“O primeiro objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente de repetir o que outras gerações fizeram – pessoas criativas, inventivas e descobridoras. O segundo objetivo da educação é formar mentes que possam ser criticas, possam verificar e não aceitar tudo que lhes é oferecido. ”(Piaget)
A Geografia, em seu
processo de desenvolvimento, veio
consolidando teoricamente sua
posição como uma ciência que busca
conhecer e explicar as múltiplas
dimensões envolvendo a sociedade e a
natureza, o que pressupõe um amplo
conjunto de interfaces com outras
áreas do conhecimento científico.
Compreender essa realidade espacial,
natural e humana como uma totalidade
dinâmica é um dos objetivos da
Geografia.
A Geografia é uma
ciência comprometida em tornar o
mundo compreensível, explicável e
passível de transformações pelas
sociedades. O ensino da Geografia,
por conseguinte, deve levar os
alunos a compreender melhor a
realidade na qual estão inseridos,
possibilitando que nela interfiram
de maneira consciente e propositiva.
Sua crescente atração e expansão
temática, nas últimas décadas, é
fruto da introdução e aprofundamento
de novas metodologias e tecnologias
de representação do espaço (geoprocessamento
e sistemas geográficos de
informação, cartografia
automatizada, sensoriamento remoto,
etc.); expansão do acervo teórico e
metodológico em nível de pesquisa
básica (campos temáticos tais como
geo-ecologia, geomorfologia, redes
geográficas, geografia urbana,
geografia cultural, geografia
econômica, geografia política e
recursos naturais, etc.), e da
pesquisa aplicada (planejamento e
gestão ambiental, urbana e rural).
A formação do aluno cidadão deve ser
construída paulatinamente em todas
as etapas da escolarização e as
disciplinas que compõem a área de
Ciências Humanas contribuem
efetivamente para este objetivo.
Ao longo dos anos, devemos sempre
estar atentos para que os alunos já
sabem a respeito do mundo social.
Eles trazem muitas reflexões
construídas a partir de observações,
do convívio social e de informações
veiculadas nos meios de comunicação.
Esses saberes devem ser
reforçados,
ampliados e até mesmo
reelaborados por
meio de incentivo à pesquisa,
estimulo à argumentação. Apoio à
criatividade. Intercâmbio de idéias,
análise e interpretação de diversas
fontes e linguagens.
O estudo do espaço
geográfico pressupõe a
compreensão da dinâmica da
sociedade, que nele vive e o (re)produz
constantemente, e da dinâmica da
natureza, fonte primeira de todo
real e permanentemente apropriada e
modificada pela ação do homem.
Ao buscar compreender as relações
econômicas, políticas, sociais e
suas práticas nas escalas
local, regional,
nacional e
global, a Geografia se
concentra e contribui, na realidade,
para pensar o espaço
enquanto uma totalidade na qual se
passam todas as relações
cotidianas
e se estabelecem as redes sociais
nas referidas escalas.
Precisa-se transformar a antiga
idéia, aceita e amplamente praticada
nas salas de aula, da Terra enquanto
espaço absoluto,
cartesiano, ou seja,
“uma coisa em si mesma, independente
[...],
constituindo um receptáculo que
contém coisas”,
para o
espaço relacional,
entendendo-se que
“um objeto somente pode existir na
medida em que ele contém e
representa dentro de si relações com
outros objetos”.
Surge, pois, o objeto dos nossos
estudos: o
espaço geográfico.
Definido por Milton Santos em sua
vasta obra sobre o assunto, é o
conjunto indissociável de
sistemas de objetos (redes
técnicas, prédios, ruas) e de
sistemas de ações
(organização do trabalho, produção,
circulação, consumo de mercadorias,
relações familiares e cotidianas),
que procura revelar as práticas
sociais dos diferentes grupos que
nele produzem, lutam, sonham, vivem
e fazem a vida caminhar.
Nunca o espaço do homem
foi tão importante para o
desenvolvimento da história. Por
isso, a Geografia é
a
ciência do presente,
ou seja, é inspirada na realidade
contemporânea.
O objetivo principal destes
conhecimentos é contribuir para o
entendimento do mundo atual, da
apropriação dos lugares realizada
pelos homens, pois é através da
organização do espaço que eles dão
sentido aos arranjos econômicos e
aos valores sociais e culturais
construídos historicamente. Com esta
idéia, procura-se, conforme o Artigo
35, inciso III da LDB
“o aprimoramento do educando como
pessoa humana incluindo a formação
ética e o desenvolvimento da
autonomia intelectual e do
pensamento crítico”.
