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Celebration, Flórida

 

          Celebration não é uma cidade como a maioria das pessoas costuma se confundir, mas uma enorme propriedade particular denominada de Celebration Community Development District, construída por uma empresa subsidiária da The Walt Disney Company denominada de The Celebration Company. Esta comunidade planejada foi inaugurada em 04 de julho de 1996, incorporando algumas das idéias de Walt sobre o quê seria uma comunidade no futuro. Contudo, ao contrário da visão modernista e futurista de Disney, os responsáveis pelo projeto adotaram um conceito derivado do novo urbanismo.

          Celebration surgiu de um desmembramento de terras que faziam parte do distrito de Reedy Creek Improvement District passando a fazer parte do Condado de Osceola. Nesta comunidade prevalece jardins bem cuidados, ruas largas e bem sinalizadas, parques arborizados, calçadas largas e lindas, prefeitura, lojas, banco (SunTrust Bank), correio, teatro, cinema, restaurantes, igreja (Celebration Church), escola pública, bombeiros, hospital (Celebration Health), campo de golfe, e muito mais. Além disso, em Celebration é comum você ver pessoas se locomovendo por meio de carros de luxo americanos, europeus e asiáticos, carros antigos de colecionadores, bicicletas, "scooters" e pequenos veículos elétricos denominados de "NEV's" ("Neighborhood Electric Vehicle").

Esta comunidade é dividida em 08 (oito) áreas distintas:

  • North Village

  • South Village

  • East Village

  • West Village

  • Celebration Village

  • Lake Evalyn

  • Roseville Corner

  • Artisan Park

          Todas as casas construídas em Celebration devem seguir modelos pré-aprovados cujos estilos vão do Vitoriano, Mediterrâneo até o Colonial. Os preços das casas começam em US$150.000 (cento e cinqüenta mil dólares) e podem chegar até mais de US$800,000 (oitocentos mil dólares). Destaque-se ainda que quando você adquire uma casa em Celebration também é obrigado a assinar um termo de comprometimento, pelo qual deverá empenhar-se em manter o espírito da comunidade, como por exemplo: manter a grama do seu jardim sempre bem cortada, dependendo do enfeite que pretende colocar no seu jardim ele deve ser aprovado pela administração de Celebration, etc.

          Em Celebration a tecnologia está por integrada a comunidade, todos os seus habitantes estão constantemente interados com a comunidade por meio de intranets, serviço de correio eletrônico, televisão comunitária, e outras fontes de informação. Toda essa tecnologia também foi adotada no sistema de ensino em Celebration, possibilitando aos alunos total acesso a intranet e internet por meio dos inúmeros computadores instalados a escola, informações eletrônicas para acompanhamento de cada aluno e muito mais.

Como chegar lá desde o aeroporto de Orlando (clique para ampliar)

          Enfim, ainda que Celebration não possa ser considerada a cidade do amanhã no conceito de Walt Disney, ainda assim os conceitos abarcados nesta comunidade servem para que possamos designá-la como sendo uma concretização dos seus sonhos.

          Celebration fica localizada em Kissimmee, para maiores informações sobre como chegar lá procure pelo mapa constante do site oficial. Mas só para você ter uma idéia basta pegar a auto-estrada I-4 e sair na 64A, irá sair na U.S. 192, depois siga na direção leste e vire a direita no segundo semáforo, você irá ver a indicação - "Celebration Avenue".

 

A Terra do Nunca

22/nov/2006

publicado em: http://fudeus.wordpress.com/2006/11/22/a-terra-do-nunca

 

Em março desse ano visitei a primeira cidade criada por uma corporação, a Disney. Mapa, leis, diretrizes e… uma cultura, foram determinadas em escritórios para fazer os habitantes desse lugar mais felizes. Em Celebration, arredores de Orlando, Flórida, grandes empresas não têm vez. Curioso… quando uma corporação vira o Estado, a vida imita o que era o mundo antes das corporações dominá-lo. A reportagem foi publicada na revista Trip #144, mas com uma edição e fotos um pouco diferentes. Aqui, a versão de Fudeus do “melhor lugar do mundo”

 

