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Dia
do Geógrafo:
29 de
maio.
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A
cena era típica
daquele
extraordinário
ritual a
que damos
o nome de
festa. Por
toda a
sala o
anfitrião
recebia
seus
convidados
com
expressões
usuais
como:
"Que
alegria
por você
ter
vindo!",
ou
"As
bebidas
estão
ali;
sirvam-se
à
vontade!",
enquanto
aqueles
que
participavam
do
"jogo"
assumiam o
seu
bem-praticado
e seguro
modo de
olhar, na
esperança
de ver,
entre os
presentes,
algum
conhecido.
Pequenos
grupos de
pessoas,
conversando
às vezes
com um
entusiasmo
forçado,
transformavam-se,
freqüentemente,
em
"fortalezas
inexpugnáveis"...
Mas, todos
engajavam-se
em sua
conversação,
de modo a,
deliberadamente,
deixar a
impressão
de estarem
isolados
em relação
aos
restantes
...
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Espremido
pelo número
crescente
de recém-chegados,
deixei o
bar e me
dirigi
para as
proximidades
de uma
janela, um
pouco
afastada
de toda
aquela
confusão.
Ali eu vi
aquela moça,
examinando
as flores,
com um
cuidado
que me
pareceu
profissional.
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"Rosas!",
eu disse,
querendo
parecer
inteligente,
mas com a
consciência
de que
nunca
tinha sido
muito bom
no que se
refere a
flores.
"Peônias",
respondeu
ela. |
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"Pelo
menos ...
é o que
acho".
"-
Oh! Que
tolice a
minha
(repliquei)
... e esta
parece ter
sido uma
primavera
maravilhosa
para as
flores!"
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"-
Sim,
maravilhosa.
As
primaveras
são
sempre
boas para
as
flores".
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Percebendo
que
aquele
assunto
não
nos
levaria
muito
longe,
ela
procurou
falar
sobre
algo
que
prolongasse
nossa
conversa,
e
fez,
então,
a
primeira
pergunta
que
lhe
passou
pela
cabeça.
"-
E
você,
o
que
faz?
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"Oh!"...
eu disse,
agradecido
pela nova
alternativa;
sou um geógrafo.
E, no
mesmo
momento em
que
acabava de
pronunciar
aquelas
palavras,
já podia
prever que
o embaraço
de uma
explicação
mais longa
viria
automaticamente.
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"Ah...
eh ...
sim,... um
geógrafo!"
afirmei,
procurando
demonstrar
a serena e
entusiástica
confiança
com que
falam de
suas
profissões
o médicos,
engenheiros,
pilotos,
caminhoneiros,
marinheiros
e até, os
andarilhos.
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"
- Mas, ...
o que
fazem os
geógrafos?"
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Isto
já tinha
acontecido
muitas
vezes...
Aquele
sentimento
frustrante
que se
manifesta
quando você,
um geógrafo
profissional,
sente-se
incapaz de
explicar
de maneira
simples e
rápida o
que você
realmente
faz. Um de
nós
poderia
dizer:
"eu
vejo o
mundo a
partir de
uma
perspectiva
espacial...",
ou,
"na
realidade
sou um
analista
espacial",
o que ,
sem dúvida
seria
correto...
até certo
ponto.
Acontece,
que tais
explicações
podem não
ter
significado
algum para
muita
gente. Uma
outra
forma
comum de
resposta
é aquela
que usa
uma
abordagem
diretamente
ligada a
algum
exemplo:
"-
Bem, no
momento
estamos
trabalhando
em um
modelo de
maximização
de
entropia,
para
avaliar os
movimentos
pendulares
das
jornadas
de
trabalho
em Bogotá",
ou então:
"Bom,
estamos
usando um
modelo de
simulação
computacional,
em parte
estocástico,
em parte
determinístico,
para
examinar
um
programa
de
desenvolvimento
regional".
E esses
dois
exemplos
estariam
igualmente
corretos
... até
certo
ponto. Porém,
essas
palavras,
que têm
um
significado
preciso
para
muitos
membros da
comunidade
dos geógrafos,
certamente
não terão
o menor
sentido
para a
maior
parte das
pessoas, e
acabarão
por serem
consideradas
como um
jargão
particular,
deliberadamente
criado
para
confundir
os outros.
O que
poderia,
também,
ser
verdadeiro
... até
certo
ponto.
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Assim,
ocorre freqüentemente
que, em uma
tentativa
desesperada de se
construir uma
ponte na direção
do interlocutor e
na direção de
vocábulos e
conceitos mais
comuns,
acaba-se por fazer
a opção por uma
resposta bem mais
simples, se bem
que incompleta:
"Bem, na
realidade, ensino
geografia"!!!
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E o
interlocutor,
aliviado e, muitas
vezes, já com um
sorriso nos lábios,
vem com a pergunta
inevitável:
"Ah...
verdade?...Então
qual é a capital
do Afeganistão?"
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A pergunta não
tem que ser
necessariamente
sobre o Afeganistão,
ela pode ser feita
sobre as minas de
carvão do
Yorkshire, sobre o
mais longo rio do
mundo, o clima da
região de Perth
(Austrália), a
população da Índia,
ou os mais
importantes
produtos de
exportação do
Zaire - embora
raros sejam
aqueles que fazem
a pergunta, que
saibam ao menos
como pensar sobre
o Zaire - além,
é claro, do El
Ninõ. Pois, não
são os geógrafos
que devem saber
tudo sobre ONDE
estão as coisas,
e porquê elas estão
ali?
