| A Terra do Nunca
22/nov/2006
publicado em:
http://fudeus.wordpress.com/2006/11/22/a-terra-do-nunca
Em março
desse ano visitei a primeira cidade criada por uma
corporação, a Disney. Mapa, leis, diretrizes e… uma cultura,
foram determinadas em escritórios para fazer os habitantes
desse lugar mais felizes. Em Celebration, arredores de
Orlando, Flórida, grandes empresas não têm vez. Curioso…
quando uma corporação vira o Estado, a vida imita o que era
o mundo antes das corporações dominá-lo. A reportagem foi
publicada na revista Trip #144, mas com uma edição e fotos
um pouco diferentes. Aqui, a versão de Fudeus do “melhor
lugar do mundo”
Como uma
Sapucaí do consumismo, a Highway 192 corta Orlando em uma
apoteose de lojas de desconto, fast food, mini golfes,
farmácias e colossais anúncios explodindo luz néon. Mickeys,
Plutos, Patetas, Flamingos, Steaks, Frangos, Sonys, Nikes,
Adidas, Levi´s, McDonald´s, Volvos, Shell, Exxon, Burger
Kings, Hyatts, Marriotts – coorporações cintilam seus logos
e palavras de ordem (BUY! NOW! 20% 30% 50% OFF!) em busca
dos dólares e travellers checks do torrencial fluxo de
turistas que dirigem acelerados em carros refrigerados rumo
à Disney World.
Não há como
andar a pé, e certas placas de trânsito tem orelhas do
Mickey. Não há como atravessar andando as seis faixas sem
esperar 10 minutos. Não há um vira-lata para abrigar pulgas
na 192. Uma visão tão cheia de cores quanto de desolação –
atrás das milhas emendadas de lojas não há uma casa. Apenas
os pântanos da Florida e enormes pedaços de terra que, cedo
ou tarde, se o mundo não acabar, serão mais parques, lojas,
mini golfes, hotéis…
Acontece que em uma das
saídas da 192, entrando na cidade de Kissimmee, algo,
digamos, mágico acontece. A estrada estreita, cai para menos
da metade o limite de velocidade, desaparecem os logos.
Assim que suas laterais ganham plácidas calçadas e cercas
brancas – um branco perfeito como anúncios de alvejante – a
pista muda de nome. Celebration Avenue, a avenida principal
do “melhor lugar do mundo”. Melhor lugar do mundo? “É o que
gostamos de pensar”, explica Marnie Schubert, relações
públicas de Celebration, a cidade que a Disney inventou há
12 anos.
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O
branco que a sua família merece. Bem vindo à
Celebration |
O Plano "B"
do Plano "X"
Marnie
trabalha no Town Hall, espécie de prefeitura da “cidade”.
“Não somos uma cidade oficialmente. Ainda. Estamos no
processo para nos tornamos uma, é inevitável”, explica de
novo. Não são cidade, ok, mas se comportam como uma. Ou
melhor, como uma cidade deveria se comportar…
Celebration foi criada meticulosamente para fazer seus
moradores mais felizes. Claro que dentro do que a Disney e
seus arquitetos entendem por felicidade – uma América
inspirada pelos valores, costumes e arquitetura do passado,
de um tempo anterior às corporações onipresentes, das
letreiros luminosos dos automóveis agressivos e da pressa
generalizada. Inspirada, até seus habitantes concordam, em
um passado ideal, um passado que na verdade nunca houve. No
que a América deveria ter sido se… bem… fosse diferente.
Plano da Disney, mas não do
Disney, do Walt. O pai do Mickey tinha uma idéia quase
oposta quando pensou e colocou no papel em 1965 seu projeto
de uma cidade ideal. Chamou de Projeto X. Criou e rascunhou
tudo enquanto definhava do câncer que o matou no ano
seguinte.
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Disney em pessoa
arpresenta em um estranhíssimo vídeo de 1965 sua
idéia de cidade perfeita: EPCOT, a
anti-Celebration, que, anos depois, virou parque |
Imaginou
trens suspensos e silenciosos, arranha-céus monumentais,
corporações associadas, altíssima tecnologia e arquitetura
futurista. Walt queria, com suas palavras, “um lugar que não
poderia ser encontrado em lugar nenhum do mundo”.
