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O
que é a Geografia? Essa é uma questão que
atravessa séculos, com diferentes pontos de
vista. Um especialista
chegou até a dizer -- com um visível
exagero -- que existem tantas geografias
quantos geógrafos. É lógico que o
importante são os trabalhos de pesquisa, as
novas idéias (sobre o espaço mundial,
sobre uma região, um lugar, um processo na
sua dimensão espacial...), e não a definição
do que é esse saber ou essa modalidade do
conhecimento. Ater-se rigidamente a uma
definição ou delimitação (pois toda
definição delimita, cerca, estabelece
limites) na maioria das vezes até mesmo
atrapalha o avanço do conhecimento. Mas
implícita ou explícitamente essa questão
do que é a Geografia emerge dos trabalhos
geográficos e podemos mesmo dizer que ela
se atualiza constantemente. Todo novo
estudo, desde que seja inovador, toda nova
abordagem contribui para essa permanente
redefinição do(s) objeto(s) de estudos. É
por isso que afirmou-se que a Geografia --
mas o mesmo poderia ser dito da Física, da
História, da Antropologia etc. -- é ao
mesmo tempo uma tradição, um corpo de
conhecimentos e métodos, e também um
vir-a-ser, um processo que encerra uma certa
indeterminação e que se redefine com as
novas pesquisas. A Geografia pode ser algo
num determinado contexto -- numa época, num
lugar, numa corrente de pensamento -- e
outra coisa (relativamente) diferente num
outro contexto.
Não
objetivamos aqui definir Geografia. Apenas
reproduzimos algumas definições -- ou
alguns comentários
sobre o que é a Geografia ou qual é a sua
importância -- que foram dadas no decorrer
dos tempos. Vamos dividir essas falas em
quatro grupos. A primeira refere-se aos geógrafos
(se é que eles podem ser assim denominados)
clássicos, anteriores à sistematização
da geografia moderna no século XIX. Na
verdade eles eram viajantes, mapeadores ou
conhecedores de lugares, estrategistas e
principalmente estudiosos (ou seja, eram ao
mesmo tempo filósofos, físicos, astrônomos,
historiadores, geógrafos...) O segundo
grupo é formado por geógrafos modernos ou
"científicos" (como eles se
autodenominavam), que promoveram ou
expandiram a institucionalização acadêmica
da disciplina nos séculos XIX e XX (até os
anos 1970). O terceiro grupo é formado
pelos críticos ou radicais, e também pelos
fenomenológicos, os geógrafos que
procuraram revolucionar ou reconstruír o
saber geográfico a partir da década de
1970. E o quarto grupo é formado por não
geógrafos, por escritores, políticos ou
cientistas em geral (físicos,
historiadores...) que proferiram comentários
a respeito da natureza da Geografia. Neste
último grupo predominam as falas que
enfatizam a importância da geografia (ou do
seu ensino), mas também incluimos uma -- do
escritor argentino Borges -- que faz uso de
uma metáfora brincalhona, que na realidade
usa uma visão estereotipada da geografia
como um saber enciclopédico e descritivo
(algo que foi mais ou menos verdadeiro até
o século XIX), e isso com o objetivo de
trazer um pouco de humor neste campo em
geral árido e circunspeto.
1.
Pontos de vista clássicos:
"A
Geografia é uma ciência como qualquer
outra e interessa sobremaneira ao filósofo.
Ela se ocupa do estudo ou descrição da
Terra. A maior parte da Geografia satisfaz a
necessidade dos Estados(...) A Geografia em
seu conjunto tem um vículo com as
atividades dos dirigentes. Os grandes
generais são, sem exceção, homens capazes
do
governar por terra e por mar, de unir povos
sob um governo ou uma administração pública(...)
Até mesmo um caçador terá mais êxito se
conhecer a natureza e a extensão do bosque
e, além do mais, só aquele que conhece uma
região pode escolher o melhor lugar para
acampar, para fazer uma emboscada ou para
dirigir uma campanha militar."
(ESTRABÃO, século I a.C.).
"O
propósito da Geografia é oferecer uma 'visão
de conjunto' da Terra localizando e mapeando
os lugares ou regiões" (PTOLOMEU,
150 d.C.).
"A
Geografia é uma descrição geral do mundo.