Como uma Sapucaí do consumismo, a Highway 192 corta Orlando em uma apoteose de lojas de desconto, fast food, mini golfes, farmácias e colossais anúncios explodindo luz néon. Mickeys, Plutos, Patetas, Flamingos, Steaks, Frangos, Sonys, Nikes, Adidas, Levi´s, McDonald´s, Volvos, Shell, Exxon, Burger Kings, Hyatts, Marriotts – coorporações cintilam seus logos e palavras de ordem (BUY! NOW! 20% 30% 50% OFF!) em busca dos dólares e travellers checks do torrencial fluxo de turistas que dirigem acelerados em carros refrigerados rumo à Disney World.

Não há como andar a pé, e certas placas de trânsito tem orelhas do Mickey. Não há como atravessar andando as seis faixas sem esperar 10 minutos. Não há um vira-lata para abrigar pulgas na 192. Uma visão tão cheia de cores quanto de desolação – atrás das milhas emendadas de lojas não há uma casa. Apenas os pântanos da Florida e enormes pedaços de terra que, cedo ou tarde, se o mundo não acabar, serão mais parques, lojas, mini golfes, hotéis…

Acontece que em uma das saídas da 192, entrando na cidade de Kissimmee, algo, digamos, mágico acontece. A estrada estreita, cai para menos da metade o limite de velocidade, desaparecem os logos. Assim que suas laterais ganham plácidas calçadas e cercas brancas – um branco perfeito como anúncios de alvejante – a pista muda de nome. Celebration Avenue, a avenida principal do “melhor lugar do mundo”. Melhor lugar do mundo? “É o que gostamos de pensar”, explica Marnie Schubert, relações públicas de Celebration, a cidade que a Disney inventou há 12 anos.

O branco que a sua família merece. Bem vindo à Celebration

O Plano "B" do Plano "X"

Marnie trabalha no Town Hall, espécie de prefeitura da “cidade”. “Não somos uma cidade oficialmente. Ainda. Estamos no processo para nos tornamos uma, é inevitável”, explica de novo. Não são cidade, ok, mas se comportam como uma. Ou melhor, como uma cidade deveria se comportar… Celebration foi criada meticulosamente para fazer seus moradores mais felizes. Claro que dentro do que a Disney e seus arquitetos entendem por felicidade – uma América inspirada pelos valores, costumes e arquitetura do passado, de um tempo anterior às corporações onipresentes, das letreiros luminosos dos automóveis agressivos e da pressa generalizada. Inspirada, até seus habitantes concordam, em um passado ideal, um passado que na verdade nunca houve. No que a América deveria ter sido se… bem… fosse diferente.

Plano da Disney, mas não do Disney, do Walt. O pai do Mickey tinha uma idéia quase oposta quando pensou e colocou no papel em 1965 seu projeto de uma cidade ideal. Chamou de Projeto X. Criou e rascunhou tudo enquanto definhava do câncer que o matou no ano seguinte.

 

 

Disney em pessoa arpresenta em um estranhíssimo vídeo de 1965 sua idéia de cidade perfeita: EPCOT, a anti-Celebration, que, anos depois, virou parque

 

Imaginou trens suspensos e silenciosos, arranha-céus monumentais, corporações associadas, altíssima tecnologia e arquitetura futurista. Walt queria, com suas palavras, “um lugar que não poderia ser encontrado em lugar nenhum do mundo”.

Acontece que hoje os tais arranha-céus, corporações e alta tecnologia são encontrados em qualquer meridiano do globo. E seu sonho do Projeto X, batizado por fim como Experimental Prototype Comunity of Tomorow (Protótipo Experimental de Comunidade do Amanhã) foi abreviada para sua sigla EPCOT e virou um dos parques da Disney Wolrd.  A visão do tal “lugar nenhum do mundo” teve que ser revista.

180º depois, eis Celebration. Uma cidade sem edifícios, sem velocidade, nostálgica e sem nenhuma corporação associada. (Bem, quase nenhuma, como veremos adiante.). Lá, logotipos, lojas de rede, propagandas de qualquer tipo são proibidas. Curioso… quando a Disney planejou uma cidade, proibiu justamente o que ela pratica com afinco pelo mundo.

