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  GEO-HISTÓRIA 

José Willian Vesentini

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo, professor e pesquisador no Departamento de Geografia da FFLCH-USP, Especialista em Geografia Política / Geopolítica e Ensino de Geografia, ex-professor no Ensino Fundamental e Médio, nas redes particular e oficial de São Paulo. (créditos no final da página)

UMA BREVE HISTÓRIA DA GEOGRAFIA


» A mistura inicial: filosofia, geografia e outros saberes
» Os aspectos teórico e prático da geografia
» A especialização dos saberes
» O advento da ciência moderna com Galilei e Newton
» Métodos científicos x saberes especulativos
» Surge a geografia moderna com Homboldt e Ritter

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A Geografia é um dos saberes mais antigos que existem. De forma resumida, podemos dizer que ela é o estudo do espaço que os seres humanos habitam. Assim sendo, seu início coincide com o advendo dos primeiros mapas, na Antiguidade, pois a elaboração de um mapa - para mostrar o caminho para um lugar, para localizar cada objeto ou fenômeno numa determinada região, etc. - já pressupõe um estudo geográfico.
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» A MISTURA INICIAL: FILOSOFIA, GEOGRAFIA E OUTROS SABERES
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      A palavra geografia (geo,"Terra"; grafia, "descrição", "escrita") foi criada pelo filósofo grego Eratóstenes no século III a.C.  Esse filósofo foi um estudioso da geografia, algo muito comum na época, quando praticamente todos os sábios ou estudiosos eram filósofos (filo, "amigo"; sofia, "saber", "sabedoria") e, com frequência, se ocupavam de quase todos os temas ou assuntos que hoje dividiamos em várias disciplinas distintas. Foi somente nos séculos XVII, XVIII e XIX, dependendo de cada caso, que as ciências modernas (química, física, geologia, geografia, astronomia, sociologia, economia, etc.) se definiram mais precisamente, isto é, adquiriram os seus conceitos e métodos próprios e específicos.

      Eratóstenes, que exerceu o cargo de diretor da então famosa Biblioteca de Alexandria, foi um importante pesquisador em vários saberes, como matemática, geografia, física e astronomia. Entre outras contribuições suas, está o cálculo da circunferência ou perímetro do nosso planeta, que possui 40.075 km no Equador e 39.940 km nos pólos. O cálculo de Eratóstenes apresentou relativa exatidão, com uma diferença de apenas 322 km. Por sinal, até o século XIX era muito comum que o campo de estudos da Geografia incluísse conhecimentos que, depois, passaram a integrar outras disciplinas: astronomia, geologia, economia, etc.  Portanto, somente nos últimos dois séculos é que ocorreu uma maior especialização do saber, com essas ciências, que antes eram confundidas ou misturadas, adquirindo cada uma delas a sua autonomia ou o seu campo de estudos específico.

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» OS ASPECTOS TEÓRICO E PRÁTICO DA GEOGRAFIA
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      A Geografia sempre apresentou dois aspectos: um teórico e outro prático ou estratégico. O aspecto teórico da disciplina refere-se aos conhecimentos sobre o mundo como um todo, ou seja, a geografia geral, e também aos estudos sobre um determinado lugar ou região, a geografia regional.  Por exemplo: as densidades demográficas no mundo, o comércio internacional, os climas do nosso planeta, etc. (geografia geral); ou o estudo da Europa ocidental, da Grécia ou da Amazônia (geografia regional).

      O aspecto estratégico da geografia diz respeito à sua utilidade prática para o Estado (isto é, para o poder público), para os militares (para fazer a guerra), para as empresas e indivíduos em geral (para conhecer o mundo e os lugares a fim de neles poder atuar mais eficazmente).   Afinal, todos os povos, todas as sociedades humanas, habitam um determinado espaço, que é o seu território. E não é possível que exista um governo (isto é, a cúpula ou comando do Estado) que administre uma sociedade, cobrando impostos e garantindo a lei e a ordem, sem dispor de informações geográficas a respeito dessa sociedade e do seu território: conhecimentos e mapas sobre os recursos naturais (solos, minérios, recursos hídricos, etc.), sobre a população (número de habitantes e suas características - sexo, idade, faixas de rendimentos -, locais onde eles se concentram), etc.

      Esses dois aspectos da geografia foram muito bem descritos pelo geógrafo romano Estrabão, que viveu no século I a.C.  Sobre esses aspectos, Estrabão afirmou:

"A maior parte da Geografia satisfaz a necessidade dos Estados.  A Geografia em seu conjunto tem um vínculo com as atividades dos dirigentes.  Os grandes generais, sem exceção, são homens capazes de raciocinar em termos espaciais, de pensar a estratégia apropriada na terra e no mar, de unir povos sob um governo comum. Até mesmo um caçador terá mais êxito se conhecer a natureza e a extensão do bosque e, além do mais, só aquele que conhece uma região pode escolher o melhor local para acampar, para fazer uma emboscada ou para dirigir uma campanha militar".
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» A ESPECIALIZAÇÃO DOS SABERES
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      Foi somente no século XIX que a Geografia se tornou uma ciência específica, tendo se separado da filosofia, da astronomia, da geologia e de outros saberes que, até então, eram mais ou menos integrados com ela.  Isso ocorreu como consequência da especialização dos saberes, isto é, de uma maior delimitação de cada objeto ou campo de estudos.   A astronomia, por exemplo, deixando de ser confundida com a antiga "geografia matemática", passou a se ocupar com o Universo e com a Terra no espaço astronômico.  A geologia, que também se tornou autônoma nesse período, estuda a evolução do nosso planeta (Eras geológicas, rochas minérios, etc.).  Temos ainda outras ciências, que também eram confundidas com a Geografia e que se tornaram independentesw: a geodésia, que é a ciência moderna que estuda a forma e as dimensões da Terra;  a geofísica, que se ocupa com a física do nosso planeta (campo gravitacional e magnético, ondas sísmicas, etc.); a antropologia, que investiga as culturas;   a sociologia, que procura compreender as relações sociais, etc.

