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Las Vegas, a cidade dos superlativos 


 

Como os números da sorte fizeram daqui o lugar dos números assombrosos

DEZESSETE. PRETO. SEGUNDA COLUNA, SEGUNDA DÚZIA.
 

          No dia 17 de abril de 1958, a cidade mais luminosa do planeta, segundo aferição oficial de um satélite que circunda a Terra a 800 quilômetros de altitude, decidiu apagar todos os seus luminosos. As roletas seguiram girando e o carteado continuou comendo solto, mas Las Vegas adotou a medida extrema para tentar afugentar as centenas de milhões de gafanhotos, que, vindos do deserto adjacente, invadiram a cidade.

          Religiosos de toda a América rejubilaram-se: enfim uma praga bíblica para punir Sin City, a cidade do pecado, da jogatina, da nudez, do casamento sem compromisso e da prostituição. Mas de nada valeram suas preces. Em poucas horas, os gafanhotos se foram como mais um megashow que termina, a cada momento, porque há outro para começar.

 

Vegas foi a cidade do pecado. Hoje, é a capital do entretenimento

         

          As luzes voltaram, coloridas, ofuscantes. Cartazes, telões, painéis, fontes, fachadas e outros itens, que hoje (alguém contou) perfazem um total de 24000 quilômetros de tubos de néon, só voltaram a apagar durante a greve dos funcionários de hotel de Las Vegas em 1970. E, por mais três vezes - em 76 anos de jogatina - diminuíram de intensidade como sinal de homenagem. Às vítimas dos atentados em setembro de 2001. E nos dias em que morreram Dean Martin e Frank Sinatra, dois de seus maiores astros.

 

Dois. Preto. Segunda coluna, primeira dúzia.

 

Cinco. Vermelho. Segunda coluna, primeira dúzia.

Em geral, uma carta ruim numa mesa de black-jack. Números, porém, podem ser sempre mágicos - e o que seria de Las Vegas sem eles? O que você diria de uma cidade que apresenta, simultaneamente, cinco espetáculos diferentes do mundialmente consagrado Cirque du Soleil em cinco cassinos diferentes? Ou de uma cidade em que Céline Dion ganhou um coliseu de 4000 lugares e 200.000.000 de dólares para se apresentar cinco vezes por semana por pelo menos três anos consecutivos? (nos dois dias em que ela repousa, quem consola o público aflito é Elton John!).

Não há noites vazias em Las Vegas. Estão todos aqui. Os melhores mágicos. Os bailarinos mais talentosos. Os cantores que todo mundo quer ouvir. Os boxeadores que disputam títulos mundiais. Os cômicos mais engraçados.

 

Os maiores astros do mundo disputam os palcos de Las Vegas. o jogo É quem banca

 

          Alguns têm shows permanentes, outros vão e voltam. Não se sabe se por influência dos gafanhotos, dos rotarianos ou do FBI, mas os empresários da capital mundial do jogo não demoraram a compreender que tinham de diversificar. Las Vegas tornou-se a orgulhosa capital mundial do entretenimento. As fichas continuam indo e vindo; as famintas slot-machines regurgitam de quando em quando, mas ninguém pode acusar um lugar onde os Rolling Stones, Barbra Streisand, Madonna, Tony Bennet, Plácido Domingo, Bruce Springsteen, Cher e Andrea Bocelli - só para citar alguns nomes - apresentam-se com rotineira freqüência de ser um antro de perdição. Até o venerado ex-presidente Ronald Reagan já andou pelos palcos de Vegas, em um malsucedido show de duas semanas no cassino Last Frontier, em 1954.

          Em recente pesquisa, apenas 5% dos 38.000.000 de visitantes que a cidade recebe a cada ano disseram que vinham para jogar. Um índice respeitabilíssimo, que, entretanto, não tira o sono dos empresários do jogo. Porque outra pesquisa, menos divulgada, esclarece: cada apostador gasta, em média, 559 dólares em apostas a cada viagem. E embora a intenção seja das melhores, de cada 100 pessoas que passam por Las Vegas, apenas treze não sucumbem à tentação de jogar.

 

Treze. Preto. Primeira coluna, segunda dúzia.

 

CINCO CIRQUES!