 

Nos postes da cidade, uma das poucas chances do visitante saber a quem pertence a “cidade do futuro”

 

Pulando as cercas brancas (de plástico) que cercam a cidade estão as casas e apartamentos erguidos dentro de um rigoroso conjunto de regras, um manual, estabelecido antes do primeiro morador carregar sua mudança para lá. Certos estilos deveriam ser respeitados – uma leitura limpa da arquitetura do sul dos EUA. As casas coloniais da Louisiana, dos senhores das fazendas de algodão, versões mais brejeiras de desenhos vitorianos britânicos. Nenhuma casa pode ser alta demais, colorida demais, ter placas ou luminosos. “Arranha-céus fazem as pessoas se sentirem pequenas, como na cidade grande. Aqui não…”, Marnie prossegue. Nenhuma casa pode ter garagem na parte da frente, não pode ter uma lixeira que dá para a rua.

Todas as casas devem ter varandinhas antes da porta – “para os habitantes acenaram uns para os outros”, Marnie ainda, “para relembrar dos velhos costumes do interior”. Todas as cercas em Celebration, devem ser brancas. Todos os jardins devem estar impecáveis. E se não estiverem, Marnie? “Temos uma equipe que circula. Quando algo não está no padrão, mandamos uma cartinha pedindo mais cuidado com o jardim. Funciona sempre”.

 

Muito além do jardim

Denise Lord está com sua van toda suja de terra. Passou a manhã comprando grama para seu jardim. É que Denise recebeu uma cartinha dessas, pedindo mais atenção com a aparência das plantinhas defronte sua casa. Denise é brasileira, de Fortaleza, mas mora nos EUA há 20 anos. Faz tempo. Já morou em tudo o que é cidade, a última foi Miami, e não quer deixar Celebration por nada nesse mundo.

“Eu tenho uma filha de 13 anos. Miami é uma cidade louca demais, não queria que ela tivesse tantas opções na porta da adolescência”, desabafa enquanto toma um café no Barnie´s, com vista para o lago. De fato. Perfeitamente pacata, silenciosa e segura, não há muita opção em Celebration.

 

O point da cidade: o chafariz de águas mornas dançantes. Loucura total

 

            O Barney´s é o único café da cidade. Há mais 9 restaurantes (todos deliciosos) e 11 lojas. Roupas, cartões, velas, souvenires e jóias. Não há uma livraria em Celebration, nem loja de CD. Os únicos jornais disponíveis na cidade são o Celebration Independent, Celebration News, jornais comunitários que estampam na capa desfiles de cachorros e festivais de caridade, e o USA Today , notório periódico superficial dos EUA. Há um moderno cinema em estilo Art-Déco, com duas salas, a construção mais arrojada do lugar – na verdade, uma réplica do cinema em que Branca de Neve e os Sete Anões estreou em 1937.

A rua do mercado em frente ao lago da “cidade pato”. Onde TUDO acontece 

 

Todo esse comércio se concentra em quatro quarteirões, metade de frente para o lago. Há uma fonte de águas dançantes que pulam do chão, onde em qualquer hora sob o sol há crianças brincando. Uma calçada plana circunda o lago todo e se estica pelos bosques, onde em qualquer hora sob o sol há alguém caminhando, pedalando ou empurrando um carrinho de bebê. Árvores antigas (trazidas já velhas e plantadas em Celebration), devidamente identificadas por placas nas raízes. E cadeiras de balanço de madeira clara onde repousam os habitantes, diante do lago, espiando o reflexo do sol desfazer a bruma que se forma pela manhã sobre a água; espiando e os pequenos jacarés que dão à superfície. Répteis que muitos pensam se tratar de bonecos, por isso as placas na altura dos olhos: não entrem na água e não alimentem os jacarés.