      Da mesma forma, também a Geografia se especializou e passou a ter um campo de estudos mais restrito.  Ela deixou de ser identificada com todos os conhecimentos sobre a Terra, sobre o nosso planeta em todos os seus aspectos, e passou a se ocupar especifricamente do espaço geográfico, ou seja, a superfície terrestre, que é o lugar onde a humanidade vive e no qual produz modificações.

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» O ADVENTO DA CIÊNCIA MODERNA COM GALILEI E NEWTON
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      O advento da Geografia moderna no século XIX, assim como das outras ciências que se tornaram autônomas, foi também uma decorrência da aplicação de um novo modelo ou padrão de ciência, que vinha sendo elaborado desde os séculos XVII e XVIII, com Galileu Galilei (1564-1642) e Isaac Newton (1642-1727).

      Galileu Galilei costuma ser considerado o "primeiro cientista moderno", pois deixou de lado as crenças e superstições que eram tidas como verdades pelos seus contemporâneos e procurou investigar objetivamente o Universo e o mundo físico com base em observações, experiências, cálculos e o uso da lõgica.   Ele é tido como o inventor do telescópio, e as suas observações astronômicas comprovaram as idéias de Copérnico, que acreditava que a Terra não era o centro do Universo - tal como se pensava até então -, mas apenas um dos inúmeros planetas que giram ao redor do Sol.

      Isaac Newton foi um grande sistematizador dos conhecimentos físicos e astronômicos de sua época, tendo realizado uma síntese sobre o Universo e suas leis.   Ele criou a teoria da gravitação universal - segundo a qual "matéria atrai matéria na razão direta de sua massa e inversa à sua distância"-, o que explica não só o fato de alguns astros girarem ao redor de outros, como também o de os objetos caírem sobre a superfície da Terra quando lançados ao ar.

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» MÉTODOS CIENTÍFICOS X SABERES ESPECULATIVOS
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       Esses dois cientistas pioneiros, Galilei e Newton, além de outros (Copérnico, Leonardo da Vinci, etc.), consolidaram definitivamente a racionalidade ou o pensamento racional nas ciências, em detrimento dos conhecimentos místicos.    Com eles, a natureza e o Universo passaram a ser explicáveis por suas próprias "leis"  ou por sua própria dinâmica e não mais pela ação de astros, demônios ou de deuses.  Assim, se quisermos compreender algum fenômeno natural ou mesmo social - como, por exemplo, uma erupção vulcânica, um cometa que se aproxima da Terra, a extinção dos dinossauros ou o aumento da criminalidade numa cidade -, temos de utilizar métodos científicos (observação, análise, cálculos, uso do raciocínio lógico, estabelecimento de conexões entre os fatos, etc.)  e não mais apelar para a "autoridade" de alguma antiga escritura (a Bíblia ou o Alcorão, os textos de Aristóteles, um manual de magia, etc.), tal como se fazia até o século XVIII.

      Depois de Galilei e, principalmente, de Newton, a ciência moderna deixou de ser identificada com a fé ou a religião (que logicamente sobreviveram e continuam importantes para a vida pessoal de cada um, mesmo para muitos cientistas, mas não para a pesquisa científica)  e passou a ser uma busca de explicações naturais ou sociais - isto é, racionais - para o que acontece no mundo.

      De forma bem esquemática, podemos concluir que a ciência moderna, nascida nesses dois séculos, procura deixar de lado qualquer forma de saber especulativo  e exige um rigor, uma comprovação dos fatos ou fenômenos, uma cientificidade, afinal.

      Até o século XVIII, por exemplo, era muito comum haver entre os estudiosos, inclusive os mais sérios e competentes, uma confusão entre a astronomia e a astrologia.   Já no século XIX, a astronomia foi considerada uma ciência e a astrologia um saber tradicional e não científico, que pouco tem a ver com aquela outra.  A astronomia lida com fatos ou processos comprovados e não com especulações, tal como a astrologia.   A astronomia, dessa forma, descartou os dados ou conhecimentos astrológicos e passou a estudar apenas os fenômenos que podem ser comprovados na realidade ou no estudo do Universo.

      O mesmo ocorreu com a Geografia, que deixou de lado uma série de conhecimentos especulativos - como, por exemplo, a crença em continentes nunca vistos ou em lugares onde existiriam as guerreiras amazonas ou gente sem cabeça, que até o século XVIII ainda persistia em alguns livros da disciplina - e passou a se ocupar somente dos lugares e fatos comprováveis, que podem ser observados, mapeados com precisão ou concluídos pelo raciocínio lógico.

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» SURGE A GEOGRAFIA MODERNA COM HUMBOLDT E RITTER
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       Dois estudiosos germânicos do século XIX são considerados os criadores da Geografia moderna ou científica: Alexander von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859).   Eles produziram importantes trabalhos de pesquisa no estudo da Geografia Física (climas e suas relações com a vegetação, as águas e o relevo, interação entre os elementos naturais de uma paisagem), como foi o caso principalmente  de Humboldt, ou então da Geografia Humana (os povos e seus territórios, os Estados e suas relações políticas, econômicas, etc.), como foi o caso de Ritter.

      Alexander vom Humboldt

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Créditos:  in Geografia Série Brasil - Editora Ática (VESENTINI, José Willian. Geografia Série Brasil. São Paulo : Ática, 2003.)
» Visite o web-site do autor:» GeoCrítica » www.geocritica.hpg.ig.com.br/index.htm
 

 

               

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