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2006
se apagou. No finzinho, porém, o ano
que se foi juntou as últimas forças
e levou o Saddam e o Pinochet
com ele. Cada um com uma sorte
diferente. Pinochet, um velho amigo
americano, sucumbiu de morte
morrida, e praticamente em paz aos
91 anos teve um enterro com pompa
militar, apesar do repúdio de uma
parte da população chilena. Os
defensores de Pinochet, aliás,
sempre se gabaram que o Chile herdou
do governo dele a economia mais
sólida da América do Sul; o que,
além da amizade com a CIA, explica
muito da imunidade que o ditador
gozou em vida, apesar dos
comprovados crimes contra milhares
de chilenos: Pinochet deixou
dinheiro em caixa e isso é um
salvo-conduto para qualquer
governo.
Ao contrário do Saddam
Hussein. Esse não só perdeu a
amizade com os americanos depois da
desastrada invasão do Kuwait, como,
a partir disso, viu embargada a
venda do petróleo iraquiano como
punição. Sem dinheiro ou amizade,
Saddam foi enforcado como um
cachorro sarnento, julgado por um
tribunal formatado para isso; deixou
um país esfarrapado, dividido e,
mesmo assim, com parte dele lhe
atribuindo o valor de um mártir.
Para
muitos o bem e o mal não passam de
meras criações da inesgotável
imaginação do ser humano, assim como
Deus, o Diabo, o Saci Pererê e a
Scarlett Joahansson. Ou seja, a cada
época, inventa-se, conforme a
conveniência, o bicho que vai pegar.
Mas não há unanimidade no bicho.
Nunca houve. A idéia de mal e de bem
varia conforme a crença do sujeito,
o plano social em que ele vive, e,
em especial, quem é que está ditando
as regras na hora. Sequer nos casos comprovados como
Saddam e o Pinochet, há senso comum
que eles representem alguma
encarnação da maldade. O que
interessa é como ficou o pacto por
eles feito com quem detém a
hegemonia no mundo. Acrescente-se,
no caso de Saddam, que a imagem da
cabeça de um árabe balançando com a
corda no pescoço é muito conveniente
para o momento.
Saddam
e Pinochet foram ditadores
contumazes, mantiveram-se no poder
através dos malefícios da violência:
personagens maléficos de um século
de maldades. Um século que produziu
o Holocausto, por exemplo. E de um
novo século, um século iniciante,
mas que já produziu um 11 de
setembro e um contra-ataque genocida
no Iraque. A verdade é que o ser
humano se inventa e se reinventa num
ciclo interminável. A humanidade é
capaz de perceber, catalogar - e até
fazer um update a cada era do que é
o bem, o mal, o céu e o além.
Hitler
se matou, acuado pelas tropas
aliadas. Saddam recebeu um
julgamento sumário e de cartas
marcadas. Pinochet morreu de velho.
Mas e o Bush? Que tribunal irá
julgá-lo? De que forma a invasão do
Iraque e suas mortes abundantes será
punida? Pela forca?
José Pedro Goulart é
jornalista, cineasta e diretor
de filmes publicitários.
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