Acontece que hoje os tais
arranha-céus, corporações e alta tecnologia são encontrados
em qualquer meridiano do globo. E seu sonho do Projeto X,
batizado por fim como Experimental Prototype Comunity of
Tomorow (Protótipo Experimental de Comunidade do Amanhã) foi
abreviada para sua sigla EPCOT e virou um dos parques da
Disney Wolrd. A
visão do tal “lugar nenhum do mundo” teve que ser revista.
180º
depois, eis Celebration.
Uma cidade sem edifícios, sem
velocidade, nostálgica e sem nenhuma corporação associada.
(Bem, quase nenhuma, como veremos adiante.). Lá, logotipos,
lojas de rede, propagandas de qualquer tipo são proibidas.
Curioso… quando a Disney planejou uma cidade, proibiu
justamente o que ela pratica com afinco pelo mundo.
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Nos postes da
cidade, uma das poucas chances do visitante
saber a quem pertence a “cidade do futuro” |
Pulando
as cercas brancas (de plástico) que cercam a cidade estão as
casas e apartamentos erguidos dentro de um rigoroso conjunto
de regras, um manual, estabelecido antes do primeiro morador
carregar sua mudança para lá. Certos estilos deveriam ser
respeitados – uma leitura limpa da arquitetura do sul dos
EUA. As casas coloniais da Louisiana, dos senhores das
fazendas de algodão, versões mais brejeiras de desenhos
vitorianos britânicos. Nenhuma casa pode ser alta demais,
colorida demais, ter placas ou luminosos. “Arranha-céus
fazem as pessoas se sentirem pequenas, como na cidade
grande. Aqui não…”, Marnie prossegue. Nenhuma casa pode ter
garagem na parte da frente, não pode ter uma lixeira que dá
para a rua.
Todas as casas devem ter
varandinhas antes da porta – “para os habitantes acenaram
uns para os outros”, Marnie ainda, “para relembrar dos
velhos costumes do interior”. Todas as cercas em Celebration,
devem ser brancas. Todos os jardins devem estar impecáveis.
E se não estiverem, Marnie? “Temos uma equipe que circula.
Quando algo não está no padrão, mandamos uma cartinha
pedindo mais cuidado com o jardim. Funciona sempre”.
Muito além
do jardim
Denise
Lord está com sua van toda suja de terra. Passou a manhã
comprando grama para seu jardim. É que Denise recebeu uma
cartinha dessas, pedindo mais atenção com a aparência das
plantinhas defronte sua casa. Denise é brasileira, de
Fortaleza, mas mora nos EUA há 20 anos. Faz tempo. Já morou
em tudo o que é cidade, a última foi Miami, e não quer
deixar Celebration por nada nesse mundo.
“Eu tenho uma filha de 13 anos.
Miami é uma cidade louca demais, não queria que ela tivesse
tantas opções na porta da adolescência”, desabafa enquanto
toma um café no Barnie´s, com vista para o lago. De fato.
Perfeitamente pacata, silenciosa e segura, não há muita
opção em Celebration.
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O point da cidade:
o chafariz de águas mornas dançantes. Loucura
total |
O Barney´s é o único café da cidade. Há mais 9 restaurantes
(todos deliciosos) e 11 lojas. Roupas, cartões, velas,
souvenires e jóias. Não há uma livraria em Celebration, nem
loja de CD. Os únicos jornais disponíveis na cidade são o
Celebration Independent, Celebration News,
jornais comunitários que estampam na capa desfiles de
cachorros e festivais de caridade, e o USA Today ,
notório periódico superficial dos EUA. Há um moderno cinema
em estilo Art-Déco, com duas salas, a construção mais
arrojada do lugar – na verdade, uma réplica do cinema em que
Branca de Neve e os Sete Anões estreou em 1937.
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A rua do mercado em
frente ao lago da “cidade pato”. Onde TUDO
acontece |
Todo esse
comércio se concentra em quatro quarteirões, metade de
frente para o lago. Há uma fonte de águas dançantes que
pulam do chão, onde em qualquer hora sob o sol há crianças
brincando. Uma calçada plana circunda o lago todo e se
estica pelos bosques, onde em qualquer hora sob o sol há
alguém caminhando, pedalando ou empurrando um carrinho de
bebê. Árvores antigas (trazidas já velhas e plantadas em
Celebration), devidamente identificadas por placas nas
raízes. E cadeiras de balanço de madeira clara onde repousam
os habitantes, diante do lago, espiando o reflexo do sol
desfazer a bruma que se forma pela manhã sobre a água;
espiando e os pequenos jacarés que dão à superfície. Répteis
que muitos pensam se tratar de bonecos, por isso as placas
na altura dos olhos: não entrem na água e não alimentem os
jacarés.