Ela se divide em duas partes: uma geral e
outra especial. A primeira estuda a Terra em
seu conjunto, explicando as suas diversas
partes e características. A segunda, ou
seja, a geografia especial [regional],
respeitando os conceitos gerais, estuda as
regiões concretas: suas localizações,
divisões, limites e outros aspectos dignos
de serem conhecidos." (Bernard
VARENIUS, século XVII).
"A
Geografia é uma disciplina sinóptica que
procura sintetizar os achados de outras ciências
por meio do conceito de 'Raum' [área ou
espaço]. Ela pode ser dividida em
geografia física e mais cinco modalidades.
A geografia matemática, que estuda a forma,
tamanho e movimentos da Terra, assim como as
suas relações com o sistema solar. A
geografia moral, que explica os diversos
costumes e características dos povos de
diferentes regiões. A geografia política,
que relaciona a organização política de
um Estado com a sua geografia física [seu
território]. A geografia comercial, que
se ocupa dos intercâmbios mercantis. E a
geografia teológica, que estuda as
transformações dos princípios teológicos
em virtude do terreno(...) A História e a
Geografia podem ser vistas como uma descrição,
com a diferença que a primeira ocupa-se do
tempo e a segunda do espaço. A História
estuda a relação dos acontecimentos no
tempo e a Geografia estuda a relação dos
fatos que se dão uns junto com os outros no
espaço" (Emmanuel KANT, século
XVIII).
2.
Pontos de vista modernos:
"A
Geografia é uma ciência síntetizadora que
conecta o geral com o especial através do
levantamento, do mapeamento e da ênfase no
regional. Ela se ocupa da influência que o
meio físico exerce sobre o Homem e procura
interligar o estudo da natureza física com
o estudo da natureza moral para se chegar a
uma visão harmonizante [entre a
humanidade e o meio físico]"
(Alexander Von HUMBOLDT, meados do século
XIX).
"O
objetivo da Geografia não é o de
simplesmente reunir e elaborar uma massa de
informações [sobre a Terra ou as regiões],
como faziam os meus predecessores, e sim
assinalar as 'leis gerais' que explicam a
diversidade natural, mostrar a sua conexão
com qualquer fato singular e indicar numa
perspectiva histórica a perfeita unidade e
harmonia que existe, por trás da aparente
diversidade e capricho que prevalece no
planeta, entre a natureza e o Homem."
(Karl RITTER, meados do século XIX).
"O
que é a Geografia? A resposta pode ser dada
através da seguinte pergunta: Pode a
Geografia converter-se numa ciência ao invés
de um simples amontoado de informações?
Essa é uma questão que diz respeito ao
objeto e aos métodos da nossa disciplina.
Mas existe ainda uma outra interrogação
preliminar: A Geografia é una ou múltipla?
Ou, em outras palavras, a geografia física
e a política constituem duas etapas de uma
mesma investigação ou são temas
diferentes que devem ser estudados por métodos
distintos, sendo uma um apêndice da
geologia e a outra um apêndice da história?
(...) Proponho uma definição de Geografia
como a ciência que se ocupa da interação
entre o homem em sociedade e o seu meio
ambiente. As comunidades humanas devem ser
consideradas como unidades em luta pela
existência, mais ou menos favorecida pelo
seu meio. As duas partes da Geografia se
complementam. A geografia física analisa os
fatores do meio ambiente com as suas variações
e a geografia política demonstra as relações
que existem entre a sociedade e as variações
locais do seu meio. A Geografia tem uma
dimensão teórica [o ensino, a pesquisa
pura] e uma outra prática e inseparável
[a sua utilidade para o Estado e para as
atividades mercantis]." (Halford J.
MACKINDER, 1887).
"A
Geografia deve ser, em primeiro lugar, um
estudo das leis que modificam a superfície
terrestre: as leis que determinam o
crescimento e desaparição dos continentes,
suas configurações passadas e
presente(...) A Geografia deve, em segundo
lugar, estudar as consequências da
distribuição dos continentes e mares, das
elevações e depressões, dos efeitos da
penetração do mar e das grandes massas de
água no clima. Ela deve ainda explicar a
distribuição geográfica dos seres vivos,
animais e vegetais. E a quarta função da
Geografia refere-se aos grupos humanos sobre
a superfície da Terra. Suas distribuições,
seus traços distintos, a distribuição
geográfica das etnias, dos credos, dos
costumes, das formas de propriedade e as
relações disso tudo com o meio
ambiente(...) O ensino da Geografia deve
perseguir um triplo objetivo. Deve despertar
nos alunos a afeição pela natureza. Deve
ensinar-lhes que todos os seres humanos são
irmãos qualquer que seja a sua
nacionalidade ou a sua 'raça'. E deve
inculcar o respeito pelas culturas ditas
'inferiores'." (Prior KROPOTKIN, 1885).
