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Demétrio
Magnoli
Elaine
Senise
Barbosa
Em matéria
publicada no
jornal Folha
de S.Paulo,
em 20 de
abril de
2003,
Demétrio
Magnoli e
Elaine
Senise
Barbosa
advertiam
sobre os
resultados
prováveis da
guerra e da
posterior
ocupação do
Iraque pelas
tropas
americanas e
analisavam
as bases
teóricas
para a
construção
do
necessário
diálogo
entre o
Ocidente e o
Islã.
As
hostilidades
crescentes
contra as
tropas de
ocupação e a
onda de
atentados
que não
poupou
sequer a
sede da ONU
e custou a
vida do
diplomata
brasileiro
Sergio
Vieira de
Mello,
emprestam
grande
atualidade a
essa
discussão.
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O
Ocidente
dominou
o
mundo
com
a
aplicação
da
violência
organizada.
Os
neoconservadores
americanos
encaram
a
invasão
do
Iraque
como
um
processo
civilizatório. |
O Ocidente
dominou o
mundo não
pela
superioridade
das suas
idéias,
valores ou
religião,
mas pela sua
superioridade
na aplicação
da violência
organizada",
escreveu
Samuel
Huntington.
O autor do
"Choque de
Civilizações"
completou:
"Ocidentais
freqüentemente
esquecem
esse fato;
não-ocidentais
nunca
esquecem".
Os
neoconservadores
americanos,
que
controlam a
política
externa de
Washington,
encaram a
invasão do
Iraque como
um processo
civilizatório.
Os Estados
Unidos
estariam
levando a
democracia
para o mundo
árabe e, por
meio do
exemplo
iraquiano,
forçando a
reforma do
Islã. A
"aplicação
da violência
organizada"
funcionaria
como veículo
para a
difusão das
idéias e dos
valores do
Ocidente.
Esse discurso,
reminiscente
do "fardo do
homem
branco" dos
colonialistas
do século
19,
configura
uma política
neo-imperial.
Sua falácia
consiste na
crença de
que a
democracia
pode ser
injetada do
exterior. Ou
de que a
"violência
organizada"
das forças
invasoras é
capaz de
substituir a
história e
fundar um
mundo novo.
Não é
difícil
prever que o
resultado do
empreendimento
neo-imperial
no Iraque
será, pelo
contrário, o
de semear o
terreno no
qual o
fundamentalismo
islâmico
recruta
seguidores.
Mas o apelo do discurso
neoconservador
decorre do
fato de que
ele toca num
nervo real e
profundo, no
traço que
distingue o
Ocidente do
Islã: a
democracia.
O Ocidente
produziu
sociedades
democráticas,
fundadas na
separação
entre a
política e a
religião. O
Islã, em
contraste,
conserva a
submissão
dos homens
ao livro. O
fundamentalismo
está na
origem das
três
religiões
monoteístas.
Contudo a
Reforma e o
Iluminismo
tornaram
essa postura
uma
excepcionalidade
nas
sociedades
ocidentais.
A Reforma
libertou o
indivíduo da
comunidade
de fiéis ao
estabelecer
o princípio
da livre
interpretação
dos textos
sagrados. O
Iluminismo
libertou o
contrato
político da
primazia da
Igreja
Católica ao
estabelecer
o princípio
da soberania
popular. O
Islã não
conheceu
nada
semelhante à
Reforma ou
ao
Iluminismo.
O Corão e,
na maioria
dos casos, a
Suna
continuaram
a modelar a
lei política
e civil,
expressa na
"sharia".
No auge da cultura
muçulmana,
homens como
Avicena
(980-1037) e
Ibn Khaldun
(1332-1406),
desenrolando
o fio de uma
tradição
enraizada na
cultura
helenística,
ameaçaram
deflagrar as
luzes muito
antes dos
europeus.
Mas esse
desenvolvimento
foi abortado
pela crise
do califado
abácida e
pela invasão
dos mongóis.