No Ensino Fundamental,
o papel da Geografia é “alfabetizar”
o aluno espacialmente em suas
diversas escalas e
configurações,
dando-lhe suficiente capacitação
para manipular noções de
paisagem, espaço, natureza,
Estado e sociedade. No
Ensino Médio, o aluno deve
construir competências que permitam
a análise do real, revelando as
causas e efeitos, a intensidade, à
heterogeneidade e o contexto
espacial dos fenômenos que
configuram cada sociedade.
A distinção que aqui se faz é que
não se deve compreender o Ensino
Médio apenas dentro da ótica de
simples continuação do Fundamental
ou da redução de um curso de
graduação. O Ensino Médio é
o momento de ampliação das
possibilidades de um conhecimento
estruturado e mediado pela escola
que conduza à autonomia necessária
para o cidadão do novo milênio.
Seguindo os três princípios
filosóficos da concepção curricular
– princípios estéticos, políticos e
éticos –, a Geografia contribui para
esta formação, proporcionando ao
aluno:
• orientar o seu olhar para os
fenômenos ligados ao espaço,
reconhecendo-os não apenas a partir
da dicotomia sociedade-natureza, mas
tomando-os como produto das relações
que orientam seu cotidiano, definem
seu
“locus espacial”
e o interligam a outros conjuntos
espaciais;
• reconhecer as contradições e os
conflitos econômicos, sociais e
culturais, o que permite comparar e
avaliar qualidade de vida, hábitos,
formas de utilização e/ou exploração
de recursos e pessoas, em busca do
respeito às diferenças e de uma
organização social mais equânime;
• tornar-se sujeito do processo
ensino-aprendizagem para se
descobrir convivendo em escala
local, regional, nacional e global.
A autonomia que a identidade do
cidadão confere é necessária para
expressar sua responsabilidade com o
seu “lugar-mundo”, através de sua
identidade territorial.
O Ensino Médio deve
orientar a formação de um cidadão
para aprender a conhecer, aprender a
fazer, aprender a conviver e
aprender a ser. Isto é, deve buscar
um modo de transformar indivíduos
tutelados e infantilizados em
pessoas em pleno exercício da
cidadania, cujos saberes se revelem
em competências cognitivas,
sócio-afetivas e psicomotoras e nos
valores de sensibilidade e
solidariedade necessários ao
aprimoramento da vida neste País e
neste planeta.
Entendemos que, ao se
identificar com seu lugar
no mundo, ou seja, o espaço de sua
vida cotidiana, o aluno pode
estabelecer comparações, perceber
impasses, contradições e desafios do
nível local ao global. Sendo mais
problematizador que explicativo,
poderá lidar melhor com o volume e a
velocidade das informações e
transformações presentes, que, se
tomadas superficialmente, contribuem
para o individualismo e a alienação.
O objetivo principal da Geografia é
oferecer subsídios ao
desenvolvimento da cidadania,
fazendo com que o aluno
compreenda criticamente o mundo
em que vive desde a escala
local até a global
ou planetária.
Para isso, usa a Geografia
conceitos-chave, como
instrumentos capazes de realizar uma
análise científica do espaço.
O primeiro desses conceitos-chave é
o de
paisagem,
entendida como uma unidade visível
do arranjo espacial que a nossa
visão alcança. A paisagem
tem um caráter social, pois
ela é formada de movimentos impostos
pelo homem através do seu
trabalho, cultura,
emoção. A paisagem
é percebida pelos sentidos e nos
chega de maneira informal
ou formal, ou seja,
pelo senso comum ou de modo seletivo
e organizado. Ela é produto da
percepção e de um processo seletivo
de apreensão, mas necessita
passar a conhecimento espacial
organizado, para se tornar
verdadeiro dado geográfico. A partir
dela, podemos perceber a maior ou
menor complexidade da vida social.
Quando a compreendemos desta
forma, já estamos trabalhando com a
essência do fenômeno geográfico.
O conceito de
lugar
guarda uma dimensão prático-sensível
que a análise vai aos poucos
revelando. Lugar é
a porção do espaço
apropriável para a vida,
que é vivido, reconhecido e cria
identidade. Ele possui densidade
técnica, comunicacional,
informacional e normativa. Guarda em
si o movimento da vida, enquanto
dimensão do tempo passado e
presente. É nele que se dá a
cidadania, o quadro das mediações se
torna claro e a relação
sujeito-objeto direta.