"A
Geografia enquanto um 'conhecimento da
Terra' seria uma ciência da Terra [geociência].
Alguns autores, como Gerland, desejam
excluir o Homem da Geografia. Outros desejam
conhecer as influências exercidas pela
natureza sobre o Homem. [Contudo] A
definição da Geografia como ciência da
Terra não é consequente. A Geografia pode
ser definida como o conhecimento do espaço
terrestre, sendo ao mesmo tempo uma ciência
concreta e corológica. Essa distinção
entre ciências abstratas e concretas foi
estabelecida por A. Comte. E foi Kant quem
estabeleceu a distinção entre ciências
sistemáticas [como a Física],
cronológicas [como a História] e
corológicas ou espaciais [como a Geografia].
Ela procura compreender a diferenciação
local dos elementos naturais e humanos(...)
O geógrafo que não se preocupa com o
conhecimento das regiões corre o perigo de
ficar completamente desprovido de fundamento
geográfico. O conhecimento das regiões,
mesmo sem a geografia geral, continua sendo
um conhecimento geográfico. Em
contrapartida, a geografia geral sem o
conhecimento das regiões de maneira nenhuma
pode cumprir o papel da Geografia e com
frequência situa-se fora do âmbito desta
disciplina." (Alfred HETTNER,
1905).
"Um
indivíduo geográfico não resulta somente
das condições geológicas e climáticas. Não
é completamente livre das mãos da
natureza, mas é um homem que revela a sua
individualidade moldando um território para
o seu próprio uso. A Geografia tem como
missão investigar como as leis físicas ou
biológicas que regem o globo se combinam e
se modificam ao aplicarem-se às diversas
partes da superfície terrestre. A geografia
tem como missão especial estudar as expressões
cambiantes que existem nos diversos
lugares(...) O geógrafo deve buscar o
encadeamento e a unidade dos elementos que
agem sobre a superfície terrestre. A Terra
é o domínio do Homem. Mas é preciso que a
humanidade conheça o seu domínio para dele
desfrutar e para fazer-se valer. A Geografia
tem com função ensinar isso."
(Paul VIDAL DE LA BLACHE, 1913).
"A
Geografia, tal como a História, é
essencial para a compreensão total da
realidade. Elas se assemelham na medida em
qua ambas são ciências integradoras e
interessadas no estudo do mundo. Existe,
portanto, uma relação universal e mútua
entre elas, inclusive se suas bases de
integração são num certo sentido opostas
-- a Geografia em função dos espaços
terrestres e a História em função dos períodos
de tempo -- , a interpretação das
configurações geográficas atuais requer
um certo conhecimento do desenvolvimento
histórico. Da mesma maneira, a interpretação
dos acontecimentos históricos requer um
certo conhecimento do seu contexto geográfico(...)
A Geografia estuda as diferenciações entre
as áreas da superfície terrestre e por
conseguinte seleciona os fenômenos a serem
considerados em função do seu significado
geográfico. Ao estudar a inter-relação
entre esses fenômenos [físicos e
humanos], a Geografia depende em primeiro
lugar da comparação de mapas que
representam a expressão regional dos fenômenos
individuais, ou dos fenômenos
inter-relacionados." (Richard
HARTSHORNE, 1939).
"A
Geografia encontrou um objeto próprio através
do estudo das paisagens. É um objeto que
relaciona as ciências naturais, as humanas,
econômicas e sociais. Na literatura geográfica
alemã foi S.Passarge o primeiro que usou a
denominação 'geografia da paisagem' e,
desde 1913, propôs em várias obras o
conceito de 'ciência da paisagem'. A
palavra alemã 'Landschaft' (paisagem)
existe há mais de mil anos e teve uma
interessante evolução linguística. É um
conceito presente na ciência e na arte. Na
ciência, somente a geografia deu um uso a
esse conceito e o transformou num objeto de
estudos. A partir daí o movimento de proteção
da natureza e o paisagismo cunharam os
conceitos de proteção, conservação e
criação da paisagem. Podemos distinguir o
aspecto fisionômico ou formal da paisagem
do seu aspecto fisiológico ou funcional. O
primeiro diz respeito ao espaço como uma
totalidade e o segundo refere-se à interação
entre todos os geofatores: os naturais, os
econômicos e os culturais." (Karl
TROLL, 1950).