A grande
perturbação
dos
espíritos
que fundou o
Ocidente
contemporâneo
chegou ao
Islã no
final do
século 19,
quando uma
geração de
modernistas
entregou-se
à aventura
de reformar
as
sociedades
muçulmanas.
O
intelectual
egípcio
Muhammad
Abduh
(1849-1905)
queria
"liberar o
pensamento
dos grilhões
da imitação"
e
reconciliar
a religião
com a
investigação
científica.
O sírio
Rashid Rida
(1865-1935)
propunha a
distinção
entre as
doutrinas
religiosas
imutáveis e
as leis
sociais, que
deveriam se
adaptar às
circunstâncias.
A paixão pelas idéias do
Ocidente
acompanhou,
como uma
sombra, a
expansão
imperial
européia
sobre o
islã. Na
Índia,
enquanto se
instalava o
poder
britânico, o
erudito
muçulmano
Sayyd Ahmad
Khan
(1817-98)
tentava
encaixar o
Islã no
liberalismo
político. No
Irã, os
intelectuais
Mulkhum Khan
(1833-1908)
e Aqa Khan
Kirmani
(1853-96)
pretendiam
substituir a
"sharia" por
um código
civil
secular. A
obra
"Admoestação
à Nação", do
xeque
Muhammad
Husain Naini,
fez a defesa
da revolução
constitucional
de 1906 e
argumentou
em favor de
um governo
de estilo
ocidental.
Aí se
encontram as
raízes do
pensamento
de Muhammad
Kathami, o
atual
presidente
iraniano,
que desafia
o poder do
clero xiita.
A evolução do modernismo
no interior
do Islã,
porém, foi
cortada pelo
advento do
nacionalismo,
que aparecia
como
instrumento
para a luta
contra as
potências
coloniais. A
modernização
passou a
operar fora
das
estruturas
de
pensamento
do Islã e
contra elas.
No
pós-guerra,
o
pan-arabismo
representou
uma
tentativa
retardatária
de
modernizar
as
sociedades
árabes e
separar a
política da
religião. O
fracasso
dessas
tentativas,
ou seja, a
falência do
egípcio
Nasser no
combate
contra
Israel e a
dissolução
das
esperanças
depositadas
no partido
Baath,
ativaram os
motores do
fundamentalismo
islâmico
contemporâneo
na Síria e
no Iraque.
Nos tempos
medievais,
durante sua
expansão, o
Islã salvou
da
destruição a
filosofia e
a ciência
helenísticas.
Conservou e
aprimorou os
livros e
saberes dos
povos que
subjugou.
Foi mestre
da Europa
cristã
quando ela
começou a
romper o
imobilismo
feudal,
ensinando-lhe
parte de sua
própria
história.
Hoje, quando
a política
árabe e o
mundo
muçulmano
são
assaltados
pelas
tentações
anacrônicas
da teocracia
e do jihad,
o Ocidente
enxerga o
Islã pelas
lentes do
preconceito,
como se
fosse a sua
antítese, e
os "senhores
da guerra"
de
Washington
imaginam-se
portadores
de uma nova
verdade
revolucionária.

O
estranhamento
que separa o
Ocidente do
Islã é fruto
de séculos
de história.
Os aviões
que
destruíram
as torres
gêmeas do
World Trade
Center, em
11 de
setembro de
2001, e a
marcha das
tropas
americanas
sobre Bagdá
refletem
tragicamente
esse
estranhamento
e
introduzem,
na política
mundial, o
espectro do
"choque de
civilizações".
O antídoto
existe, mas
depende de
um diálogo
entre o
Ocidente e o
Islã,
centrado nos
valores da
Reforma e do
Iluminismo.
Entre árabes
e
muçulmanos,
há
incontáveis
interessados
nesse
diálogo e há
uma tradição
modernista
que resiste
ao
fundamentalismo.
O obstáculo
é o ruído
ensurdecedor
das bombas e
a humilhação
da ocupação.
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