            O silêncio é praticamente uma atração turística do lugar. Apenas uma leve melodia de pássaros e um zunido quase mudo brotando de caixas de som em cúpulas de metal verde chumbadas nos canteiros das palmeiras de altura idêntica. Soft jazz, sempre. Talvez um carro faça um barulho, mas jamais buzinará. Ou um ronco suave do motor de um dos muitos carros elétricos que os habitantes preferem ter. De rodas pequenas e velocidade baixa, quando parados ficam “abastecendo” com fios ligados à tomadas dos postes da cidade. Grátis, é claro. Mal se queima petróleo em Celebration, apesar das Ferraris que passam aqui e ali e das Land Rovers que exibem adesivos republicanos e patriotas. “Freedom is not free”, “One Nation Under God”, “Suport our Troops”, “Truth will set us free”. Não há unanimidade quanto a isso, evidente. E Celebration não é, assim, um lugar político. Mas W. Bush não é lá muito impopular nas redondezas. Conservadores? “Sim. Eu sim. Não tenho muito do que me queixar”, defende a América William Vaughan, 62, republicano aposentado em Celebration, enquanto balança na cadeira defronte ao lago.

Ferrari repousa na segurança da Market Street. 40km/h é o limite de velolcidade

 

            Nada parece acontecer… e o repórter caminha com um deslumbramento contínuo pelas alamedas sem texto, sem som e sem problemas. Um lugar perfeito. “Não é, não”, dispara Stwart Ramsey, inglês, negociante de imóveis na Florida, enquanto caminha junto, “as pessoas acham que é um lugar perfeito. Mas todos têm problemas.” Qual o seu problema aqui, Stu? “hummm, melhorar a escola da cidade para meus filhos”.

            Stuart faz parte de um grupo de pais que procura recursos e professores para melhorar o ensino da escola fundamental de Celebration. Não que seja das piores, longe disso. O colégio é considerado uma escola pública modelo nos EUA. Comparável a poucas. Mas sempre dá pra melhorar, não é, Stu? “Sempre. É que as coisas complicaram um pouco nos últimos tempos.” Ele se refere a saída gradativa da Disney no financiamento e administração da cidade. “Sempre foi o plano deles, deixar a cidade nas mãos dos habitantes na medida que a comunidade amadurece. Antes eles ditavam as regras aqui, mas davam dinheiro para quase tudo aqui. Hoje têm apenas uma cadeira no Town Hall, mas a cidade precisa se manter sozinha agora."

As teachers de Celebration: orgulho de “uma das melhores escolas da América”

           2006 é o décimo ano de Celebration como uma comunidade de fato. Foi fundada dois anos antes como empreendimento, mas seus primeiros habitantes só chegaram lá em 1996. A procura por casas na “cidade da Disney” foi tão grande e inesperada, que a empresa teve que sortear quem teria direito a morar ali na primeira etapa. Pagava-se para ter o direito de disputar. “Todos pensavam que seria como morar na Disney, e muita gente se decepcionou quando não viu o Mickey Mouse na rua”, Marnie, a porta voz, explica, “uma mulher chegou a ligar para Michael Eisner (então presidente da Disney) para reclamar que foi enganada. Celebration não era perfeita porque seu marido havia a abandonado”.

            2006 é o último ano da Disney em Celebration também. Após estabelecer os padrões, criar as tradições, os feriados e as “leis” da cidade, e depois de receber seus dólares dos terrenos e casas, a Disney vai pular fora. Até porque, nunca quis fazer de Celebration uma “cidade temática”. Não há Mickeys ou nada do tipo nas ruas. Apenas três prédios com pinta de maquete, a sede do grupo, e um discreto relevo em metal nas placas dos postes da cidade, abaixo do selo de Celebration, escrito “Disney ®”.

Sede do departamento mundial de marketing da Disney, em uma das entradas de Celebration. Toda a diretoria tem casas por lá

 

            Ainda nada parece acontecer… e enquanto o repórter caminha ao lado de Stuart pelas alamedas onde apenas os jatos automáticos de água molham os gramados impecáveis, pergunta se o entrevistado não se sente entediado. “Não. Eu comparo Celebration com um pato”. Pato? “Sim, um pato. Na superfície é calmo, flutuando devagar. Debaixo d´água as patas estão agitadas, muita coisa acontece”.