"É
útil dividir uma ciência em três
elementos: a lógica, os fatos de observação
e a teoria. A lógica inclui a Matemática e
tem a ver com a relação entre os símbolos.
Os fatos de observação [isto é, o(s)
objeto(s) de estudos] devem ser
designados operacionalmente, já que somente
através de uma descrição exata de como
foi feita uma observação é que se pode
idenfificar um fato particular. A teoria se
forma por união do sistema lógico com os
fatos definidos operacionalmente. A teoria
é o coração da ciência, porque uma
teoria científica é a chave para abrir a
realidade(...) Existem dois problemas que
dificultam tratar a Geografia como ciência.
O primeiro refere-se à função da descrição
na Geografia e o segundo à possibilidade de
predição dos fenômenos geográficos.
Existem autores que sustentam que a descrição
não é científica. Essa posição é
insustentável. Existe uma infinidade de
fatos e qualquer descrição é sempre
seletiva. Os geógrafos estão sempre
buscando algo que considerem significante. A
significação só pode ser julgada por
outro fenômeno. Isso implica numa relação
e esta numa teoria(...) Na Geografia, como
em qualquer outra ciência, existe uma
interação contínua entre lógica, teoria
e fatos (descrição). Nenhuma pode ser
separada das demais. Devido a isso é
absurdo pretender que uma das três, no caso
a descrição, seria 'mais geográfica' que
as outras. O problema da Geografia consiste
em encontrar uma maneira mais econômica de
ordenar nossa percepção dos fatos. A
predibilidade dos fenômenos geográficos
depende da resposta a esta pergunta: São os
fenômenos geográficos únicos ou gerais?
Se eles são únicos [irrepetíveis,
originais] não são preditíveis e não
se pode construir teorias. Se eles são
gerais são preditíveis e podem originar
teorias. Muitos geógrafos confundem casos
'unicos' com 'individuais'. Eles imaginarm
que os fenômenos geográficos são únicos
e portanto não teorizáveis de forma lógica.
Mas eles são individuais, e o caso
individual implica não em unicidade e sim
numa generalidade. Por exemplo, aceita-se
que existe uma teoria que explica a formação
de ilhas. Mas só existe uma ilha de
Manhatan. Nesse sentido a ilha de Manhatan
corresponde à teoria das ilhas embora seja
diferente de todas as outras ilhas devido a
uma combinação quantitativa particular de
fatos." (William BUNGE, 1962).
"A
Geografia é uma ciência humana. O espaço
terrestre é objeto de estudo geográfico na
medida em que é, sob uma forma qualquer, um
meio de vida ou uma fonte de vida, ou uma
indispensável passagem para aceder a um
meio de vida ou a uma fonte de vida(...) A
Geografia aparece assim como uma ciência do
espaço em função do que ele oferece ou
fornece aos homens. Como ciência do espaço,
ela é chamada a fazer balanços do que
representa globalmente esse espaço para os
homens que aí vivem. A Geografia
compartilha com as ciências da Terra a
característica de ciência do espaço, mas
não tem os mesmos objetivos que elas. Para
situar as coletividades humanas em seu
quadro, empresta às ciências da Terra seus
resultados, se necessário seus métodos.
Mas é mais sintética que elas. O geógrafo
deve ter uma competência que lhe torne
inteligíveis, simultaneamente, processos
geológicos, climatológicos, hidrológicos,
biológicos. Esta é a condição de uma
representação total do meio percebido
globalmente pelas coletividades que o
ocupam(...) A Geografia é o resultado e o
prolongamento da História. O objetivo dos métodos
geógraficos é o conhecimento de 'situações'.
Uma situação é a resultante num dado
momento -- que é por definição, em
Geografia, o momento presente -- de um
conjunto de ações que se contrariam, se
moderam ou se reforçam e sofrem os efeitos
de acelerações, de freios ou de inibições
por parte dos elementos duráveis do meio e
das seqüelas das situações anteriores. O
estudo de uma situação pode proceder de
uma concepção contemplativa ou de uma
concepção ativa(...) Assim definida, a
Geografia se apresenta como uma imagem
'instantânea' do mundo. O geógrafo é por
definição o agente de coordenação, o
intermediário natural entre o exército de
técnicos especializados e a política que
toma as decisões." (Pierre GEORGE,
1964).