É no lugar que ocorrem as relações
de consenso e conflito, dominação e
resistência. É a base da reprodução
da vida, da tríade
cidadão-identidade-lugar,
da reflexão sobre o cotidiano, onde
o banal e o familiar revelam as
transformações do mundo e servem de
referência para identificá-las e
explicá-las.
Os conceitos de
território
e
territorialidade
enquanto espaço definido e
delimitado por e a partir das
relações de poder, ou seja, quem
domina ou influencia e como domina e
influencia uma área. Implica avançar
da noção simplista de caracterização
natural ou econômica por
contigüidade para a noção de divisão
social. Todo território,
seja ele um quarteirão na cidade de
Nova York, seja uma aldeia indígena
na Amazônia, é definido e
delimitado segundo as relações de
poder, domínio e
apropriação que nele se
instalam. Desta maneira, a territorialidade
é a relação entre os agentes
sociais, políticos e econômicos,
interferindo na gestão do espaço
geográfico; não é apenas
uma expressão cartográfica.
Ela refere-se aos projetos e
práticas desses agentes,
numa dimensão concreta,
funcional,
simbólica, afetiva,
e manifesta-se em escala desde as
mais simples às mais complexas.
O individuo que não consegue
usar um mapa está impedido de
pensar sobre aspectos do
território que não estejam
registrados em sua memória. Está
limitado apenas aos
registros de imagens do
espaço vivido, o que o
impossibilita de realizar a operação
elementar de situar localidades
desconhecidas. (Almeida, 2006).
Assim, a Proposta Curricular
para o Ensino de Geografia do Estado
de São Paulo colocou a questão e uma
implicação direta do que foi
colocado também para a educação:
o ensino de mapas e de
outras formas de representação da
informação espacial é importante
tarefa da escola. É
função da escola preparar o
aluno para compreender a
organização espacial da sociedade,
o que exige o conhecimento
de técnicas e instrumentos
necessários à representação
gráfica dessa organização.
A Proposta Curricular coloca a
questão nos seguintes termos: A
territorialidade implica a
localização, a orientação e a
representação dos dados
socioeconômicos e naturais, que
contribuem para a compreensão da
totalidade do espaço. (...)
Localização/orientação/representação
são, portanto,
conhecimentos/habilidades
integrantes do processo de trabalho
e são utilizados de forma
diferenciada, já que o trabalho
também é diferenciado de acordo com
a organização da sociedade.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais
têm na “Cartografia – como
instrumento na aproximação dos
lugares e do mundo” um dos eixos de
trabalho só no 3º ciclo, um
equívoco, encontrado nos livros
didáticos, ou seja, concentrou-se o
assunto em um único tópico do
programa curricular, como se a
representação pudesse ser separada
dos conteúdos representados.
No Ensino Fundamental,
os
conhecimentos/habilidades de
representação espacial
devem ser desenvolvidos e
aprofundados desde o 1º até o 4º
ciclo, na medida em que são
inerentes aos estudos da Geografia.
Na verdade são habilidades
ligadas à leitura e à escrita,
no sentido amplo de
leitura e compreensão de mundo.
Ler e escrever,
em Geografia, exige domínio da
linguagem cartográfica.
CORRÊA,
Roberto Lobato.
Novos Rumos
da Geografia brasileira.
4. ed. São
Paulo: Hucitec, 1996, p.
26-7. Neste livro, o autor
mostra a transformação do
conceito de espaço ao longo
do tempo.
SANTOS,
Milton.
A natureza do
espaço:
técnica e
tempo, razão e emoção. 2.
ed. São Paulo: Hucitec,
1996. Em sua abordagem do
espaço, este autor leva em
conta as características do
espaço geográfico e da
sociedade em um dado momento
de sua evolução e sua
relação com o
desenvolvimento das
técnicas.
Cartografia - É um conjunto de estudos e operações científicas, técnicas e artísticas que, tendo como base os resultados de observações diretas ou a análise de documentação já existente, visa a elaboração de mapas, cartas e outras formas de expressão gráfica ou representação de objetos, elementos, fenômenos e ambientes físicos e socioeconômicos, bem como sua utilização. (IBGE)