O silêncio é
praticamente uma atração turística do lugar. Apenas uma leve
melodia de pássaros e um zunido quase mudo brotando de
caixas de som em cúpulas de metal verde chumbadas nos
canteiros das palmeiras de altura idêntica. Soft jazz,
sempre. Talvez um carro faça um barulho, mas jamais
buzinará. Ou um ronco suave do motor de um dos muitos carros
elétricos que os habitantes preferem ter. De rodas pequenas
e velocidade baixa, quando parados ficam “abastecendo” com
fios ligados à tomadas dos postes da cidade. Grátis, é
claro. Mal se queima petróleo em Celebration, apesar das
Ferraris que passam aqui e ali e das Land Rovers que exibem
adesivos republicanos e patriotas. “Freedom is not free”,
“One Nation Under God”, “Suport our Troops”, “Truth will set
us free”. Não há unanimidade quanto a isso, evidente. E
Celebration não é, assim, um lugar político. Mas W. Bush não
é lá muito impopular nas redondezas. Conservadores? “Sim. Eu
sim. Não tenho muito do que me queixar”, defende a América
William Vaughan, 62, republicano aposentado em Celebration,
enquanto balança na cadeira defronte ao lago.
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Ferrari repousa na
segurança da Market Street. 40km/h é o limite de
velolcidade |
Nada parece acontecer… e o repórter caminha com um
deslumbramento contínuo pelas alamedas sem texto, sem som e
sem problemas. Um lugar perfeito. “Não é, não”, dispara
Stwart Ramsey, inglês, negociante de imóveis na Florida,
enquanto caminha junto, “as pessoas acham que é um lugar
perfeito. Mas todos têm problemas.” Qual o seu problema
aqui, Stu? “hummm, melhorar a escola da cidade para meus
filhos”.
Stuart faz parte de
um grupo de pais que procura recursos e professores para
melhorar o ensino da escola fundamental de Celebration. Não
que seja das piores, longe disso. O colégio é considerado
uma escola pública modelo nos EUA. Comparável a poucas. Mas
sempre dá pra melhorar, não é, Stu? “Sempre. É que as coisas
complicaram um pouco nos últimos tempos.” Ele se refere a
saída gradativa da Disney no financiamento e administração
da cidade. “Sempre foi o plano deles, deixar a cidade nas
mãos dos habitantes na medida que a comunidade amadurece.
Antes eles ditavam as regras aqui, mas davam dinheiro para
quase tudo aqui. Hoje têm apenas uma cadeira no Town Hall,
mas a cidade precisa se manter sozinha agora."
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As teachers de
Celebration: orgulho de “uma das melhores
escolas da América” |
2006 é o décimo ano de Celebration como uma comunidade de
fato. Foi fundada dois anos antes como empreendimento, mas
seus primeiros habitantes só chegaram lá em 1996. A procura
por casas na “cidade da Disney” foi tão grande e inesperada,
que a empresa teve que sortear quem teria direito a morar
ali na primeira etapa. Pagava-se para ter o direito de
disputar. “Todos pensavam que seria como morar na Disney, e
muita gente se decepcionou quando não viu o Mickey Mouse na
rua”, Marnie, a porta voz, explica, “uma mulher chegou a
ligar para Michael Eisner (então presidente da Disney) para
reclamar que foi enganada. Celebration não era perfeita
porque seu marido havia a abandonado”.
2006 é o último ano
da Disney em Celebration também. Após estabelecer os
padrões, criar as tradições, os feriados e as “leis” da
cidade, e depois de receber seus dólares dos terrenos e
casas, a Disney vai pular fora. Até porque, nunca quis fazer
de Celebration uma “cidade temática”. Não há Mickeys ou nada
do tipo nas ruas. Apenas três prédios com pinta de maquete,
a sede do grupo, e um discreto relevo em metal nas placas
dos postes da cidade, abaixo do selo de Celebration, escrito
“Disney ®”.
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Sede do
departamento mundial de marketing da Disney, em
uma das entradas de Celebration. Toda a
diretoria tem casas por lá |
Ainda nada
parece acontecer… e enquanto o repórter caminha ao lado de
Stuart pelas alamedas onde apenas os jatos automáticos de
água molham os gramados impecáveis, pergunta se o
entrevistado não se sente entediado. “Não. Eu comparo
Celebration com um pato”. Pato? “Sim, um pato. Na superfície
é calmo, flutuando devagar. Debaixo d´água as patas estão
agitadas, muita coisa acontece”.