 

 

          As coreografias do Cirque du Soleil são objeto de desejo do mundo inteiro. Pois só Las Vegas tem cinco delas em hotéis diferentes. "Mystère", a precursora, está nos palcos do Treasure Island; "O", com 85 artistas em uma performance aquática é a atração do Bellagio; "Zumanity", com uma temática mais sensual, está desde 2003 no palco do New York New York; "KA" é o nome da coreografia do Cirque du Soleil no MGM Grand. A última delas, que acaba de estrear no The Mirage (com a presença de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e todos os grandes nomes ligados aos Beatles) é "Love", um espetáculo em homenagem, claro, à mitológica banda inglesa. Para "Love" construiu-se um teatro próprio, com telões digitais de mais de 30 metros de altura.

Trinta e oito milhões e quinhentos mil.

 

          Para ganhar essa quantia você teria de apostar 100 dólares em um dos números de uma roleta e acertá-lo em cheio por 10694 vezes. Pois esse é o número de turistas que Las Vegas, um bloco de prédios no meio do deserto do Estado de Nevada, recebeu no ano passado. Se fosse um país, Vegas seria o sexto mais visitado do mundo. Tudo indica que, ainda em 2006, a Itália inteira, com sua civilização milenar, com Michelangelo, a Torre de Pisa, o papa e Veneza não atrairá tantos visitantes quanto a pátria dos cassinos.

          Há duas maneiras de interpretar esses números. Uma delas é execrar a inversão dos valores humanos e entregar-se à expectativa de um Apocalipse próximo. Outra é louvar o feeling mercadológico dos executivos que administram o paraíso do entretenimento.
         As duas hipóteses não se excluem. Se é difícil para um leitor de bom senso entender que uma cidade nascida do jogo tenha mais admiradores que a Inglaterra, o México ou o Canadá (e quase dez vezes mais que o Brasil), será facílimo fazê-lo sentir-se satisfeito por estar em Las Vegas.

 

Acredite: a cidade recebe quase tantos turistas quanto toda a Itália

 

          Tudo, por aqui, é exagerado, kitsch e impressionante. Mas, por menos que você goste, não há forma de seu olhar não ser atraído por um chamariz a cada passo. À impensável pirâmide egípcia que se ergue sobre o cassino chamado Luxor segue-se um castelo medieval com risíveis cavaleiros arrastando suas armaduras. E só um pouco mais adiante um vulcão explodirá como em Krakatoa, piratas levarão galeões colossais a pique, gondoleiros, trapezistas e gladiadores romanos cruzarão seu caminho.

 

         A comida será quase sempre farta e barata e os espetáculos, todos eles, magnificamente atraentes e bem produzidos. Não tardará para que você perceba que Las Vegas é apenas um equipadíssimo parque de diversões movido pela eficiente lógica de que, quanto mais tempo você ficar para distrair-se, mais você acabará jogando.

        E para que, mesmo indo a todos os restaurantes, shows e atrações da cidade, nunca lhe falte tempo de fazer uma fezinha, os cassinos ficam abertos todos os dias da semana, 24 horas por dia.

 

Vinte e quatro. Preto. Terceira coluna, segunda dúzia.

Trinta e um. Preto. Primeira coluna, terceira dúzia.

 

        Um ano que o diabo gostou. Os Estados Unidos mergulhados na Depressão. Todo espaço para leis que gerassem empregos.

          Nas areias quentes do sul de Nevada, emite-se a primeira licença de jogo em Las Vegas. Os deputados também aprovam a permissão para o inédito casamento de seis semanas. Ou seja: na América puritana dos anos 30 do século passado, os noivos ganham a permissão de experimentar. Se não der certo, o divórcio sai em quarenta dias.

 

Os noivos também apostam tudo aqui. são 120.000 casamentos por ano

 

       Em poucos anos, a explosiva combinação de jogo à vontade, casamentos experimentais e proximidade com Hollywood em sua melhor fase poria Las Vegas em lua-de-mel com a prosperidade. Lew Ayres e Lola Lane, Clara Bowl e Rex Bell estrearam a lei-do-casamento-vamos-ver logo no ano de sua aprovação. Em 1933, vindo direto das selvas, o Tarzã Johnny Weissmüller e Lupe Velez também trocaram alianças na cidade. A moda pegou: de Paul Newman a Jane Fonda; de Frank Sinatra a Elvis Presley; de Bruce Willys a Britney Spears, foram tantas as estrelas que se casaram em Las Vegas que é provavelmente mais fácil enumerar as que não o fizeram. O efeito secundário dessa avalanche de matrimônios célebres foi dar um terceiro título à curiosa cidade: além de capital do jogo e do entretenimento, Vegas tornou-se a capital americana dos casamentos.