3.
Pontos de vista radicais, críticos e/ou
humanistas:
"Através
desta revista desejamos desenvolver
paradigmas alternativos para estudar o
presente, investigar formas de mudança
radical com vistas a sociedades futuras mais
justas. A revista 'Antipode' foi gerada pela
aparente falta de preocupação da nossa
disciplina [a Geografia] com as questões
sociais. Uma década de mudanças nos 'métodos'
da investigação geográfica [a revolução
quantitativa] não foi suficiente para
suscitar uma alteração na 'direção' das
preocupações geográficas(...) Nosso
objetivo é uma mudança radical -- a
substituição das instituições e o ajuste
institucional de nossa sociedade com vista a
novos objetivos(...) A 'nova esquerda geográfica'
difere do velho liberalismo nos seus níveis
de compromisso e na sua crença em um
processo de mudança radical. Isso significa
principalmente três coisas: pleitear uma
sociedade mais equitativa na qual se
erradique a pobreza, o sofrimento e o
decadente sentimento de inutilidade e
inevitabilidade; trabalhar para a consecução
de uma mudança radical empregando todas as
técnicas à nossa disposição com o propósito
de romper e reconstruir a estrutura de opiniões
convencionais; e organizar-se para uma ação
efetiva dentro da Geografia acadêmica, que
em geral é profundamente conservadora."
(Richard PEET e Outros, número 1 da revista
Antipode, 1969).
"Como
e por que tentaríamos chegar a uma revolução
no pensamento geográfico? Khun oferece uma
análise interessante desse fenômeno, tal
como ocorre nas ciências naturais. Ele
sugeriu que a maior parte da atividade científica
é o que ele chama de ciência de rotina. Na
prática dessa rotina surgem determinadas
anomalias -- observações ou paradoxos que
não podem ser resolvidos dentro do
paradigma dominante. Essas anomalias
tornam-se o foco de crescente atenção até
que a ciência é mergulhada num período de
crise, do qual surge eventualmente uma nova
série de conceitos, categorias, relações
e métodos, inaugurando-se assim um novo
paradigma que é seguido, mais uma vez, pela
ciência de rotina(...) A história do
pensamento geográfico dos últimos dez anos
está exatamente espelhada nessa análise. A
proposição central da velha Geografia era
o qualitativo e o único. Ela não podia
resistir à orientação das ciências
sociais em direção a instrumentos de
manipulação e controle social. A revolução
quantitativa criou um novo paradigma,
abrindo o panorama para novas metodologias.
Por fim, novas coisas por medir existiam em
abundância(...) A revolução quantitativa
percorreu o seu curso e está aparentemente
consolidada. Em adição, há jovens geógrafos
agora, tão ambiciosos quanto eram os
quantitativos na década de 1960, um pouco
famintos por reconhecimentos e um tanto
desencantados com o que fazer. Mais
importante: há uma clara disparidade entre
a teoria sofisticada e a estrutura metodológica
que usamos e nossa habilidade em dizer
qualquer coisa realmente significativa sobre
os eventos. Há anomalias entre o que
tentamos explicar e manipular e o que
realmente acontece. Há um problema ecológico,
um problema urbano, um problema do comércio
internacional, e não obstante parecemos
incapazes de dizer qualquer coisa de fundo
ou profunda sobre qualquer deles. Quando
dizemos algumas coisa parece trivial ou
talvez ridícula. Em resumo, nosso paradigma
não está resistindo bem. Como podemos
realizar tal revolução [epistemológica]?
Poderíamos abandonar a base positivista do
movimento quantitativo seja por bases
fenomenológicas seja por um idealismo filosófico
ou por uma base materialista, dialética e
histórica. O marxismo e o positivismo têm
em comum uma base materialista e um método
analítico. A diferença é que o
positivismo simplesmente procura entender o
mundo enquanto o marxismo procura mudá-lo."
(David HARVEY, 1973).
"Todo
mundo acredita que a Geografia não passa de
uma disciplina escolar e universitária maçante
e simplória, cuja função seria fornecer
elementos de uma descrição
'desinteressada' do mundo. A despeito das
aparências cuidadosamente mantidas, os
problemas da Geografia interessam a todos os
cidadãos. Pois a Geografia serve, em princípio,
para fazer a guerra. Isso não significa que
ela sirva apenas para conduzir operações
militares. Ela serve também para organizar
territórios, para melhor controlar os
homens sobre os quais o aparelho de Estado
exerce a sua autoridade. A Geografia é,
desde o início, um saber estratégico
estreitamento ligado a um conjunto de práticas
políticas e militares(...) A fraqueza da análise
marxista na Geografia não é surpeendente.
