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Global,
mas não aldeia
Diga a verdade: algum dia você imaginou que entrariam em
sua vida locais como Papeete, Mururoa, Saint Martin? Para
não mencionar Bósnia e Sarajevo, que hoje já são palavras,
digamos, familiares, mas há poucos anos inexistiam no
vocabulário de 11 de cada 10 brasileiros.
Confesso
que, anos atrás, eu já me surpreendi com o fato de Cabul, a
capital do Afeganistão, ter se tornado um ponto quente no
universo, durante a guerra contra a ocupação soviética. Virou
mais uma pecinha do jogo de xadrez entre as superpotências da
época.
Para
a minha geração, Afeganistão, capital Cabul, era apenas verbete
de aula de geografia. Ou melhor: que se decorava na aula de
geografia para esquecer o mais depressa possível.
Mas
Papeete, Mururoa e Saint Martin, nem como verbete de geografia.
Agora, essas três localidades ocupam os telejornais há três ou
quatro dias. É verdade que Saint Martin entrou na telinha
não por ela, mas pelos brasileiros que passam férias no
Caribe. Se não houvesse brasileiros na ilha, o furacão que
a devastou ganharia no máximo uma mençãozinha mixuruca.
Mas
não há, até onde se sabe, brasileiros em Mururoa ou Papeete e,
no entanto, essas duas remotas localidades lograram infiltrar-se
na casa pelo menos de quem vê telejornais, lê jornais ou ouve
rádio.
A
minha dúvida é saber se estamos preparados para digerir essa
ampliação ao infinito da geografia, digamos familiar. Quem
é que se habilita a dizer se a Polinésia Francesa deve ou não
ganhar a independência, afinal o motivo de fundo para os
distúrbios que se seguiram ao teste nuclear que a França fez no
atol de Mururoa?
Por falar nisso, quantos ainda são capazes de, sem consulta ao
dicionário, dizer o que é um atol?
O
tal de McLuhan era de fato um gênio. Quando criou a
expressão "aldeia global", a aldeia não era de fato
global. Agora é. Mas de aldeia tem
pouco. Afinal, aldeia é sinônimo imperfeito de coisa descomplicada, fácil de entender para a sua tribo. A
aldeia global é tudo, menos fácil de entender. |