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O Brasil tem novos coleguinhas

Um trio de economistas quer nos tirar do time dos grandalhões, como a Rússia, e nos colocar ao lado de pequenos prodígios, como Cingapura

Marcos Coronato

PRIMEIRA DA CLASSE
Festa do Dia da Independência de Cingapura em 2009. A cidade-Estado combina forte crescimento com estabilidade

 

          Parabéns, brasileiro: seu país foi promovido de “emergente” a “emergente avançado”. Para os economistas que nos colocaram nessa classe, no fim de 2009, isso significa que o Brasil oferece ao investidor boas chances de ganhar dinheiro correndo risco relativamente baixo nos próximos anos, mesmo diante de novas eventuais crises externas. Significa também mais alguns milhões ou bilhões de dólares em investimento fluindo para cá – o que beneficia todo brasileiro. Isso tudo depende, porém, de o mercado internacional concordar com a existência de países “emergentes avançados” e, mais importante ainda, que o Brasil merece estar na turma, da qual fazem parte dez nações (leia o quadro abaixo).

     

          Os dois relatórios que propõem essa nova classificação de países em desenvolvimento foram feitos pelo banco britânico Barclays Capital. Em linhas gerais, os relatórios afirmam que os emergentes ganharam maior peso na economia global após a crise, que os investidores agora devem prestar mais atenção às grandes diferenças entre esses países e que um grupo deles merece uma categoria à parte, a dos Mercados Emergentes Avançados ou AEM, na sigla em inglês. “Os AEMs são países na direção certa para se tornar desenvolvidos”, diz um dos autores, o economista argentino Eduardo Levy-Yeyati (a Argentina, como a Rússia e a Venezuela, está no grupo de emergentes que segue na direção errada, segundo o relatório).

 

          Estar no grupo, então, é ser considerado um quase desenvolvido. Soa bem, mas, num momento em que o Brasil padece de certo otimismo excessivo, a melhor parte dos estudos é a que mostra o que outros países têm de melhor que nós. Em vez de colocar o país ao lado de outros gigantes exportadores, como Rússia e Índia, os autores preferiram nos comparar com nações tão distintas e interessantes quanto Cingapura, Chile e Israel, que aparecem a nossa frente por causa da estabilidade de seu ambiente de negócios e de suas boas políticas.

 

          Ainda não foi desta vez que liberdades civis e direitos humanos entraram na conta: a China continua como nossa colega de classe, embora os autores admitam que, por seu tamanho, ela mereceria uma categoria à parte. México e Índia estariam atrás de nós, mas melhorando rapidamente. “Destacamos um grupo de países pelos seus avanços persistentes nas políticas relativas a finanças e crescimento estável”, diz Levy-Yeyati.

 

          Ele divide a autoria dos relatórios com Piero Ghezzi, do Deutsche Bank, e Christian Broda, da Universidade de Chicago. Mesmo bem apoiado nos currículos acadêmicos e experiência de mercado do trio, o conceito dos emergentes avançados tem tudo para ser bem criticado. Ele adota premissas atacáveis, como um conceito único de “avanço” e uma certeza do aumento da influência dos emergentes, incluindo os pequenos, muito dependentes de exportações. “Só as economias que puderem expandir seu mercado interno conseguirão ter independência e influenciar a economia global”, diz o economista Jan Kregel, consultor da ONU e defensor de maior regulação do mercado financeiro (Kregel estará no Brasil nesta semana para um evento sobre a economia latino-americana, promovido pela Fundação Getúlio Vargas e pela Universidade de Cambridge).

 

          Os “emergentes avançados” já são uma derivação da ideia de “mercados emergentes”, proposta pelo banco americano JP Morgan nos anos 90, e não têm o apelo da denominação Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), inventada por outro banco americano, o Goldman Sachs, no início dos anos 2000. “O estudo é pertinente, mas um pouco otimista demais com os emergentes”, afirma a economista Vitória Saddi, professora da escola de negócios Insper. “Pode ser que o investidor se sofistique nos próximos anos, a ponto de perceber mais diferenças entre emergentes, mas hoje ele ainda se restringe mais às condições de curto prazo.” Vitória, que trabalhou por cinco anos na consultoria RGE Monitor, em Nova York, lembra que, dez anos atrás, os investidores americanos mal distinguiam os países da América do Sul. Agora, para ser visto como um quase desenvolvido, o Brasil terá de acertar muito nos próximos dez anos.

 

 

 

 

 

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fonte: Fonte: Revista Época – 111 de janeiro de 2010 – pag. 52

Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI115008-15223,00-O+BRASIL+TEM+NOVOS+COLEGUINHAS.html
– acesso em 20/05/2010 – 22h10
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