          Cento e vinte mil deles são realizados a cada ano em um de seus 500 templos, por sacerdotes de toda espécie, inclusive sósias de Elvis Presley, tribunos romanos e índios moicanos. Há igrejas drive-thru, que unem os nubentes sem que eles precisem sequer deixar o conforto de seus carros.

          Como tudo por aqui, a idéia é facilitar a aposta. Com validade de apenas seis semanas, os casamentos de Vegas são de baixo risco. Muitos deles são abençoados pela fortuna de uma mesa cheia de fichas. Outros duram a noite de núpcias e uma jornada de azar na mesa de pôquer. Pela papelada, o Estado de Nevada cobra apenas 35 dólares.

 

Trinta e cinco. Preto. Segunda coluna, terceira dúzia.

Vinte e seis. Preto. Segunda coluna, terceira dúzia.

          Foi no dia 26 de dezembro de 1946 que o gangster Benjamin "Bugsy" Siegel inaugurou o Flamingo Hotel, o primeiro verdadeiro megacassino de Las Vegas, uma antecipação do que a cidade se tornaria nas décadas seguintes. Bugsy, um modelo de mafioso que seria retratado, mais tarde, em muitos dos filmes sobre a Cidade do Pecado, foi assassinado no ano seguinte. E antes que alguém tire conclusões apressadas, ele não nutria nenhuma afeição especial pela ave rósea e pernalta da qual emprestou (ou surrupiou) o nome dado a seu hotel. A homenagem, no caso, era apenas um mimo a uma namorada de pernas quilométricas com quem se divertia na ocasião.

          Por décadas, o comando das casas de jogo de Las Vegas esteve ligado a empresários suspeitos ou francamente ligados a atividades criminosas. Consta que a cidade começou a ganhar respeitabilidade apenas a partir do final dos anos 60 - e de novo por causa de uma figura estranhíssima: a do bilionário e enlouquecido Howard Hugues, personagem do filme O Aviador, de Martin Scorsese.
          No final de 1966, o recluso Hughes alugou todas as suítes do 9o andar do hotel Desert Inn para "passar uns dias".
          Terminado o período de sua reserva, recusou-se a sair, para desespero dos proprietários da casa, que haviam alugado os apartamentos para clientes assíduos às festas de fim de ano. Os pedidos iniciais transformaram-se em súplicas e, na seqüência, em pendenga. Hugues não queria mesmo sair. E como não se encontrou outra solução, comprou o hotel. O Desert Inn, primeiro, e vários outros depois.
          Ainda que louco-de-pedra, Hughes era o recentíssimo ex-proprietário da gigantesca companhia aérea TWA e seu ingresso no mundo dos negócios de Las Vegas trouxe respeitabilidade e novos investidores à cidade.

          O fato é que, quarenta anos depois, Las Vegas finalmente está à altura dos presumíveis delírios de Hughes. A cidade abriga nada menos que dezessete dos vinte maiores hotéis do planeta - e referir-se a eles como hotéis é como chamar um avestruz de passarinho.
          O maior de todos, chamado MGM Grand tem nada menos que 5041 apartamentos, situação que obriga sua lavanderia a higienizar, diariamente, cerca de 15000 fronhas de travesseiro. O menorzinho (dos dezessete) tem modestas 2567 acomodações, o que permite a seus hóspedes chegar ao apartamento sem o auxílio de um aparelho de GPS.

 

 

Vegas pode hospedar 350.000 pessoas por noite. É quase sua população
 

          Ao todo, no ano passado, Las Vegas inventariava um total de 171.123 quartos disponíveis em hotéis e motéis. Se você não imagina o quanto é isso, saiba que, em um mês, com apenas um casal por apartamento, praticamente toda a população da cidade de São Paulo poderia passar uma noite em Vegas.
          Esses números, porém, são insuficientes. A planilha de construções do Comitê de Desenvolvimento de Hotéis da cidade já contabiliza mais cerca de 40.000 novos apartamentos na cidade até 2010. E há outros 40.000 em fase final de aprovação, dos quais 5500 de um suposto Ultimate Sports Resort que, ao custo de 4 bilhões de dólares, destronará o MGM Grand.
          Quando se transforma toda essa aritmética em português, o resultado é uma impensável mistura de história e geografia. Na lógica "howardhuguiana" de Las Vegas, os tempos, as civilizações, os estilos e as tendências se misturam em um grande samba do crioulo doido. Porque sempre pretendem superar-se, uns aos outros, em alegorias e adereços, porque têm tema definido, alas distintas, animação e destaques, cada hotel é uma escola de samba desfilando ao lado da outra. A harmonia é nota zero. O conjunto, nota 10.