 

Super amigos

            Karlheinz Jaehling, ou Karl, é um alemão de 65 anos. Foi alto executivo e engenheiro da Mercedes Benz por toda sua vida adulta. Montou as principais fábricas da empresa fora da Alemanha, inclusive no Brasil, em Juiz de Fora, onde morou por dois anos implementando o projeto do Classe A. É um homem rico, acostumado com reuniões importantes. Mas no momento, aposentado, ele está abrindo potes de sorvete de creme e flocos para servir aos outros colegas de terceira idade da Friendship Force de Celebration.

Frindship Force de Celebration e o lanche para recepcionar Fudeus. Força total para fazer amigos. Karl é o da ponta direita 

 

É um dos muitos e muitos grupos que existem para “agitar a comunidade”, como disse Stuart. Há grupos de escoteiros, de fãs de golfe, pôquer, de republicanos, de dança, de brasileiros… Esse, o Friendship Force, é para fazer amigos ao redor do mundo. Em torno da mesa estão 8 pessoas. Seis senhoras, dois senhores (Karl incluso. É uma reunião semanal,  de duas horas exatas de duração, para planejar, discutir e votar as melhores maneiras para receber amigos do exterior de viajem marcada para Celebration e para onde eles próprios devem ir no ano que vem. Ah, e um tópico especial na pauta do convescote: dar as boas vindas ao presente repórter do Brasil.

Votam para ver em que restaurante devem levar os convivas e todos parecem concordar. Até que surge um impasse – quem vai hospedar Joyce, uma senhora Sueca que vai chegar para o festival de tortas de maçã com sérias dificuldades de locamoção. Deliberam, mas nenhuma conclusão. Deixam a querela para uma lista de discussão por email e pretendem ter a questão solucionada até a semana seguinte.

            Karl e sua mulher, a simpática Pat, fazem questão de poupar vinte dólares do repórter e ofertam uma carona até o hotel na 192. Enquanto os néons ressurgem e o tráfego da volta dos parques congestiona a estrada, Karl relembra de São Paulo. “O oposto de Celebration. Ah, você mora no centro? Hahahaha. Caos, não é?

 

Celebration é coisa nossa

 

             Não há crimes por lá. Nunca houve nada mais grave do que um furto de um veículo estacionado. Nunca houve uma apreensão de drogas, nunca ninguém foi pego chapado ou embriagado demais. Algumas pessoas morreram por lá, sim, mas de causas naturais. Mas ninguém foi enterrado lá, porque, em Celebration, cemitérios não são bem vindos – é triste, e isso não convém.

É uma cidade sem jovens, praticamente. Para se ter uma idéia, dos 1500 estudantes por lá, apenas 150 são da High School, ensino médio dos EUA. A grande maioria dos filhos crescidos de Celebration vão embora da cidade. Não há muito para eles mesmo. A população de 9000 pessoas é, basicamente, de aposentados ou jovens famílias com filhos pequenos. Feita de gente que quer sossego, segurança e uma vida oposta a das grandes cidades. Exceção a essa regra é Tato, curitibano, ex-plioto de F3, ex-baterista de banda de festa de 15 anos e, atualmente, golfista e artista plástico morando em Celebration. Ele tem 28 anos.

Tato está tentando ganhar a vida vendendo seus quadros de esporte em telas customizadas, que ele mesmo prepara de acordo com o esporte retratado. Tem futebol, golfe, baseball… e na sua busca por clientes, Tato acompanha o repórter na busca a dois dos proprietários mais inusitados de Celeb – Sílvio Santos (ele) e Jorge Bem Jor (ele mesmo).

Ambos tem casas milionárias e separadas por apenas uma única residência na Spring Park Loop, um dos lugares mais nobres da comunidade.

É de sua casa alva, vitoriana, de Celebration que Sílvio Santos decide muito do que vai fazer com seu SBT, onde assiste muitos programas para “se inspirar”. De lá ele deu aquela famigerada entrevista onde disse, em uma pegadinha nacional, que iria morrer em seis anos. Na época, Sílvio disse que “era o melhor lugar do mundo esse que a Disney construiu”. É lá que o MC do Clube do Mickey brasileiro pretende viver quando não tiver mais ânimo para ditar as regras em sua TV.