Existe um silêncio, um 'branco' na obra de
Marx no que diz respeito aos aspectos
espaciais. Quanto mais Marx organiza o seu
raciocínio com referência constante ao
tempo e à história, mais ele se mostra
indiferente aos problemas do espaço. Esse
pouco interesse de Marx em relação aos
problemas geográficos tem, ainda hoje,
graves conseqüências. Para os marxistas o
essencial da argumentação política se
define em relação ao tempo, se expressa em
termos históricos. Só raramente se faz
referência ao espaço e, ainda assim, de
uma forma muito alusiva e negligente. É
contudo o espaço o domínio estratégico
por excelência, o terreno onde se defrontam
as forças em presença e onde se travam as
lutas." (Yves LACOSTE, 1976).
"A
Geografia é o estudo da Terra como morada
da humanidade. A superfície terrestre é
extremamente variada. Mesmo um conhecimento
casual com sua geografia física e a abundância
de formas de vida, muito nos dizem. Mas são
mais variadas as maneiras como as pessoas
percebem e avaliam essa superfície. Duas
pessoas não vêm a mesma realidade(...) O
termo topofilia associa sentimento com
lugar. O estudo da percepção, as atitudes
e dos valores do meio ambiente é
extraordinariamente complexo. A cultura e o
meio ambiente determinam em grande parte
quais os sentidos são privilegiados. No
mundo moderno tende-se a dar ênfase à visão
em detrimento dos outros sentidos; o olfato
e o tato, principalmente, por requererem
proximidade e ritmo lento para funcionar e
por despertarem emoções. Certos meios
ambientes naturais têm figurado nos sonhos
da humanidade de um mundo ideal: a floresta,
a praia, o vale e a ilha. A construção do
mundo ideal é uma questão de remover os
defeitos do mundo real. A Geografia fornece
necessariamente o conteúdo do sentimento
topofílico. Os paraísos têm uma certa
semelhança familiar porque os excessos da
geografia (muito quente ou muito frio, muito
úmido ou muito seco) são removidos."
(Yi-Fu TUAN, 1974).
"Os
geógrafos e os sociólogos descobriram no
decurso destes últimos anos a expressão
'produção do espaço'. Ela implica a
predominância dos mecanismos econômicos na
regulação e na alienação do espaço.
Deveria ser substituída por um outro termo,
numa perspectiva dinâmica de superação:
'criação de espaço'. Este supõe que ao
domínio das limitações materiais se venha
juntar o poder de dar vida a uma obra. Com
efeito, o espaço é uma obra [uma arte].
Para captarmos toda a sua força é
conveniente analisarmos o espaço além do
seu aspecto exterior, além da paisagem. É
certo que os seus valores estéticos devem
ser apreciados, ritmos, massas, cores,
composição. Mas todos esses valores têm
um significado mais profundo na intimidade e
na vibração das percepções, difrenciado
de acordo com os que nele vivem e
observam(...) O despertar para um arte do
espaço só é concebível na familiaridade
dos poetas, romancistas, pintores ou
cineastas, que têm evocado a região dos
homens. É no filme, no romance, a obra de
arte que há de se tomar em conta na
totalidade de sua criação. É uma nova
Geografia que se há de inventar, rompendo
as divisórias entre disciplinas, com geógrafos
abertos à literatura e à arte e homens de
letra a par da Geografia. Descobrir o espaço,
pensar o espaço, sonhar o espaço, criar o
espaço... Uma pedagogia nova para o espaço
vivido deve tomar em conta essas quatro exigências.
Mas, nesse concerto, onde se encontra a
Geografia e a região, senão na utopia? A
Geografia aberta às ciências naturais e à
Matemática, aberta às ciências humanas e
também à arte." (Armand FRÉMONT,
1976).
4.
Os de fora comentam sobre a Geografia:
"A
política de um Estado depende da sua
geografia". (Frase de Napoleão
BONAPARTE, inspirada na leitura de
MONTESQUIEU).
