comércio
retrocedeu,
sufocado
por
feudos
movidos
ora por
ideologia,
ora por
defesa
do
mercado
interno.
A
circulação
periférica
dos
acordos
bilaterais
pode
amenizar
um
sufocamento
das
artérias
globais
do
comércio.
Já são
quase
200 os
acordos
regionais
fechados
por
países à
margem
das
discussões
multilaterais.
Mas o
avanço
anárquico
de
tratados
pode
criar
uma
barafunda
de
regras
bilaterais
com
milhares
de
cláusulas
confusas
e
contraditórias.
Adam
Smith
(1723-1790)
dizia
que
todos os
países
ganhariam
se
abrissem
unilateralmente
suas
fronteiras.
Com
sorte, o
que
presenciamos
com a
explosão
de
acordos
bilaterais
é uma
versão
confusa
da
receita
preconizada
pelo
filósofo
e
economista
escocês |
|
"O
ÚLTIMO
PASSO É
O MAIS
DIFÍCIL"
O
francês
Pascal
Lamy,
diretor-geral
da OMC,
teme que
se possa
voltar à
estaca
zero
quando
faltava
tão
pouco
para um
acordo
global.
Lamy
falou
por
telefone
à
repórter
Ruth
Costas
BRASIL,
EUROPA E
ÍNDIA
ATRIBUEM
O
COLAPSO
DAS
NEGOCIAÇÕES
AO FATO
DE OS
AMERICANOS
SE
NEGAREM
A CORTAR
OS
SUBSÍDIOS
A SEUS
PRODUTORES
DOMÉSTICOS
– MAIS
DE 20
BILHÕES
DE
DÓLARES
POR ANO.
FOI
ISSO?
Não
posso
entrar
nesse
jogo de
empurra
para
achar um
culpado.
Quando
uma
negociação
não
funciona,
é fácil
justificar
o
fracasso
acusando
um país
de pedir
muito ou
de não
estar
disposto
a ceder
o
suficiente.
Quem
fala
para o
público
americano
ganha
simpatia
batendo
nos
europeus.
Quem se
dirige a
uma
platéia
européia
bate nos
americanos.
Quem
está em
um país
em
desenvolvimento,
como o
Brasil,
bate nos
Estados
Unidos e
na União
Européia.
Achar um
único
culpado
é uma
estratégia
com um
bom
apelo,
usada
para
justificar
as
perdas
para um
público
interno
ansioso
por
resultados.
A
verdade
é que
todos
têm uma
parcela
de
culpa.
EXISTEM
INTERESSES
ECONÔMICOS
IRRECONCILIÁVEIS?
Não se
trata de
uma
questão
econômica.
Hoje há
consenso
entre os
economistas
de que a
abertura
comercial
é uma
ótima
estratégia
para
alcançar
crescimento
e
desenvolvimento
social.
Muitos
vão
além:
para
eles nem
seria
preciso
negociar
– se os
países
se
abrissem
para os
fluxos
de
comércio
e
investimento,
mesmo
sem
pedir
nada em
troca,
em pouco
tempo
colheriam
bons
frutos.
No
entanto,
quem
toma as
decisões
são
políticos,
comprometidos
com o
público
interno
e, não
raro,
com
interesses
de
grupos
específicos.
As
milhares
de
pessoas
beneficiadas
pela
abertura
são uma
maioria
silenciosa.
O BRASIL
ERRA AO
APOSTAR
TODAS AS
SUAS
FICHAS
NAS
NEGOCIAÇÕES
MULTILATERAIS
DA OMC?
Não.
Apesar
das
dificuldades,
essa
ainda é
a opção
número 1
– aquela
que pode
garantir
os
melhores
resultados.
Num
acordo
bilateral
o Brasil
também
paga um
preço
para ter
acesso a
outros
mercados
e os
ganhos
são mais
limitados.
Você
acha
que, se
os
brasileiros
sentassem
com
americanos
e
europeus,
conseguiriam
convencê-los
a
negociar
uma
redução
de seus
subsídios?
Nem
pensar.
NO
ENTANTO,
AS
DIFICULDADES
NA OMC
ESTÃO
IMPELINDO
MUITOS
PAÍSES A
SE
VOLTAR
PARA
ACORDOS
REGIONAIS
OU
BILATERAIS.
QUEM NÃO
FAZ ISSO
NÃO
CORRE O
RISCO DE
FICAR
PARA
TRÁS?
Os
acordos
bilaterais
sempre
existiram,
mas o
sistema
multilateral
é a
grande
inovação.
Só ele
tem a
disciplina
e o
método
necessário
para
impulsionar
as
grandes
reformas
na
economia
mundial.
A
questão
do
comércio
agrícola
também
não pode
ser
totalmente
resolvida
em
acordos
regionais
e
bilaterais.
A não
ser que
você
ache
normal
fazer
parte de
uma área
de
livre-comércio
com
alguém
que
subsidia
seus
produtores.
AS
NEGOCIAÇÕES
DA OMC
JÁ
CHEGARAM
A
IMPASSES
ANTES.
POR QUE
DESTA
VEZ A
SITUAÇÃO
É
DECISIVA?
Porque
estávamos
na reta
final da
negociação
e já
havia
muita
coisa em
cima da
mesa. Na
questão
agrícola
só
faltava
resolver
10% do
problema.
Em uma
negociação,
o último
passo é
sempre o
mais
difícil.
Caso os
países
não se
empenhem
mais em
colaborar,
todas as
concessões
feitas
nesses
cinco
anos de
Rodada
Doha
serão
perdidas.
|
G-20
Brasil e
Índia
lideram o
G20, um
grupo de
países
emergentes
que busca,
principalmente,
abertura nos
mercados
agrícolas
dos países
ricos. Os
dois países
vinham
representando
os países
pobres na
mesa de
negociação
com os
representantes
dos países
ricos --EUA
e UE.
O fracasso
em Potsdam,
no entanto,
deu origem a
iniciativas
paralelas.
Chile,
Colômbia,
Costa Rica,
Hong Kong,
México,
Peru,
Cingapura e
Tailândia
propuseram
um "meio
termo" na
semana
seguinte ao
fim da
reunião em
Potsdam para
que a
negociação
de abertura
comercial
prossiga.
Atualmente
as
negociações
da Rodada
Doha estão
em "uma
encruzilhada
que pode
levar ao
sucesso ou
derivar
lentamente
em um
profundo
congelamento",
segundo Lamy,
em avaliação
feita nesta
semana, em
discurso no
Conselho
Econômico e
Social (Ecosoc)
da ONU
(Organização
nas Nações
Unidas)
|