Super amigos
Karlheinz Jaehling, ou Karl, é um alemão de 65 anos. Foi
alto executivo e engenheiro da Mercedes Benz por toda sua
vida adulta. Montou as principais fábricas da empresa fora
da Alemanha, inclusive no Brasil, em Juiz de Fora, onde
morou por dois anos implementando o projeto do Classe A. É
um homem rico, acostumado com reuniões importantes. Mas no
momento, aposentado, ele está abrindo potes de sorvete de
creme e flocos para servir aos outros colegas de terceira
idade da Friendship Force de Celebration.
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Frindship Force de
Celebration e o lanche para recepcionar Fudeus.
Força total para fazer amigos. Karl é o da ponta
direita |
É um dos
muitos e muitos grupos que existem para “agitar a
comunidade”, como disse Stuart. Há grupos de escoteiros, de
fãs de golfe, pôquer, de republicanos, de dança, de
brasileiros… Esse, o Friendship Force, é para fazer amigos
ao redor do mundo. Em torno da mesa estão 8 pessoas. Seis
senhoras, dois senhores (Karl incluso. É uma reunião
semanal, de duas horas exatas de duração, para planejar,
discutir e votar as melhores maneiras para receber amigos do
exterior de viajem marcada para Celebration e para onde eles
próprios devem ir no ano que vem. Ah, e um tópico especial
na pauta do convescote: dar as boas vindas ao presente
repórter do Brasil.
Votam para ver em que
restaurante devem levar os convivas e todos parecem
concordar. Até que surge um impasse – quem vai hospedar
Joyce, uma senhora Sueca que vai chegar para o festival de
tortas de maçã com sérias dificuldades de locamoção.
Deliberam, mas nenhuma conclusão. Deixam a querela para uma
lista de discussão por email e pretendem ter a questão
solucionada até a semana seguinte.
Karl e sua mulher,
a simpática Pat, fazem questão de poupar vinte dólares do
repórter e ofertam uma carona até o hotel na 192. Enquanto
os néons ressurgem e o tráfego da volta dos parques
congestiona a estrada, Karl relembra de São Paulo. “O oposto
de Celebration. Ah, você mora no centro? Hahahaha. Caos, não
é?
Celebration
é coisa nossa
Não há crimes por lá. Nunca
houve nada mais grave do que um furto de um veículo
estacionado. Nunca houve uma apreensão de drogas, nunca
ninguém foi pego chapado ou embriagado demais. Algumas
pessoas morreram por lá, sim, mas de causas naturais. Mas
ninguém foi enterrado lá, porque, em Celebration, cemitérios
não são bem vindos – é triste, e isso não convém.
É uma cidade sem jovens,
praticamente. Para se ter uma idéia, dos 1500 estudantes por
lá, apenas 150 são da High School, ensino médio dos EUA. A
grande maioria dos filhos crescidos de Celebration vão
embora da cidade. Não há muito para eles mesmo. A população
de 9000 pessoas é, basicamente, de aposentados ou jovens
famílias com filhos pequenos. Feita de gente que quer
sossego, segurança e uma vida oposta a das grandes cidades.
Exceção a essa regra é Tato, curitibano, ex-plioto de F3,
ex-baterista de banda de festa de 15 anos e, atualmente,
golfista e artista plástico morando em Celebration. Ele tem
28 anos.
Tato está tentando ganhar a
vida vendendo seus quadros de esporte em telas customizadas,
que ele mesmo prepara de acordo com o esporte retratado. Tem
futebol, golfe, baseball… e na sua busca por clientes, Tato
acompanha o repórter na busca a dois dos proprietários mais
inusitados de Celeb – Sílvio Santos (ele) e Jorge Bem Jor
(ele mesmo).
Ambos tem casas milionárias e
separadas por apenas uma única residência na Spring Park
Loop, um dos lugares mais nobres da comunidade.
É de sua casa alva, vitoriana,
de Celebration que Sílvio Santos decide muito do que vai
fazer com seu SBT, onde assiste muitos programas para “se
inspirar”. De lá ele deu aquela famigerada entrevista onde
disse, em uma pegadinha nacional, que iria morrer em seis
anos. Na época, Sílvio disse que “era o melhor lugar do
mundo esse que a Disney construiu”. É lá que o MC do Clube
do Mickey brasileiro pretende viver quando não tiver mais
ânimo para ditar as regras em sua TV.