"O
Homem, enquanto um ser que não é livre e
sim parte da natureza, é um ser sensível e
isso pode ser dividido em dois aspectos: a
natureza subjetiva e a exterior. Este última,
a natureza exterior do ser humano, é o seu
aspecto geográfico ou a base geográfica de
um espírito [um povo, uma sociedade]. Não
devemos estudar o solo [espaço, território]
como um elemento externo e sim como
localidade, que corresponde exatamente ao
tipo e caráter de um povo, filho do seu
solo." (G.W.F. HEGEL).
"Quando
eu era jovem o meu sonho era tornar-se geógrafo.
Entretanto, antes de ingressar no curso
superior, quando trabalhei num escritório,
numa atividade que envolvia consumidores de
diversas partes, comecei a pensar mais
profundamente sobre essa questão e concluí
que essa disciplina deve ser extremamente
complexa e difícil. Após alguma relutância,
acabei optando pelo estudo da Física."
(Albert EINSTEIN).
"Seria
necessário fazer uma crítica dessa
desqualificação do espaço que vem
reinando há várias gerações. Foi com
Bergson, ou mesmo antes, que isso começou.
O espaço é o que estava morto, fixo, não
dialético, imóvel. Em compensação o
tempo era rico, fecundo, vivo, dialético.
Se alguém falasse em termos de espaço é
porque era contra o tempo, é porque 'negava
a história' ou, como diziam os tolos,
porque era 'tecnocrata'. A descrição
espacializante dos fatos discursivos
desemboca na análise dos efeitos de poder
que lhe estão ligados(...) Cada vez mais me
parece que a formação dos discursos e a
genealogia do saber devem ser analisadas a
partir não dos tipos de consciência, das
modalidades de percepção ou das formas de
ideologias. Elas devem ser analisadas em função
das táticas e estratégias de poder. Táticas
e estratégias que se desdobram através das
implantações, das distribuições, dos
recortes, dos controles de territórios, das
organizações de domínios que poderiam
constituir uma espécie de geopolítica,
onde minhas preocupações encontrariam os métodos
dos geógrafos. Há um tema que gostaria de
estudar nos próximos anos: o exército como
matriz de organização e saber -- a
necessidade de estudar a fortaleza, a
'campanha', o 'movimento', a colônia, o
território. A Geografia deve estar no
centro das coisas de que me ocupo."
(Michel FOUCAULT).
"Naquele
Império a arte da cartografia logrou tal
perfeição que o mapa de uma só província
ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império
toda uma província. Com o tempo esses
desmesurados mapas não mais satisfizeram e
os colégios de cartógrafos levantaram um
mapa do Império que tinha o tamanho do Império
e coincidia pontualmente com ele. Menos
afeitas ao estudo da cartografia, as gerações
seguintes entenderam que esse dilatado mapa
era inútil e sem alguma impiedade o
entregaram às inclemências do Sol e dos
invernos. Nos desertos do Oeste subsistem
despedaçadas ruínas do mapa, habitadas por
animais e por mendigos; em todo o país não
há outra relíquia das disciplinas geográficas."
(Jorge Luis BORGES, "Del rigor en la
ciencia", 1954).
"Todos
nós no Congresso percebemos a importância
vital de se aprimorar o nosso sistema
educacional se quisermos manter nossa posição
competitiva na economia mundial. Como parte
desse esforço, nós devemos nos assegurar
que os jovens americanos tenham uma clara
compreensão sobre como o mundo é e quais são
as influências humanas geograficamente
positivas". (Senador Edward KENNEDY,
numa fala que proferiu durante a Geography
Awareness Week, ocorrida em 1987 no
Congresso norte-americano, em Washington).
"Nós
dependemos de uma bem informada população
para manter os ideais democráticos que
fizeram a grandeza deste país. Quanto 95%
de nossos estudantes universitários não
conseguem localizar o Vietnã num mapa-múndi,
nós devemos ficar alarmados. Quando 63% dos
americanos que participaram de uma pesquisa
nacional feita pela CBS e pelo Washington
Post não conseguiu dar o nome de duas nações
envolvidas nas conversações SALT, nós
estamos falhando em educar nossos cidadãos
a competir neste mundo cada vez mais
interdependente". (Senador William
BRADLEY, proponente da Geography
Awareness Week, realizada em 1987 no
Congresso norte-americano, em Washington,
com o objetivo de propor medidas para reforçar
e aprimorar o ensino da Geografia nos
Estados Unidos). |