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Cartografia do Ensino
A geógrafa e professora da Faculdade de Educação da USP alerta sobre as apostilas escolares e sobre a importância da formação inicial e continuada do professor. Entrevista concedida à Revista Discutindo a Geografia, edição nº 17.

 

          Professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a geógrafa Nídia Nacib Pontuschka, tem 27 anos de experiência nas salas de aula da rede pública paulista. Tamanha dedicação é fruto da paixão que nutre por esses dois universos: a educação e a geografia. Hoje ela acompanha estagiários e ajuda a formar novos profissionais do ensino da geografia.


          Antes mesmo de concluir o curso de geografia da USP, há 45 anos, Nídia lecionava no antigo primário, equivalente hoje ao ensino fundamental– o que estica o currículo da educadora para 50 anos de sala de aula. Aos 69 de idade, a professora planeja continuar na universidade apesar da aposentadoria compulsória no ano que vem.


          Em entrevista à Discutindo Geografia, Nídia fala sobre a formação dos professores, a qualidade dos livros didáticos e outras questões que cercam o ensino da geografia nas escolas e universidades.

 

DISCUTINDO GEOGRAFIA – Recentemente houve polêmica em torno de um livro didático de geografia que mostrava um mapa com as áreas dominadas por organizações criminosas no Rio de Janeiro. O que a senhora achou das críticas ao material, como as feitas pelo prefeito carioca Cesar Maia?


NÍDIA PONTUSCHKA – O livro didático tem uma responsabilidade social muito grande na formação dos alunos. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde o turismo é muito importante, os políticos ficam muito bravos quando acontece uma coisa dessas. No entanto, qualquer criança que assiste à televisão sabe dessa questão da espacialização dos grupos, que podemos chamar de poderes paralelos. Esse fato está presente tanto no Rio quanto em outras grandes cidades do Brasil. É tapar o sol com a peneira. O que houve foi censura mesmo. Felizmente, não foi censura da sociedade, foi de grupos específicos e que a gente não deve aceitar.

 

DG – Como está a qualidade dos livros didáticos brasileiros?


NP – A qualidade vem melhorando. A questão que se coloca hoje são principalmente as apostilas. O livro didático passa por professores avaliadores, chamados pelo governo federal. As apostilas não. Se muitas vezes criticamos os livros, a crítica às apostilas são muito mais sérias. As prefeituras estão comprando esse material de órgãos que tratam da geografia de forma abstrata, muitas vezes voltado apenas para o vestibular. A mediação do professor é superimportante para o uso dos livros didáticos, e não sei como ela tem sido feita no caso das apostilas. Essa questão não está sendo discutida convenientemente pelas várias secretarias da Educação e entidades culturais. É um problema sério em todas as disciplinas escolares. E, para a geografia, é muito sério porque temos que trabalhar com mapas, gráficos e fotografias que exigem uma qualidade bem superior à que as apostilas apresentam.

 

A crítica às apostilas são muito mais sérias.
As prefeituras estão comprando esse material de órgãos que tratam da geografia de forma abstrata, muitas vezes
voltado apenas para o vestibular.

DG – É possível um livro didático imparcial?


NP – Pela leitura do livro, você descobre rapidamente quais são as correntes que aquele autor persegue. Depende do professor detectar isso. Não é uma análise tão rápida. É um aprofundamento que demanda a leitura do livro no seu todo, da sua estruturação, dos autores, dos exercícios. O livro didático é um material complicado porque é uma mercadoria, cujo principal comprador é o Estado, e é ao mesmo tempo uma produção. E, embora o livro leve o nome de um autor, há toda uma equipe de produção. Você tem de ter um cuidado muito grande com dois aspectos: pensar na forma, pensar no conteúdo. Muitas vezes, isso em geografia é terrível porque, às vezes, você põe um mapa aqui e onde se fala sobre aquele conteúdo está deslocado.


DG – Como trabalhar as questões regionais com os livros didáticos?


NP – Será que um livro que produzimos com as nossas experiências em São Paulo dá conta da realidade de Rondônia, do Acre ou dos ribeirinhos? O professor precisa do livro, mas tem de sair dele para poder fazer essa articulação entre o que é Porto Velho, por exemplo, e o que somos nós [em São Paulo]. O livro traz uma proposta do autor. Não é uma proposta que seja adequada a todas as escolas. E essa adequação quem faz é o professor.

 

DG – Qual a importância da disponibilidade de materiais de apoio para as aulas de geografia, como mapas, fotos e outros recursos?


NP – Precisamos de recursos didáticos. Não é possível para os professores dar um grande número de aulas e ainda produzir material. Para produzir um texto você tem de ler, tem de estudar. Se ele tivesse horas de trabalho para isso seria ótimo. Mas não é a nossa realidade. Então há a necessidade de recursos, de mapas, de gráficos, de imagens de satélite. Mesmo para selecionar esse material, o professor tem de ter tempo e uma boa formação.


DG – Como está a formação do professor para trabalhar com os diferentes recursos didáticos?


