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O plantador gaúcho Goellner gostou do julgamento da OMC, mas, por ora, não vai aumentar a área plantada. |
O grande nó nas
negociações para
baixar as barreiras
ao comércio no mundo
hoje é a
agricultura. Durante
anos, as rodadas
multilaterais –
aquelas que reúnem
grande número de
países – conseguiram
reduzir os impostos
de importação de
produtos
industrializados, o
forte das nações
ricas. O pleito dos
países em
desenvolvimento de
mudanças no setor em
que são
competitivos, o
agrícola, sempre foi
colocado de lado. Os
produtos do campo
enfrentam impostos
de importação quatro
vezes maiores que os
dos manufaturados.
Isso sem contar os
mais de 300 bilhões
de dólares por ano
que as nações ricas
dão em subsídios a
seus agricultores e
pecuaristas. Esse
quadro mudou na
rodada de
negociações da
Organização Mundial
do Comércio (OMC)
iniciada em Doha, no
Catar, há cerca de
dois anos e meio, e
que ainda está em
andamento. Mudou no
papel. A agenda de
Doha promete atenção
especial aos anseios
dos países em
desenvolvimento. Na
prática, a velha e
conhecida relutância
das nações ricas em
mudar as barreiras
ao comércio agrícola
paralisou as
negociações na
reunião de Cancún,
no México, no ano
passado.
A OMC – que além de
promover rodadas de
negociações também
funciona como uma
espécie de tribunal
de disputas
comerciais –
comunicou o
resultado de um
julgamento na semana
passada que tem
potencial para
revolver toda a
questão da
agricultura no
cenário
internacional. No
primeiro processo
envolvendo a questão
agrícola de sua
história, a OMC
decidiu em caráter
preliminar que o
Brasil está certo em
pedir mudanças nos
bilionários
subsídios que os
Estados Unidos
concedem aos
produtores de
algodão. A gorda
ajuda americana
causa prejuízos aos
agricultores
brasileiros.
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Reunião
da
Rodada
Doha no
ano
passado:
a
questão
agrícola
como
grande
impasse
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Embora as decisões
da OMC não costumem
ser revertidas, os
EUA podem e, como já
disse o ministro de
Comércio Exterior,
Robert Zoellick, vão
recorrer da decisão
quando forem
comunicados
oficialmente em
junho. Apesar disso,
o anúncio da semana
passada é um divisor
de águas e terá
impacto imediato na
Rodada Doha. A
decisão extrapola o
setor algodoeiro. A
sensação é que a
porteira foi aberta.
A partir de agora,
representantes de
países em
desenvolvimento
sabem que podem
vencer no tribunal
da OMC os subsídios
de americanos,
europeus e japoneses
em outros produtos
como arroz, milho,
trigo e açúcar. Já
os líderes de nações
ricas estão cientes
de que a estratégia
de pedir mais
concessões dos
países em
desenvolvimento em
áreas como
propriedade
intelectual em troca
da redução de
barreiras no setor
agrícola perdeu
força. A esperança é
que essa mudança na
correlação de forças
seja suficiente para
fazer a questão
agrícola deslanchar.
A decisão sobre o
algodão reacendeu a
batalha por corações
e mentes. O New
York Times, o
jornal mais
influente dos
Estados Unidos, foi
direto ao assunto no
editorial de
quarta-feira: "As
generosas
contribuições dos
EUA a seus
agricultores semeiam
a pobreza no mundo
em desenvolvimento.
E, além disso, são
ilegais". The
Wall Street Journal,
o diário econômico
mais importante dos
Estados Unidos, e o
inglês Financial
Times foram
unânimes em apoiar o
julgamento em favor
do Brasil e do
livre-comércio. Na
mão contrária,
Zoellick, em
depoimento ao
Congresso americano,
defendeu a política
de subsídios da
administração Bush.