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Embora com
uma certa dose de
humor, o tipo de
conversação que
se acabou de
relatar reflete
justamente o tipo
de visão que a
maior parte das
pessoas têm sobre
o que a Geografia
é, e sobre o que
os geógrafos
fazem. E, numa
certa medida, esta
visão é
correta,... até
certo ponto.
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Na verdade,
nós, geógrafos,
temos a
responsabilidade
de ensinar as
crianças sobre o
mundo no qual elas
estão crescendo,
do mesmo modo que
outros têm a
responsabilidade
de ensinar a elas
sua língua, a
matemática e uma
visão de sua
herança histórica
e artística,
entre outras
coisas. Colocadas
em um mundo que
elas não ajudaram
a construir, essas
crianças só
podem compreendê-lo
(e agir sobre ele)
na medida em que nós
(adultos) pudermos
ajudá-los através
da transferência
de nossas visões
sobre as palavras,
os números, a
beleza, o tempo e
o espaço.
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E o espaço?
Não aquele espaço
sideral da ficção
científica que
lentamente vai,
também, se
abrindo para
nossos
instrumentos, mas
este espaço de
nossa vida
cotidiana e
imediata, o Espaço
Geográfico de
nossa pequena casa
planetária.
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Fala-se,
cada vez mais, de
nosso mundo em
transformação,
do crescente
impacto das
sociedades sobre o
meio-ambiente, da
influência de uma
cultura sobre as
culturas, da
interdependência
cada vez maior dos
povos e das nações.
Sabe-se que hoje,
mais do que nunca,
os eventos de uma
parte do mundo têm
um impacto direto
e imediato sobre
outras. Mas, muito
poucas crianças -
e isto quer dizer
também, poucos
adultos - possuem
as mais
elementares
informações
sobre o cenário
mundial, visto em
seu conjunto, e
muito menos ainda
sobre os atores
que produzem um
caleidoscópio,
constantemente em
movimento, de
cidades e
povoados, estradas
e regiões,
conflitos e formas
de cooperação.
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No domínio
físico, para se
tomar apenas um
exemplo, se El Ninõ,
a corrente oceânica
localizada ao
largo do Chile e
do Peru, muda seu
curso normal,
surgem problemas sérios
para a indústria
pesqueira dos países
vizinhos mas, seu
efeito se estende
muito mais longe,
provocando
provavelmente
secas na longínqua
Austrália.
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Mas, de que
adianta os meios
de comunicação
inundarem nossas
casa com todas
essas informações
sobre o mundo físico
e humano em que
vivemos, se não
conhecemos, se não
sabemos
"representar"
em nossas mentes
os grandes espaços
continentais e oceânicos,
os países, as
regiões, os
lugares?
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Sim, os geógrafos
têm a
responsabilidade
de ensinar sobre
os lugares, as
regiões, os espaços,
os rios e
montanhas, as
estruturas e conexões,
e todas as
interrelações do
mundo no qual
vivemos. De outra
maneira, como pode
esse nosso mundo
fazer algum
sentido, ter algum
significado?
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Mas, como já
disse, esta
tradicional - mas
ainda vital -
tarefa do ensino
tradicional e
elementar,
representa apenas
uma parte de um
conjunto muito
maior. A outra
parte
desenvolve-se,
atualmente, nas
universidades e
nos
estabelecimentos
de pesquisa de
muitos países, em
firmas de
consultoria e nas
empresas, nas
instituições de
planejamento
urbano, regional e
nacional, e nas
mais diferentes agências
governamentais e
supranacionais,
como a Organização
Mundial de Saúde
e o Banco Mundial,
por exemplo.
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Uma das
importante
características
dos acontecimentos
dos últimos
trinta anos foi a
maneira pela qual
a perícia do
conhecimento geográfico
- a perspectiva
espacial - tem
informado e
esclarecido
problema após
problema, em um
amplo espectro de
preocupações
humanas. Os geógrafos
têm feito
pesquisas
fundamentais que vão
desde orientações
para que pessoas
com problemas de
incapacidade física
possam guiar-se em
complexas áreas
urbanas; estudos
de distribuição
espacial de doenças,
para que os
cuidados médicos
sejam dispensados
de maneira mais
adequada; passando
pelo planejamento
de novas regiões
agrícolas, ou
pela avaliação
de colheitas,
através das
imagens de satélite,
até chegar às
pesquisas que
procuram
contribuir par a
solução dos
problemas de redes
urbanas
desequilibradas ou
de periferias
urbanas de percepção
das imagens
mentais que ajudarão
a revolucionar
campos como os do
planejamento
urbano/regional e
do turismo.
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De fato
eles a fazem - e
muito mais. |
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Por isto,
escrevi este
livro. Da próxima
vez em que alguém
perguntar-me em
uma festa:
"oh! Você é
um geógrafo? ...
e ... e... mas, o
que você faz
exatamente? ...
vou responder:
"- Estou
muito contente por
você ter feito
esta pergunta.
Acabo de escrever
um livro sobre mim
mesmo ...
aceite-o!
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|
Autor:
Peter
Gould
(Pennsylvania
State University)
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Tradução
e adaptação: Prof.
Dr. Oswaldo Bueno
Amorim Filho
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