 

Dez, preto. Primeira coluna, primeira dúzia.

Vinte e um. Vermelho. Terceira coluna, segunda dúzia. Ou Black Jack, se seu jogo for outro, ás e figura, dupla imbatível.
 

          A crônica de Las Vegas sempre começa e acaba com números, mas, quando você estiver aqui, o único que vai lhe interessar é aquele em que você jogou. O dinheiro fácil na roda da fortuna. Em janeiro de 2000, um cidadão - diz-se que foi uma senhora de idade, jogadora compulsiva, tipo comum nos cassinos da cidade - apertou o botão de um caça-níquel e ganhou, instantaneamente, o equivalente a 72.000.000,00 de reais, várias mega-senas acumuladas.
          Há muitas histórias parecidas ao longo dos 6 quilômetros da Strip, a larga avenida em torno da qual se erguem os templos da jogatina. E há milhares de histórias de perdas colossais que, evidentemente, não ganham publicidade oficial.
          O caça-níquel milionário é apenas um dos 197.144 que se espalham pela cidade, desde o aeroporto até - acredite -, o seu próprio apartamento, conforme o hotel em que estiver hospedado. Os mais belos cassinos - como o Bellagio, que tem uma galeria de obras de pintores impressionistas avaliada em 300000000 de dólares, o Mandalay, que lembra as praias exóticas do Oriente ou The Venetian, que possui até uma réplica da Piazza San Marco - são apenas os mais amplos espaços para se apostar em um município onde nada menos que 1701 estabelecimentos têm licença para bancar jogos.
          Oficialmente, o faturamento direto da cidade com fichas apostadas é de perto de 10 bilhões de dólares por ano, dos quais 60% se originam das famintas maquininhas. Uma lei do Estado de Nevada obriga os caça-níqueis a pagar, em média, 75% do dinheiro apostado, o que parece uma ótima proporção. Ao fim e ao cabo, porém, um quarto das moedas que entram nas slot-machines não voltam nunca mais.

 

Paris, o Egito e Veneza juntos? Quem disse que só tem jogo por aqui?

        E, se assim não fosse, Las Vegas não seria o que é. Uma das cidades que mais crescem nos Estados Unidos. Uma das poucas, em toda a América do Norte, onde tudo funciona o tempo inteiro. Segundo assegura um informe oficial do Las Vegas Convention and Visitors Bureau, a qualquer hora do dia ou da noite é possível fazer coisas tão incomuns quanto contratar um advogado, lavar os carpetes, casar-se ou divorciar-se, comer um coquetel de camarão por 99 cents ou tomar um drinque grátis nas imediações de algum crupiê que deseja amolecer seu bolso.
          Resta quase nada de seu passado sangrento e quanto à porção romântica de sua vida pregressa, ela é hoje fomentada por profissionais de comunicação graduados em Harvard ou Stanford e munidos da mais sofisticada tecnologia.
Corporações milionárias controlam quase todos os mega-hotéis que parecem concorrentes. A holding que detém as ações do MGM Grand é também a proprietária do The Mirage, do Bellagio, do New York New York, do Treasure Island e do The Golden Nugget - e, se você vier até aqui, vai jurar que eles estão disputando sua preferência como inimigos mortais. Outros grupos também possuem vários cassinos paquidérmicos em conjunto.
          Basta caminhar pelo Strip, contudo, para entender quais são as novas intenções dos senhores de Vegas: estratificar; criar casas diferentes para públicos diferentes; agradar tanto a pobres jogadores compulsivos do Meio-Oeste quanto a exigentes moradores de Park Avenue, em Nova York, ou novos milionários da China e dos Tigres Asiáticos.
Agradar, enfim, a mim e a você, leitor dessa reportagem, que - chamo sua atenção - ocupa um total de vinte páginas da revista. Vinte. Preto. Segunda coluna, segunda dúzia.

 

Texto Ronny Hein
Fotos Marcelo Spatafora

Edição 82 - Agosto de 2006

 

Fonte:http://www2.uol.com.br/proximaviagem/viagens/las_vegas_82/index.shtml (acesso 02/09/2006)
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