A doce vida em Spring Park Loop: a casa de Sílvio Santos, vizinha de Jorge Ben Jor; abaixo, outro vizinho, o carioca gente fina Eduardo em sua piscina no quintal e a rua dos fundos das casas da rua: para não deixar o lixo na frente, sabe?

 

A campanhia bate, mas Sílvio não está. Apenas sua empregada, Nalda, uma brasileira que se recusa a ser retratada. “Ele vem muito pra cá, mas não sei quando. Ele não avisa.” Ela interrompe e dá adeuzinho à uma mulher loira que desce de um Audi TT carregada de sacolas: “Olá, Domingas!”. Domingas? Ela é a Domingas, a mulher do Jorge Bem? “Ela mesmo”.

É uma mulher muito simpática e doce. E absolutamente reservada. “Jorge vai ficar muito chateado se você colocar nossa casa na revista. Ninguém sabe que temos uma casa aqui.” Ela mora lá para cuidar dos filhos, Thomás e Gabriel,  que estão em uma universidade da Flórida. Jorge só aparece de dois em dois meses. E, quando vem, adora jogar golfe no campo de Celebration. “Aceita um cafezinho?”. Claro, Domingas.

Uma casa grande, muito limpa a iluminada, americana mesmo. Tomando um expresso na cozinha com vista para a sala, tirando latas de Guaraná e Nescau das sacolas, Domingas desabafa: “Olha, eu acho que está ficando perigoso. É muito bom aqui, mas estamos cercados de um bairro perigoso. Na verdade, Celebration fica em Caxias”.

É o quarto dia de Fudeus em Celebration, e o Disney Way of Life mostra sua face mais caridosa – começa o fim de semana e uma das muitas e muitas atividades comunitárias que Celebration promove. Um dia de feirinha feita pelos moradores para arrecadar fundos em prol do tratamento de câncer. São vinte barracas vendendo de hot-dogs a memorabilias de cinema. Famílias montam seus home-theaters de plasma no gramado e vendem “ingressos” de filmes por US$3. Outros vendem Polariods com um sósia do Chaplin… coisas assim.

No palco do centro comunitário, Babe Plante entoa sozinho, acompanhado de seu karokê hi-tech, clássicos americanos. “Unforgattable”, “Fly me to the Moon”, coisas assim. Canta bem o danado, 63, aposentado, ex-empreiteiro de Boston que conheceu a esposa, uma loira de Pittsburgh, no hotel Glória, no Rio. Babe é também o MC do fim da tarde, que chama ao palco os homenageados – os sobreviventes de câncer de Celebration.

Todos de pé para o hino nacional. One nation under Mickey

 

              Uma garota manda, a capela, tradição americana, o hino. Mão no peito, aquela coisa. E começa a subir, um a um, no palco, os survivors: “Eu sou Chris,  sobrevivo há 3 anos” – palmas. “Eu sou Helen, sobrevivo há 37 anos” – palmas. Sobre ao palco uma garotinha, tem cinco anos de idade. “Sou Cindy, sobrevivo há um ano” – palmas e gritos e u-hu´s efusivos. Babe não hesita – emenda no CD player o hit the Kool and The Gang: “Ceeeeeelebrate good times, Come on!” As famílias dançam e o sol se põe dissolvendo os muitos tons de rosa e azul do sunset da Florida. Os únicos néons de celebration acendem – os do cinema – e começa uma marcha que vai varar a madrugada, até o amanhecer, por todo o passeio que circula o lago. Homenagem aos sobreviventes, enquanto lâmpadas feitas de velas em barquinhos de papel são colocadas na água para assustar, por pouco tempo, os pequenos jacarés daquele reino da alegria. Enquanto a estafa do repórter pede uma prostração na grama impecável defronte à feira, uma auréola gigantesca coroa a lua que brilha solta no céu. Engraçado, era a lua agora o que mais parecia plástico, um cenário. Parecia estar ao alcance de uma escada, como uma cúpula de um brinquedo da Disney. E, como Celebration, ela mesmo, a lua, era real. Era… perfeita.

 

Publicado em: http://fudeus.wordpress.com/2006/11/22/a-terra-do-nunca

 

 

Fonte: www.viajandoparaorlando.com
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Celebration Photos
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