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A doce vida em
Spring Park Loop: a casa de Sílvio Santos,
vizinha de Jorge Ben Jor; abaixo, outro vizinho,
o carioca gente fina Eduardo em sua piscina no
quintal e a rua dos fundos das casas da rua:
para não deixar o lixo na frente, sabe? |
A
campanhia bate, mas Sílvio não está. Apenas sua empregada,
Nalda, uma brasileira que se recusa a ser retratada. “Ele
vem muito pra cá, mas não sei quando. Ele não avisa.” Ela
interrompe e dá adeuzinho à uma mulher loira que desce de um
Audi TT carregada de sacolas: “Olá, Domingas!”. Domingas?
Ela é a Domingas, a mulher do Jorge Bem? “Ela mesmo”.
É uma mulher muito simpática e
doce. E absolutamente reservada. “Jorge vai ficar muito
chateado se você colocar nossa casa na revista. Ninguém sabe
que temos uma casa aqui.” Ela mora lá para cuidar dos
filhos, Thomás e Gabriel, que estão em uma universidade da
Flórida. Jorge só aparece de dois em dois meses. E, quando
vem, adora jogar golfe no campo de Celebration. “Aceita um
cafezinho?”. Claro, Domingas.
Uma casa grande, muito limpa a
iluminada, americana mesmo. Tomando um expresso na cozinha
com vista para a sala, tirando latas de Guaraná e Nescau das
sacolas, Domingas desabafa: “Olha, eu acho que está ficando
perigoso. É muito bom aqui, mas estamos cercados de um
bairro perigoso. Na verdade, Celebration fica em Caxias”.
É o quarto dia de
Fudeus em Celebration, e o Disney Way of Life
mostra sua face mais caridosa – começa o fim de semana e uma
das muitas e muitas atividades comunitárias que Celebration
promove. Um dia de feirinha feita pelos moradores para
arrecadar fundos em prol do tratamento de câncer. São vinte
barracas vendendo de hot-dogs a memorabilias de cinema.
Famílias montam seus home-theaters de plasma no gramado e
vendem “ingressos” de filmes por US$3. Outros vendem
Polariods com um sósia do Chaplin… coisas assim.
No palco do centro comunitário,
Babe Plante entoa sozinho, acompanhado de seu karokê hi-tech,
clássicos americanos. “Unforgattable”, “Fly me to the Moon”,
coisas assim. Canta bem o danado, 63, aposentado,
ex-empreiteiro de Boston que conheceu a esposa, uma loira de
Pittsburgh, no hotel Glória, no Rio. Babe é também o MC do
fim da tarde, que chama ao palco os homenageados – os
sobreviventes de câncer de Celebration.
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Todos de pé para o
hino nacional. One nation under Mickey |
Uma garota
manda, a capela, tradição americana, o hino. Mão no
peito, aquela coisa. E começa a subir, um a um, no palco, os
survivors: “Eu sou Chris, sobrevivo há 3 anos” –
palmas. “Eu sou Helen, sobrevivo há 37 anos” – palmas. Sobre
ao palco uma garotinha, tem cinco anos de idade. “Sou Cindy,
sobrevivo há um ano” – palmas e gritos e u-hu´s efusivos.
Babe não hesita – emenda no CD player o hit the Kool and The
Gang: “Ceeeeeelebrate good times, Come on!” As
famílias dançam e o sol se põe dissolvendo os muitos tons de
rosa e azul do sunset da Florida. Os únicos néons de
celebration acendem – os do cinema – e começa uma marcha que
vai varar a madrugada, até o amanhecer, por todo o passeio
que circula o lago. Homenagem aos sobreviventes, enquanto
lâmpadas feitas de velas em barquinhos de papel são
colocadas na água para assustar, por pouco tempo, os
pequenos jacarés daquele reino da alegria. Enquanto a estafa
do repórter pede uma prostração na grama impecável defronte
à feira, uma auréola gigantesca coroa a lua que brilha solta
no céu. Engraçado, era a lua agora o que mais parecia
plástico, um cenário. Parecia estar ao alcance de uma
escada, como uma cúpula de um brinquedo da Disney. E, como
Celebration, ela mesmo, a lua, era real. Era… perfeita.
Publicado em:
http://fudeus.wordpress.com/2006/11/22/a-terra-do-nunca |