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A invenção do mal

Sexta, 5 de janeiro de 2007, 07h54 
José Pedro Goulart

          2006 se apagou. No finzinho, porém, o ano que se foi juntou as últimas forças e levou o Saddam e o Pinochet com ele. Cada um com uma sorte diferente. Pinochet, um velho amigo americano, sucumbiu de morte morrida, e praticamente em paz aos 91 anos teve um enterro com pompa militar, apesar do repúdio de uma parte da população chilena. Os defensores de Pinochet, aliás, sempre se gabaram que o Chile herdou do governo dele a economia mais sólida da América do Sul; o que, além da amizade com a CIA, explica muito da imunidade que o ditador gozou em vida, apesar dos comprovados crimes contra milhares de chilenos: Pinochet deixou dinheiro em caixa e isso é um salvo-conduto para qualquer governo.

          Ao contrário do Saddam Hussein. Esse não só perdeu a amizade com os americanos depois da desastrada invasão do Kuwait, como, a partir disso, viu embargada a venda do petróleo iraquiano como punição. Sem dinheiro ou amizade, Saddam foi enforcado como um cachorro sarnento, julgado por um tribunal formatado para isso; deixou um país esfarrapado, dividido e, mesmo assim, com parte dele lhe atribuindo o valor de um mártir.

          Para muitos o bem e o mal não passam de meras criações da inesgotável imaginação do ser humano, assim como Deus, o Diabo, o Saci Pererê e a Scarlett Joahansson. Ou seja, a cada época, inventa-se, conforme a conveniência, o bicho que vai pegar. Mas não há unanimidade no bicho. Nunca houve. A idéia de mal e de bem varia conforme a crença do sujeito, o plano social em que ele vive, e, em especial, quem é que está ditando as regras na hora. Sequer nos casos comprovados como Saddam e o Pinochet, há senso comum que eles representem alguma encarnação da maldade. O que interessa é como ficou o pacto por eles feito com quem detém a hegemonia no mundo. Acrescente-se, no caso de Saddam, que a imagem da cabeça de um árabe balançando com a corda no pescoço é muito conveniente para o momento.

          Saddam e Pinochet foram ditadores contumazes, mantiveram-se no poder através dos malefícios da violência: personagens maléficos de um século de maldades. Um século que produziu o Holocausto, por exemplo. E de um novo século, um século iniciante, mas que já produziu um 11 de setembro e um contra-ataque genocida no Iraque. A verdade é que o ser humano se inventa e se reinventa num ciclo interminável. A humanidade é capaz de perceber, catalogar - e até fazer um update a cada era do que é o bem, o mal, o céu e o além.

          Hitler se matou, acuado pelas tropas aliadas. Saddam recebeu um julgamento sumário e de cartas marcadas. Pinochet morreu de velho. Mas e o Bush? Que tribunal irá julgá-lo? De que forma a invasão do Iraque e suas mortes abundantes será punida? Pela forca?

José Pedro Goulart é jornalista, cineasta e diretor de filmes publicitários.

Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

 

 

               

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