Foi aplaudido por
alguns congressistas
que voltaram a
defender a saída dos
EUA da OMC porque
ela – pensam eles –
fere a soberania
nacional. (O lobby
agrícola é forte e
as eleições
presidenciais
americanas são em
novembro.) O Banco
Mundial estima que
140 milhões de
pessoas poderiam
sair da linha da
pobreza até 2015 se
os 147 membros da
OMC concordassem em
acabar com os
subsídios e com
todas as barreiras
na área agrícola.
Algumas das maiores
aberrações estão na
Europa. Cada vaca
européia recebe mais
de 2 dólares por dia
em subsídios,
enquanto quase a
metade da humanidade
vive com menos de 2
dólares por dia.
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Robert
Zoellick,
dos EUA:
"Vamos
recorrer" |
O caso do algodão é
emblemático. Mesmo
com custos bem
maiores que os dos
concorrentes, os
produtores
americanos
conseguiram
conquistar mais de
40% das exportações
mundiais graças aos
subsídios, que
funcionam como uma
espécie de doping do
comércio. Os maiores
prejudicados foram
agricultores no
Brasil e na África,
que viram a
enxurrada de algodão
americano roubar
mercados no exterior
e baixar o preço do
produto. Sem os
subsídios
americanos,
calcula-se que o
valor do algodão
subiria 13%. Para o
Brasil, a queda do
preço e as toneladas
não exportadas nos
últimos anos somaram
o equivalente a 1
bilhão de dólares.
Isso sem contar os
postos de trabalho
que deixaram de ser
criados. Na África,
a situação é ainda
mais grave. Em
Benin, 6% do PIB do
país depende do
algodão. Em Burkina
Fasso, o produto
representa mais de
40% das exportações.
No curto prazo, a
maior parte dos
produtores de
algodão do Brasil
não mudará os
planos. "Antes de
abril de 2005,
ninguém vai correr o
risco de aumentar
substancialmente a
área plantada. Até
lá, não haverá
grande alteração nos
preços nem na
abertura de novos
mercados", diz o
gaúcho Gilberto
Goellner, que deve
colher 9.000
toneladas de algodão
neste ano em Mato
Grosso. Diz Eduardo
Logemann, outro
sul-rio-grandense e
um dos maiores
produtores
individuais de
algodão do Brasil:
"Não sabemos quanto
vamos ganhar do
mercado mundial nem
o tamanho da queda
dos subsídios
americanos, mas o
mais importante é
que a decisão da OMC
foi um marco".
A idéia da ofensiva
verde-amarela na OMC
começou em 2001,
quando o ministro
das Relações
Exteriores, Celso
Amorim, então
embaixador
brasileiro em
Genebra, recebeu a
visita de Pedro de
Camargo Neto, o
secretário de
Produção Agrícola do
governo Fernando
Henrique Cardoso.
Amorim estava se
recuperando de uma
cirurgia, mas achou
tempo para falar com
Camargo Neto. Da
conversa surgiu a
idéia de montar um
processo contra os
subsídios
americanos. A
Associação
Brasileira dos
Produtores de
Algodão (Abrapa)
concordou em arcar
com os custos
legais, que
totalizaram 2
milhões de dólares.
Com a argumentação
pronta, Camargo Neto
fez questão de
protocolar
pessoalmente o
processo na OMC em
2002.
O Brasil perde
anualmente cerca de
6 bilhões de dólares
por não poder vender
produtos agrícolas
às nações ricas e
também por sofrer a
competição de
produtos subsidiados
exportados a outros
países. Mesmo assim,
o setor do
agribusiness é um
exemplo vitorioso de
empreendedorismo. No
ano passado, o PIB
agropecuário cresceu
incríveis 31,4%. Nas
exportações, a
importância é ainda
maior. Em 2003, os
embarques somaram
30,7 bilhões de
dólares, 42% do
total das vendas
externas. O saldo do
setor ultrapassou 25
bilhões de dólares.
Mesmo com as
barreiras, a
previsão para este
ano é que a produção
agrícola alcance
125,5 milhões de
toneladas, 1,53% a
mais que em 2003.
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