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Durante quase duzentos anos, nós, norte-americanos,
expulsamos ou exterminamos populações indígenas,
isto é, milhões de pessoas; conquistamos a metade
do México; saqueamos a região do Caribe e da América
Central; invadimos o Haiti e as Filipinas (matando,
na ocasião, 100 mil filipinos). Depois, após a II
Guerra Mundial, estendemos nosso domínio sobre o
mundo da maneira que se conhece. Mas, quase sempre,
éramos nós que matávamos, e o combate se travava
fora do nosso território nacional.
(...)
Para compreender os acontecimentos de 11 de
setembro, é preciso distinguir, por um lado, os
executores do crime, e, por outro, o imenso leque de
compreensão de que esse crime se beneficiou,
inclusive entre os que a ele se opunham. Os
executores? Supondo-se que se trate da rede de Bin
Laden, ninguém sabe mais sobre a gênese desse
grupo fundamentalista do que a CIA e seus asseclas;
eles o incentivaram à nascença. Zbigniew
Brzenzinski, diretor da Segurança Nacional do
governo Carter, felicitou-se pela “armadilha”
preparada para os soviéticos em 1978, que consistia
– por meio de ataques de mujahidin
(militantes islâmicos organizados, armados e
treinados pela CIA) contra o regime de Cabul – em
atrair os soviéticos para o território afegão, no
final do ano seguinte. Somente depois de 1990 e da
instalação de bases norte-americanas permanentes
na Arábia Saudita, terra sagrada para o Islã, é
que esses combatentes se voltaram contra os Estados
Unidos.
Para tentar explicar o amplo leque de simpatia com
que contavam as redes de Bin Laden, no entanto,
inclusive nas camadas dirigentes dos países do
hemisfério Sul, é necessário partir da raiva que
provoca o apoio dos Estados Unidos a todo tipo de
regimes autoritários ou ditatoriais; é necessário
lembrar-se da política norte-americana que destruiu
a sociedade iraquiana, consolidando o regime de
Saddam Hussein; é necessário não se esquecer do
apoio de Washington à ocupação israelense de
territórios palestinos desde 1967. No momento em
que os editoriais do New York Times sugerem que “eles” nos detestam porque defendemos
o capitalismo, a democracia, os direitos
individuais, a separação entre a Igreja e o
Estado, o Wall
Street Journal, melhor informado, explica, após
ter ouvido banqueiros e executivos não-ocidentais,
que eles “nos” detestam porque impedimos a
democracia e o desenvolvimento econômico. E demos
apoio a regimes brutais, e até terroristas.
(...)
Nos meios dirigentes ocidentais, a guerra contra o
terrorismo foi apresentada como se fosse uma “luta
dirigida contra um câncer disseminado por bárbaros”.
Mas essas palavras e essa prioridade não são de
hoje. Há vinte anos, o presidente Ronald Reagan e
seu secretário de Estado, Alexander Haig, já as
anunciavam. E, para conduzir esse combate contra os
adversários depravados da civilização, o governo
norte-americano instalou, então, uma rede
terrorista internacional de amplitude sem
precedentes. Praticaram-se inúmeras atrocidades de
uma ponta à outra do planeta, e essa rede dedicou o
essencial de seus esforços à América Latina.
(CHOMSKY, Noam. Correio
Brasiliense. Brasília, 23/12/2001.
Em
http:://www2.correioweb.com.br/cw/2001-12-23/mat_25815.htm.)
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