Hegemonia dos EUA
Bush quer ampliar sua influência na América do Sul
Roberto Candelori
Especial para a Folha de S.Paulo
Periódicos
latino-americanos divulgaram que os EUA e o
Paraguai haviam firmado um acordo para a instalação
de uma base militar norte-americana em solo
paraguaio. A suposta base seria construída próximo
à Tríplice Fronteira, área, segundo
Washington, suspeita de abrigar extremistas islâmicos.
A história da hegemonia norte-americana no
continente nos remete a dois momentos
importantes: primeiro a Doutrina Monroe, de
1820, cuja máxima "A América para os
americanos" traduziu a liderança sobre
toda a América. Depois a política
intervencionista do "Big Stick", o
"grande porrete" de Roosevelt
(1901-1909), que resultou em intervenções
militares.
Agora, George W. Bush manifesta a pretensão de
consolidar e de ampliar sua influência no sul
da América. Washington tem uma nova estratégia
hegemônica: aposta suas fichas na consolidação
da Alca (Área de Livre Comércio das Américas)
com vista a transformar o continente num
gigantesco mercado para a circulação de
produtos "Made in USA".
Sustenta a logística do Plano Colômbia,
marcando posição na luta contra o narcotráfico,
e em um aviso dirigido à Venezuela pressiona a
OEA (Organização dos Estados Americanos) para
que monitore os regimes democráticos da região.
Agora com um discurso disfarçado de cooperação
militar, a Casa Branca crava suas bases no
território do país vizinho. Para os críticos,
atrás dessa retórica da defesa da democracia,
do combate ao narcotráfico e da luta contra o
terror, o que de fato existe nessa presença
estratégica é o interesse nas riquezas da região.
Fonte:
http://vestibular.uol.com.br/atualidades/ult1685u207.jhtm
(publicado no UOL em 04/10/2005
)
Estados Unidos e Paraguai
O que há por trás das bases militares norte-americanas?
Edilson Adão C. Silva*
Especial para o UOL
Fomos surpreendidos recentemente com a notícia
sobre a possibilidade de instalação de bases
norte-americanas em território paraguaio. Essa
possível instalação seria um passo posterior
a um estreitamento comercial preliminar entre os
dois países. O fato geopolítico chama a atenção
e nos obriga a algumas considerações.
Primeiramente, é preciso salientar que um
acordo comercial entre os dois países
americanos implicaria a revisão da presença do
Paraguai no Mercosul, pois as regras do bloco são
claras nesse sentido -não se permite alianças
comerciais em separado-, e o Paraguai teria que
optar entre os Estados Unidos e o Mercosul. O
custo ao país platino seria alto, pois as
exportações paraguaias estão orientadas
essencialmente para os parceiros do bloco
meridional, particularmente o Brasil.
De outro lado, é sintomático o esforço
norte-americano de uma maior presença militar
no subcontinente, num momento em que a América
do Sul nunca esteve tão à esquerda em toda sua
história. Ao contrário: a tradição
sul-americana é de ditaduras e regimes de
direita. Para citar alguns exemplos do presente
momento à esquerda: Chavez, na Venezuela, Lula
no Brasil, Basquez, no Uruguai, sem contar os
casos de Chile, Equador e ainda a Argentina. A
coroação do "esquerdismo"
sul-americano viria com a possível vitória de
Evo Morales, na Bolívia; o líder cocalero do
MAS (Movimento ao Socialismo) desponta como
principal nome nas eleições em dezembro de
2005.
Junte-se a esse momento político sul-americano
fortes interesses que a hiperpotência tem na
região: o gás boliviano, o petróleo
venezuelano, sem falar na suposta "cobiça"
amazônica, tantas vezes propaladas por geopolíticos
militares brasileiros.
Contudo, a justificativa norte-americana para
uma suposta intervenção na região reside,
basicamente, em dois fatores.
Primeiro, o combate ao narcotráfico colombiano,
atividade ilícita, mas que figura entre as mais
rentáveis do mundo - segundo estimativa da ONU,
próximo a US$ 1 trilhão anuais. A ilicitude
desta atividade alimenta o crime organizado
internacional e, conseqüentemente, está
recheada de episódios violentos. O Segundo
ponto de "preocupação"
norte-americana, seria uma suposta presença de
células
terroristas locadas na tríplice
fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai,
onde a presença da comunidade árabe-muçulmana
é, de fato, forte.
Como se vê, tal qual no Iraque ou no Afeganistão,
a justificativa para a suposta presença sempre
tem um fundo legítimo, afinal de contas existe
uma subconsciente simpatia pública contra
ditadores, traficantes, terroristas e drogas, e
os Estados Unidos estão sempre dispostos
"a livrar o mundo destes males".
O que falta informar é que próximo ao território
em que os Estados Unidos pretendem se instalar
localiza-se o Aqüífero Gurani, o maior
reservatório de água doce deste planeta. E
todos sabemos o quão preciso será o líqüido
para o mundo, nas próximas décadas.
* Edilson Adão C. Silva é professor do
Cursinho
da Poli, em São Paulo, e autor de
"Oriente Médio: a gênese das
fronteiras" (editora Zouk).
Fonte:
http://vestibular.uol.com.br/atualidades/ult1685u208.jhtm
(publicado no UOL em 06/10/2005)