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Geografia/Subimperialismo
brasileiro na América do
Sul/
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Um “subimperialismo”
brasileiro na América do
Sul?
9/10/2006 - Edu
Silvestre de
Albuquerque*
A expansão de capitais,
mercadorias e serviços
de origem brasileira
pela América do Sul tem
causado sérios embaraços
para a diplomacia
brasileira. O protesto
boliviano contra a
presença econômica
brasileira no país é
apenas mais um capítulo
da oposição gerada entre
os países vizinhos
contra a expansão
econômica brasileira
pela região. As recentes
ações contra empresas
brasileiras que exploram
recursos naturais do
país como minério de
ferro e gás natural, não
são apenas atos isolados
do governo Evo Morales,
mas contam com
expressivo apoio da
população boliviana.
A principal atingida
pela nacionalização da
exploração dos recursos
naturais bolivianos foi
sem dúvida a estatal
brasileira Petrobras. A
multinacional Petrobras
forma verdadeiro
monopólio regional ao
atuar na exploração,
refino, transporte e
distribuição de petróleo
e gás natural na maioria
dos países
sul-americanos. Quando é
a Shell ou uma das
outras “Grande Irmãs”
quem expandem seus
negócios pelo mundo,
chamamos isto de
imperialismo. Mas não
parece se passar algo
diferente com a atuação
da Petrobras.
Mas a presença
avassaladora da
Petrobras não é a única
queixa de nossos
vizinhos. Vale lembrar
que da própria Argentina
– cuja economia é bem
maior que a boliviana –
partem constantes
reclamações da classe
empresarial e de
políticos locais contra
o que consideram uma
invasão de produtos e
empresas brasileiras com
o advento do Mercosul.
Inaugurado pelo Tratado
de Assunção (1991), o
bloco econômico
sub-regional tem sido
alvo de diversas
críticas também dos
países de menor
desenvolvimento
econômico, casos do
Uruguai e Paraguai, que
exigem compensações
comerciais diante do
gigantismo econômico de
seus parceiros.
Curiosamente, quem
ajudou a reverter esse
clima político regional
desfavorável foi
justamente o criticado
Hugo Chávez ao inserir a
Venezuela e suas ricas
reservas de
hidrocarbonetos no
Mercosul.
É verdade que as
sementes da discórdia
regional já estavam
lançadas desde o Tratado
de Tordesilhas (1491),
que dividia as terras a
serem oficialmente
descobertas no Novo
Mundo entre as Coroas de
Portugal e Espanha.
Portugal foi
continuamente
“empurrando” os limites
oficiais para oeste,
alegando o princípio do
uti possidetis, a terra
deve pertencer a quem de
fato a ocupa. Nesse
processo expansionista,
a pecuária e a extração
da borracha foram
atividades econômicas
fundamentais para a
colonização portuguesa
de áreas interiores do
continente, e que mais
tarde, por exemplo,
daria vazão à Questão do
Acre, que resultou na
amputação territorial
(outra vez!) da sofrida
Bolívia.
Coisas do passado?
Atualmente, estima-se
mais de 15 mil
brasileiros em atividade
seringueira no
Departamento de Pando,
na Bolívia amazônica, e
um número ainda mais
expressivo de colonos
brasileiros voltados
para a agricultura
comercial próximos da
fronteira com o Mato
Grosso do Sul. No
Paraguai são dezenas de
milhares de
"brasiguaios" instalados
principalmente na
agricultura, e também
expressivo o número de
orizultores e
pecuaristas gaúchos em
terras uruguaias.
O passado de regimes
militares também
reforçou o clima de
desconfiança entre os
países da região. A
própria construção da
hidrelétrica binacional
de Itaipu entre Brasil e
Paraguai ganhou à época
ferrenha oposição de
Buenos Aires que alegava
necessidade de ampliar a
discussão quanto ao uso
do potencial energético
da Bacia do Paraná de
modo a preservar seus
interesses nacionais.
Para piorar o quadro, a
geopolítica brasileira
do período era
fortemente influenciada
pelo pensamento do
General Golbery do Couto
e Silva, quem defendia
abertamente a ampliação
da influência brasileira
na Bacia do Atlântico
Sul e em particular na
América do Sul.
A redemocratização do
continente não trouxe a
“paz perpétua” entre os
países sul-americanos.
Nas últimas décadas, o
maior desenvolvimentismo
industrial brasileiro em
relação a seus vizinhos
depende cada vez mais da
expansão dos bens e
serviços made in Brazil
por toda a região. Vale
lembrar que cerca de 2/3
das exportações
brasileiras para o Resto
do Mundo são de produtos
de baixo valor agregado
e/ou de elevado consumo
de riquezas naturais
(soja, minério de ferro,
café, calçados, suco de
laranja, siderúrgicos,
açúcar e celulose), o
que demonstra ainda mais
a importância do mercado
latino-americano para a
produção industrial
brasileira.
Não é segredo que as
políticas
desenvolvimentistas
brasileiras
experimentadas ao longo
do último meio século se
valeram da criação de
empresas estatais
(principalmente
indústrias de base como
refino e petroquímica) e
também da atração de
subsidiárias de
transnacionais
norte-americanas,
européias e asiáticas
(principalmente
indústrias de bens de
consumo duráveis como
automobilística e
eletroeletrônica). A
motivação dessas grandes
empresas em
estabelecerem filiais no
Brasil era determinada
pela expressividade do
mercado interno
brasileiro, mas também
pela facilidade de
acesso aos demais
mercados
latino-americanos. Esse
processo foi
experimentado pela
Argentina, mas em escala
bem menor que a
verificada no Brasil,
daí também a explicação
do “mau humor” dos
hermanos em relação à
hegemonia comercial
brasileira no Mercosul.
Mais recentemente o
Brasil também tem
reforçado sua posição de
exportador de capitais
para os países
sul-americanos, através
do direcionamento do
sistema financeiro
nacional para a
viabilização da
exportação de bens e
serviços produzidos no
país, beneficiando
particularmente grandes
construtoras e empresas
de maquinário pesado.
Esse foi o caso do
financiamento bilionário
pelo Banco Nacional de
Desenvolvimento
Econômico e Social
(BNDES) do Gasoduto
Bolívia – Brasil, além
de grande parte das
obras de integração dos
sistemas de transportes
e energia que já se
anunciam: metrôs de
Santiago e Caracas,
ramais de gasodutos na
Argentina, asfaltamento
de rodovias no Peru e na
Bolívia, dentre outras.
Diante do exposto, é
inegável concluirmos que
a expansão da economia
brasileira (industrial e
de infra-estruturas de
transportes e energia),
de fato, acaba por
fortalecer o papel
geopolítico do país na
América do Sul, e com
isto alimenta as
desconfianças entre
nossos vizinhos acerca
do que faremos com esse
poder. Para que se
concretize o sonho
boliviariano (Simon
Bolívar foi o libertador
do jugo espanhol para
diversos países
sul-americanos) de
integração regional,
será necessário ainda
gigantesco esforço
diplomático envolvendo o
Brasil e seus vizinhos,
principalmente porque
uma América fragmentada
tem servido
historicamente apenas
aos interesses dos
países desenvolvidos.
_________________________
*Edu Silvestre de
Albuquerque é doutorando
em Geografia pela UFSC e
professor da
Universidade Estadual de
Ponta Grossa (PR),
organizador da coletânea
Que País é Esse?
Pensando o Brasil
Contemporâneo.
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