NP – As escolas, sejam particulares, sejam públicas, têm de prover formação continuada dos professores. Se não houver, a escola pode oferecer um equipamento superatualizado e o professor não consegue explorá-lo convenientemente. A formação inicial é importante, mas a geografia muda, as pesquisas cada vez mais são aceleradas, o mundo muda e há necessidade de que a escola, além de prover o ensino, promova também a continuidade da formação do professor

 

DG – As escolas têm dado esse suporte?

O professor hoje sofre muito mais do que eu sofri. Sofre porque as pessoas estão sem saber que soluções dar para vários tipos de escola.


NP – Que eu saiba, algumas sim, mas poucas. Não acredito que um professor isolado faça alguma coisa. Há a necessidade do coletivo. Os professores, pela própria formação extremamente individualizada e competitiva da maioria das universidades, não tiveram oportunidade de trabalhar junto, de conviver com pessoas diferentes. Isso interfere demais no processo pedagógico das escolas. A geografia é extremamente importante, mas ela não consegue – assim como as outras disciplinas não conseguem – ser ensinada em um ambiente escolar extremamente desorganizado.


DG – Os cursos formam professores de geografia capacitados para a sala de aula?


NP – Nesta semana, nas aulas de metodologia do ensino de geografia, estamos discutindo os estágios com os alunos da formação inicial. Alguns dizem que não querem ser professor. É resultado da indisciplina que está ocorrendo nas escolas. Há uma mensagem para nós educadores:“nós não queremos a escola do jeito que está”. E isso não é válido só para as escolas públicas. Em relação à formação, no nosso caso [na USP], os alunos têm o bacharelado e seis disciplinas, mais o estágio. Acho que as licenciaturas têm de ter um equilíbrio maior entre os conteúdos geográficos e educacionais. A pós-graduação serviria para aqueles que quisessem se aprofundar em uma das áreas da geografia. Mas, para ser professor, os alunos teriam de ter uma certa seleção das disciplinas de geografia e ao mesmo tempo conhecer educação.


DG – A realidade das escolas de hoje é muito diferente daquela daépoca que a senhora lecionou nos antigos 1º e 2º graus?


NP – Fui professora primária enquanto fazia o curso de geografia. Depois prestei concurso e fui trabalhar em Taboão da Serra [município da Grande São Paulo]. Depois vim para a escola aqui no Parque Continental [bairro próximo à USP], onde fiquei 11 anos. Quando lecionava no Taboão, havia uma outra periferia em São Paulo, na década de 1960, início de 1970. O professor hoje sofre muito mais do que eu sofri. Sofre porque as pessoas estão sem saber que soluções dar para vários tipos de escola. Às vezes fico me perguntando como seria se desse aula na periferia de São Paulo hoje. Eu seria uma professora satisfatória como fui considerada no passado? Mas essa experiência, principalmente na escola pública, acho que todo mundo que pretende um dia ser professor universitário deveria ter.

DG – O que a motivou a ser professora universitária?


NP – Saí da sala do ensino básico porque recebia estagiários e eles eram superimportantes para mim. Lembro bem a pergunta de um estagiário, que nem era de geografia, era de ciências sociais: “Nídia, por que vocês estudam no primeiro ano [do 2º grau] agricultura, quando vocês estão no meio de uma área industrial?”. Uma pergunta assim te ilumina. Esse aluno foi fazer um estudo do meio comigo em um farol no Jaguaré [bairro próximo à escola]. Sabe que ele chorou quando viu uma parte de São Paulo em 360 graus? Chorou porque não era prática em ciências sociais fazer trabalho de campo. Tudo isso mexia comigo. E os estagiários são muito mais próximos dos alunos do que nós, professores. É uma ponte entre a universidade e a escola.


DG –
Você é geógrafa e seu irmão também, o professor Aziz Ab’Saber. A paixão por geografia é coisa de família?


NP – O Aziz, acho que é paixão. Não tenho dúvida de que quando ele fala da geografia, aquilo é muito forte na vida dele. Com 83 anos, ele continua a estudar. Para mim, é um pouco diferente. Sempre quis ser professora. Desde criança, pegava a meninada e queria ensinar qualquer coisa. Admirava as professoras, naquela época em que a professora primária era extremamente valorizada. Na hora de prestar o vestibular, fiquei entre matemática e geografia. Gostava muito de matemática, era uma ótima aluna. Mas tinha toda a influência do Aziz, que chegava em casa, falava das discussões. Estava quase indo para matemática. Mas, como eu fiz o normal [antiga divisão do ensino médio relacionada às disciplinas de magistério], várias pessoas diziam que eu teria dificuldade no vestibular. E daí outra área que eu ia muito bem era geografia. Não era uma geografia decorativa, os meus professores eram bons, discutiam os problemas. Agora fico pensando “ainda bem que não fiz matemática”. A geografia diz respeito ao espaço criado pelos homens. Algumas pessoas acham que eu me afastei da geografia. Acho que não. Porque é o professor de geografia que está ensinando e formando pessoas e tentando, com maior ou menor dificuldade, fazer com que o espaço esteja presente, conscientemente, para a pessoa saber como se insere nesse espaço, assim como ela se insere na história. É uma coisa extremamente importante. Gosto demais da geografia, mas eu gosto muito da educação. Então estou fazendo a inter-relação.

 
 
Disponível em: http://www.discutindogeografia.com.br/reporte17entrevista.asp

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